O ano em que meus pais saíram de férias

Em 1970, quando os anos de chumbo andavam bem pesados, uma jovem alagoana (que viria a ser minha mãe) não queria nem saber da ditadura de seu namorado carioca, que a enrolava desde a Copa anterior. De um lado aquele papo de menina de família que só dá depois do casamento, do outro aquele papo aranha de malandro, que acabou caindo na besteira de proclamar: “Só caso quando o Brasil for Tri”. Criado nos arredores do campo do Vasco e torcedor do Fluminense, o rapaz não poderia mesmo entender de futebol. Os tempos eram outros. Pelé e companhia não facilitaram e o resto é história.

Perdeu, mané. Logo tudo estava sacramentado. No civil e no religioso. Meus pais saíram de férias, ou melhor, em lua-de-mel, alheios ao futebol e à politica. Um ano depois, o pimpolho aqui era concebido. Se o gol tivesse sido marcado mais próximo ao Tri, provavelmente eu me chamaria Edson Fortunato, Clodoaldo Fortunato ou Carlos Alberto Fortunato. Mas foi um jogador da Itália, que perdeu por 4 a 1 para o Brasil, que inspirou meu primeiro nome, evitando uma combinação estranha e me concedendo ares de perdedor. Até que Rivelino Fortunato não seria um nome assim tão esquisito.

Nasci entre Copas, quando a de 70 já estava esquecida e ainda nem se pensava na de 74. Eu demoraria muito para ver o Brasil vencer uma. Minha avó, filha de italianos, católica fervorosa e apaixonada por futebol, não perdia a fé em ver o caneco novamente levantado por um brasileiro. Assistiu mais uma Copa e morreu na seguinte. Não viu o maravilhoso selecionado de 82, primeiro e único do qual me lembro, que só fez aumentar a vontade e quase enterrou de vez a esperança verde-amarela.

Primeiro filho, primeiro neto com avós morando na mesma casa e, não bastasse, a madrinha também, era rodeado de cuidados. Tinha bola, que é brinquedo de menino, mas “cuidado para não machucar o pezinho quando for chutar”, “botou a sandália ou a bota ortopédica?”. E assim, a falta de visão dos meus alienados pais fez a festa dos vendedores de coleções de livros infantis. Encheram-me de Monteiro Lobato, Daniel Azulay e clássicos da literatura infantil. Se possuía algum talento futebolístico, ele foi enterrado ali na casa 1 daquela vila na Major Mascarenhas, rua onde morreu pobre outro coitado que insistia nessa bobagem de escrever: um tal Lima Barreto.

Soterrado por livros, precoce e triste fim foi dado ao pequeno jogador. Recordações de gols, gritos, glória, fama, dinheiro e mulheres fáceis, jamais teria. Histórias e sonhos foram abortados longe da suburbana ladeira de paralelepípedos. Nada de ficar milionário aos vinte, aposentar-se aos trinta e caminhar para uma cômoda e muito bem-vinda decadência aos quarenta. Vida de escritor é bem diferente: todos parecem geniais aos vinte, são frustrados aos trinta, aos quarenta estão lamentando não terem um emprego público, os que insistem conseguem algum reconhecimento aos cinquenta e quando o sucesso finalmente chega já estão tão cansados que só pensam em se aposentar. Aí percebem que não há como, pois não pagaram um plano de previdência privada e o governo não aposenta ninguém como escritor, porque isso não é trabalho reconhecido.

Enfim, tudo isso é culpa de uma trepada dada no ano errado, de um nome mal escolhido e da falta de visão dos pais. Casais ainda sem filhos, não cometam tais erros. Mantenham seus rebentos longe dos livros, só permitam que escutem pagode, deixem os moleques na rua o dia todo e nada de aparelho para alinhar os dentes. O sucesso os espera e nosso orgulho estará garantido. Viva a cultura brasileira!

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2 respostas a O ano em que meus pais saíram de férias

  1. Tato disse:

    Ou seja: tás jogando a culpa da tua frangagem nas costas dos teus véios.

  2. Wilson disse:

    Já pensaste?
    Tu – Sandrão, o fenômeno?
    E a grana que viria?
    Um porrilhão de coisas para comprar… Ah! Todo aquele luxo e lixo do “grand Monde” aos teus pés. Top models, starlets, ricaças, maduras comedoras de anjos e GRANA, muita GRANA!
    De Roma, Paris. ao Irajá, em uma só voz, a multidão ovacionando o Sandrão! Ô vida boa da porra!
    Cú da madrugada, tu, cansado dos amigos, da farra, manda ver a saideira e cái no mundo. Vai lá no calçadão, na capitura de uns travecos, para feliz, terminar a noitada, “suado”, numa delegacia, rodeado de repórteros e repórteras que estamparão a tua cara nos jornais, magazines e TV… KKKKKKKKKKKkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!
    Olha o Sandrão Maravilha aí, gente!!!
    Abraços. 🙂

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