Os pecados dos pais

A revelação de que o pai da menina Eloá é um foragido da justiça acusado de participar de um grupo de extermínio levou muita gente a pensar em uma dessas frases que nos acostumamos a ouvir sem saber exatamente de onde vieram: Os filhos pagam pelos pecados dos pais.

Em um país de tradição católica, mesmo que não a sigamos, é comum ter crescido e estar acostumado à idéia de culpa e castigo, sobretudo a de um castigo divino. Isso está espalhado em vários livros do Antigo Testamento, mas provavelmente a passagem mais marcante esteja no capítulo sobre os Dez Mandamentos, no livro do Êxodo, quando se conta que Deus explica a Moisés a necessidade e os motivos de cumprir o primeiro ensinamento (Não terás outro deus além de Mim, normalmente ensinado como Amar a Deus sobre todas as coisas) e não adorar imagens:

Não te prostrarás diante delas e não lhes prestará culto, porque Eu, o Senhor, sou um Deus cioso que pune a iniqüidade dos pais nos filhos, até à terceira e à quarta geração daqueles que me ofendem (…) – Êxodo, 20:5

Aparece também em Levítico, no capítulo sobre Bênçãos e maldições:

Se, apesar disso, em lugar de Me obedecerdes, vos postardes hostilmente para comigo, exasperar-Me-ei convosco e castigar-vos-ei sete vezes pelos vossos pecados. Devorarei a carne dos vossos filhos e a carne das vossas filhas (…) – Levítico, 26:27-29

Deixando de lado qualquer interpretação religiosa, dogmática, literal ou fantasiosa, lembremos apenas que a função básica dos textos considerados sagrados não é outra senão sugerir um código de conduta que leve os seres humanos a viverem em paz e harmonia.

Sobre fazer algo e ver isso voltar-se contra quem executou a ação, encontraremos em qualquer tradição oriental muito anterior ao Cristianismo, em tradições ocultistas, no recente Kardecismo e em praticamente todas as escolas místicas e religiosas. Mesmo não seguindo ou professando qualquer uma delas, ao nos organizarmos socialmente acreditamos nesse retorno quando reunimos normas de comportamento e estipulamos punições àqueles que não as cumprem. É o mesmo conceito de justiça. De forma divina ou humana, queremos acreditar que aqui se faz, aqui se paga.

Antes de concluir, deixo duas histórias que testemunhei há muitos anos.

Na primeira, ao saber da morte de uma jovem de 19 anos, grávida, uma mulher, que antipatizava com o marido viúvo, no meio de toda a comoção causada pelo ocorrido, disparou: Bem feito para ele. No ano seguinte, ela, que já era mãe, engravidou de gêmeos. Depois de uma gravidez complicada, ela deu à luz os meninos. Um morreu em poucas horas; o outro, alguns dias depois.

Na segunda história, encontramos uma mulher casada há muitos anos, que desejava ardorosamente ser mãe. Apesar de todas as tentativas e tratamentos por parte dela e do marido, isso nunca acontecia. Ela já se preocupava com o avançar da idade e nada. Alguém, sabendo de seu desejo e não tendo condições de criar um filho, deixou uma criança em sua porta. A mulher ouviu o barulho e pegou a pessoa no ato. Agrediu-a e disse que não precisava do filho de ninguém, que não queria aquela criança. Um tempo depois, ela finalmente engravidou. A criança nasceu com várias deformações e sérios problemas de saúde. Ela se recusou a ver a criança e disse que aquele “monstro” não era seu filho. O bebê morreu em poucos dias.

Essas histórias, reais, são meramente ilustrativas. Deixo-as para que cada um tire suas conclusões e dê suas opiniões. Para mim, dentre outras coisas, a primeira representa a incapacidade de entender e respeitar a dor alheia; a segunda, mostra a incapacidade de amar verdadeira e incondicionalmente e também de perceber as formas que a vida (o destino, Deus, o que você preferir) encontra de nos fazer felizes.

Quanto ao caso do pai de Eloá, prefiro não pensar que a filha pagou por seus erros. Prefiro acreditar que o episódio deu a ele a oportunidade de se redimir e interromper esse ciclo de barbárie, essa “maldição”. Acho que este é o momento para ele se entregar e dizer apenas a verdade, seja ela qual for: que ele matou, que estava presente às execuções ou que ele sabe quem são os responsáveis. Ele já teve a oportunidade de sentir como é perder uma filha para um assassino, não pôde estar presente ao velório e ao sepultamento de sua filha única, está longe da esposa e dos filhos, está vivendo a continuidade da fuga de quase vinte anos atrás. Ser preso ou mesmo morto parece ser um preço muito pequeno a se pagar diante de tudo que já passou. Porém, mais importante que isso é não permitir que seus filhos e sua esposa paguem por seus erros. Ou alguém duvida que aqueles que ficaram serão sempre discriminados, olhados de forma diferente? Tomar a atitude correta e interromper o ciclo de erros é a única alternativa razoável.

Alguém só paga pelo erro de outro quando este não assume a responsabilidade e não busca compensar a atitude que provocou o problema. Não estamos pagando pelos erros de nossos pais em relação ao que eles fizeram ao planeta? Nossos filhos não pagarão pela nossa falta de consciência ambiental? Nossos filhos não pagarão por não lhes darmos tanta atenção? Está nas mãos de cada um de nós o poder de acabar com essas maldições.

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4 respostas a Os pecados dos pais

  1. Seu texto provoca reflexão.Na vida prática e mais especificamente nos dias de hoje no Brasil, o CÓDIGO DE CONDUTA não é cumprido pelos péssimos exemplos de IMPUNIDADE.Um abraço,Armando(lygiaprudente.blogspot.com)

  2. Jandiro Koch disse:

    A incapacidade de entender a dor alheia ultrapassou esse conceito… Preocupantes o regozijo e o prazer encontrado por muitos no sofrimento do outro.
    Quando é observada a desgraça do próximo parece que a nossa própria não dói tanto. Sadismo generalizado? Mediocridade? Mera curisoadade mórbida?
    Acredito num mix desses e de outros elementos. Não creio em crime e castigo ( nem na possibilidade de redenção do ser humano. )
    Acho que a teoria de Darwin está cada vez mais perto de ser superada. Na verdade, descendemos das hienas, bichos que se sujam com a própria merda e passam o dia rindo uns dos outros. (Claro que isso é uma metáfora grosseira, me perdoem os defensores dos animais.)
    Abraços.

  3. Wilson disse:

    Concordo com o Jandiro.
    Houve um tempo em que aprendíamos com a dor e o drama alheio. Tempo em que a dor dos outros, numa solidariedade de alma, era a nossa também. Hoje… É mais um show que deve continuar.
    Houve um tempo (penso que já falei sobre isso)que,um corpo numa calçada era sagrado. Não importava se meliante ou vítima inocente. Era um corpo cuja alma foi acertar suas contas com Deus. Um corpo que merecia uma prece, um sinal da cruz em intenção a alma que partiu; um ato de caridade, como uma vela a iluminar-lhe o caminho, um lençol e mesmo um jornal a cobrir-lhe o sono, agora eterno. Era um corpo apenas. Um corpo cuja alma receberia o julgamento de Deus. Não cabia a mais ninguém julgar aquele que foi e não é mais. Pessoas simples que cristamente cumpriam o ritual secular do respeito aos mortos.
    Hoje um corpo na rua incomoda a nossa pressa. Ou então, causa uma indiferença tão grande que assusta aos mais sensíveis.
    À correspondência da frase “Os filhos pagam pelos pecados dos pais.” está “Quem sai aos seus não degenera.” Portanto, quem cria filhos deve prestar muita atenção à própria conduta. Filhos se espelham nos pais. E aos que são pais ausentes peço cuidado. Uma seara abandonada só produz ervas daninhas…
    Abração,
    Wilson

  4. Renata Silveira disse:

    Tenho uma teoria, muito própria e muito minha, de que se não formos capazes de aprender com o sofrimento dos outros atraimos situações de dor para a nossa vida. E podem até ser as mesmas situações. Uma espécie de “karma do não troçes disto senão te ocorre o mesmo”.
    Não preciso bater com a cara contra o muro para saber que isto dói.
    A compreensão é o sentimento mais nobre no campo do relacionamento interpessoal… Quando ela falta, só nos resta a tolerância…
    E como sou de extremos, ou compreendo, ou não-tolero…
    Abraço

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