Janelas

Das janelas televisas e dos monitores conectados à Internet, nós brasileiros ficamos a ver janelas este ano. Primeiro com a menina jogada por uma. Quantas vezes foi mostrado aquele buraco na parede? Quantas a boneca fazendo o papel da menina mostrou o que as câmeras de segurança falharam em captar? Faltou algo. Faltaram os últimos instantes de vida da criança despencando e encontrando a morte no impacto contra o chão. Faltou matar a curiosidade mórbida de assisitir a morte ao vivo.

Seis meses depois, as atenções se voltam para outras janelas. Agora com a expectativa de acompanhar toda a novela em tempo real. O Big Brother está montado, mas não há qualquer desconfiança sobre aquilo não ser verdadeiro. É a vida como ela é: crua, bruta, estúpida, cheia de erros. São nossos erros vistos nos outros. O que faz com que, por um instante, nos sintamos melhores, superiores. O desequilibrado, as ameaçadas, quem está correndo risco de morrer, quem está tentando salvar e pode falhar. Nenhum deles é um de nós. Mas poderia ser. E a sabedoria maior reside em aprender com a observação. Talvez isso responda a pergunta que faço desde o desfecho dessa história: A que veio Eloá?

Há dezenas de lições a serem aprendidas com esse folhetim. Centenas de questões a serem pensadas, analisadas. Para mim, a que mais incomoda é essa: A que veio Eloá? Por que se dá a vida a alguém para que ela seja tirada antes de a pessoa ter a oportunidade de começar a utilizá-la?

Acredito que Eloá tenha sido sacrificada para mostrar, a milhões e de uma só vez, muitos dos erros que estamos cometendo e aonde estes estão nos levando.

A polícia errou? Demorou muito em agir? Deixou uma ex-refém se tornar outra vez refém? Deveria ter abatido o criminoso quando teve oportunidade? Não pensou que a invasão pudesse não surtir o efeito desejado? Por que não manteve cortada a energia do local? Por que permitiu que o criminoso tivesse todas as informações do que estava acontecendo do lado de fora, todo o tempo, pela tevê? Por que a tevê e a imprensa em geral transformou isso em um espetáculo que nos faz pensar que mais nada está acontecendo no planeta? Por que a imprensa se envolveu tanto e guindou um jovem desequilibrado à categoria de astro de tevê? Por que insistiu tanto em conversar e tentar convencer o garoto a se entregar quando isso é trabalho da polícia? Como a imprensa pode julgar o trabalho da polícia quando é, em parte, responsável por atrapalhar esse trabalho? Como a polícia pode ter medo de fazer seu trabalho por estar sendo monitorada? Como tudo aquilo poderia acabar bem?

Estas e muitas outras questões poderiam simplesmente não exisitir se tentássemos seguir o sábio conselho pitagórico: Educai as crianças e não será preciso punir os adultos. Sejam esses adultos criminosos, pais, policiais ou jornalistas. Não seria preciso apontar culpados se cada um de nós assumisse sua parcela de responsabilidade e evitasse ou ao menos reduzisse a possibilidade de que situações como essa chegassem a exisitir. Não existiria culpa ou culpado se não houvesse erro. Não existiria efeito se não houvesse causa.

No ponto em que chegamos, essa mudança precisa ser radical e certamente demorará muitos anos, algumas gerações talvez, para atingirmos um nível que possa ser chamado de civilizado. Mas essa mudança precisa ser iniciada. Agora. Dentro da casa de cada um. Mais: dentro de cada um.

Deveríamos deixar de nos ocuparmos em olhar para as janelas dos outros e dar atenção ao que se passa do lado de dentro das nossas janelas. Deveríamos aprender a apreciar o que vai nas janelas das almas das pessoas com quem convivemos. Deveríamos olhar em seus olhos, procurar compreendê-las, aceitá-las, auxiliá-las, orientá-las. Deveríamos tornar limpas e transparentes as nossas próprias janelas e mostrar em nossos olhares que temos como único objetivo vivermos em paz e harmonia.

Se a simples expectativa de um mundo melhor não for motivação suficiente, pensemos que tais atitudes podem evitar que o próximo circo se arme ao redor de nossa casa, que milhões de cegos fiquem com os olhos grudados em nossas janelas, que seu filho se sinta o rei do gueto ou sua filha seja a Eloá da vez.

Pense em Paz. Construa a Paz. Viva a Paz.

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7 respostas a Janelas

  1. Chris Angelotti disse:

    Sandro, mais uma vez você disse tudo!
    Olha, já há algum tempo não fico mais acompanhando tudo que acontece pela tv. Assisto uma coisa ali, leio um jornal, me mantenho atualizada mas não me alimento da noticia, se é que me entende.
    Acho que um dos passos para as mudanças que precisamos é a televisão parar de “alimentar os urubus”. Dá para mostrar a noticia,acompanhar o que acontece, sem tanto sadismo.
    Voltando a história da menina Eloá, e tantos outro jovens, tantas outras histórias,aliás, nossas histórias… acho que estamos passando por um “período de chaqualhão” é hora de mudanças.Mudanças na forma de educar, mudança na forma de lidar com o próximo, com nós mesmos. Como vc tão bem disse: “Deveríamos deixar de nos ocuparmos em olhar para as janelas dos outros e dar atenção ao que se passa do lado de dentro das nossas janelas. Deveríamos aprender a apreciar o que vai nas janelas das almas das pessoas com quem convivemos. Deveríamos olhar em seus olhos, procurar compreendê-las, aceitá-las, auxiliá-las, orientá-las. Deveríamos tornar limpas e transparentes as nossas próprias janelas e mostrar em nossos olhares que temos como único objetivo vivermos em paz e harmonia.”

  2. Aline Gomes disse:

    Boa tarde Sandro, quero dizer que tuas palavras foram certeiras.

    Peço desculpas mas fui obrigada a transcrever o seu texto no meu blog, pois teu desabafo é exatamente o meu. Se quiser nos visitar eu ficaria agradecida. Grande abraço, Aline

  3. Wilson disse:

    Prá você e para a Chris:
    Agorinha mesmo, na Record, no “Balanço Geral” deu-se a continuidade ao pós drama Eloá. Sim, é preciso dar continuidade, sugar, como ávidos vampiros, até a última gota. Mostraram o cemitério no dia seguinte. a sala do vélório vazia, revivendo detalhes que já exauriram a paciência e o saco dos telespectadores. Caminharam pelo CDHU, revivendo aquilo que, por uma semana, foi mostrado incessantemente. E, como urubús à espera do último suspiro de um animal agonizante, estão à frente do hospital, esperando a saída da segunda vítima – mais uma vez vítima da sanha de predadores.
    Faz-se de tudo pelo IBOPE – esse deus que faz uma grande sombra até sobre o Deus da Igreja Universal.
    Em outro canal, nessa semana absurda que passou, a paresentadora fez caras e bocas e voz embargada de quem solidáriamente sofre e se sensibiliza com o drama, entrevistando convidados. Fala que fala, lastima que lastima e REPENTINAMENTE corta a fala do convidado, levanta-se e vai para um anexo fazer a seu “merchandaising”. Aí, caras e bocas mudam completamente. Voz clara e sorrisos…
    Ninguém passa de um estado emocional para outro tão derrepente. A não ser que seja um tremendo finjidor ou sofra de bipolaridade.
    A ética no jornalismo para ter caído em desuso, está virando (se não virou) arcaísmo) E, graças a Deus, nesse meio, existem muitas excessões!
    ELOÁ veio para viver a vida, como qualquer um de nós. Infelizmente não há como medir o índice da maldade que todos trazemos dentro. Ela não veio para salvar vidas através do transplante de orgãos, como se fosse um animal de sacrifício. Aceitar isso, teria que aceitar o fato bíblico que diz: Os filhos pagam pelos pecados dos pais (Já que o pai dela é procurado por assassinato).
    Há muito tempo preferimos olhar através da janelinha eletrônica que todos temos em nossas salas e finjir que conversamos enquanto o monólogo se desenrola… Não há pais, não há filhos, só a telinha “mostrando o mundo”. Mas a telinha não mostra o que acontece ao nosso redor, em nossa casa.
    A polícia errou em todos os sentidos. O comandante deixou-se levar pela emoção: “É um garoto apaixonado, etc,etc.” Coseguiu o que queria: Salvou o garoto e sacrificou as vítimas. Negociadores devem ser frios, cauculistas; devem ter a capacidade de agir no momento certo e não deixar-se levar pela emoção ou pelas vontades de um elemento “border line”. A prioridade, nesses casos, sempre é a vítima e não o criminoso.
    Eu até entendo essa atitude de “pisar em ovos”. Aqui, mais uma vez a imprensa e os meios de comunicação podem ser responsabilizados.
    Os anos passam e uma névoa encobre os detalhes do fato. Mas, o fato é claro: Um invasor invadiu um sobrado e fez uma mulher refém. O atirador de elite posiciona-se e dispara. O progetil atinge a mulher e não o meliante. A imprensa critica, faz um estardalhaço.
    Daí o temor do tal comandante com relação à imprensa.
    Não, Eloá não nasceu animal de sacrifício. Foi vítima da maldade humana!
    Concordo com você, sobre educar as crianças. Mas, como fazer isso, quando a célula família virou somente um conceito? Filhos não conhecem realmente os pais e pais realmente não conhecem os filhos. Estranhos que habitam o mesmo espaço, só isso. Sei que, neste caso, também há excessões, mas são mínimas.
    Acredito em harmonia, em busca da perfeição. A família, a religião (seja ela qual for), a educação e leis duras que, mais que a punição,visem evitar reincidências. E a tudo isso, dou vital importância ao AMOR. É ele a base de tudo. Porém, hoje em dia, o amor parece que TAMBÉM caiu em desuso…
    E, nós, seguimos pela vida dando importância a uma infinidade de janelas e, comodamente, fechamos a persiana da janela da nossa alma. Fechamos a persiana sobre sentimentos de amor ao próximo, solidariede e sensibilidade.
    Nenhuma janela é mais importante que os nossos olhos.
    Abração.

  4. Aline Gomes disse:

    Sandro os erros já foram corrigidos. Furtado é o sobrenome de um colega de trabalho… Ato falho, perdão.
    Mesmo assim obrigada pela visita e compreensão. Grande abraço, Nina

  5. Chris Angelotti disse:

    Gostei, Wilson!

    Mesmo que sejamos um grão de areia,um pontinho na imensidão, é assim, unidos, acreditando no amor, na família, no compartilhar, no respeito que podemos sim mudar alguma coisa. Esses valores podem ter caído em desuso, mas talvez uma minoria como nós, só saiba viver se for para lutar por eles. Então vamos em frente!
    Abraços

  6. Sandro Fortunato disse:

    Nessa, como em toda história – real ou de ficção – há inúmeros pontos que chamam mais ou menos a atenção de cada espectador. A partir de nossas próprias experiências, temos esse ou aquele ponto como atrativo principal, que nos toca de maneira especial e que nos faz opinar ou esconder aquilo que pensamos.

    Cresci em uma cidade grande e violenta como a que se desenvolveu o drama e tenho uma filha de quinze anos; CHRIS cria filhos no estado de São Paulo; WILSON, macaco velho, paulistano, teve cinquenta anos para assistir o caos se instalar em sua outrora pacata cidade…

    Depois de acompanhar esse caso, não tenho mais porquê não assumir que sou ex-jornalista e que, muito provavemente, jamais o fui profissionalmente, pois preferiria morrer de fome a fazer o trabalho nojento que grande parte da imprensa vem apresentando.

    Mas vou me deter, neste comentário, em dois pontos: a vibração negativa a qual nos acostumamos a corresponder e a reafirmação do objetivo principal do texto Janelas.

    Responda rápido: quantas vezes você desejou que o rapaz fosse acertado por um atirador de elite? Quantas pensou que os policiais o matariam durante a invasão ou no caminho para a delegacia? E já que nada disso aconteceu, não pensou que na cadeia outros bandidos dariam cabo dele?

    Se por algum instante pensamos nisso, não nos enganemos: temos a mesma natureza selvagem do rapaz que pegou a arma e matou a ex-namorada. Provavelmente mais domada, mas se pensamos é porque ainda temos algo disso dentro de nós.

    Alguém fez um comentário aqui que, sabe-se lá se pela boas vibrações do blog, apaguei acidentalmente, junto com vários spams. Nem cheguei a ver de quem era, mas fazia uma defesa sobre a pena de morte, que seria “a única solução para casos desse tipo”.

    Creio que ao pensarmos dessa forma, nos aproximamos muito mais de qualquer assassino, ficamos muito próximos do desequilíbrio de um Lindemberg. Ou talvez a minha natureza seja ainda mais cruel, pois acho que pessoas assim deveriam viver muito para se lembrarem por mais tempo do erro que cometeram. Eu me esforço em vivenciar o perdão, mas acho que, independente disso, alguém que comete uma barbaridade dessas não deveria passar 30 anos na cadeia, mas o resto da vida. E que esta seja muito longa. Toda liberdade perdida e todo tempo do mundo para pensar a respeito.

    E com isto reafirmo o objetivo principal do texto Janelas, que não era o de fazer qualquer julgamento sobre o episódio ou seus envolvidos, mas aproveitá-lo para convidar os leitores a exercitar, fortalecer e multiplicar sentimentos de Amor e Harmonia para que possamos viver em Paz.

    A respeito da descoberta sobre o passado do pai de Eloá e o tema dos “filhos pagarem pelos pecados dos pais”, falo no próximo texto.

  7. Chris Angelotti disse:

    Sandro,

    Adoro ler seus escritos! adorei seus comentários, acho que você sempre “pega no ponto”.
    Como vivemos num mundo louco, é normal que julguemos os acontecimentos para tentar abstrair deles alguma coisa, espero que sempre positiva.
    Aqui vai um texto que li essa semana e que acho que tem tudo a ver com essa proposta d e paz, harmonia e mudanças.
    Abraços,

    Chris

    Pequenos Gestos

    É curioso observar como a vida nos oferece
    resposta aos mais variados questionamentos do cotidiano…

    Vejamos:

    A mais longa caminhada só é possível passo a passo…
    O mais belo livro do mundo foi escrito letra por letra…
    Os milênios se sucedem, segundo a segundo…
    As mais violentas cachoeiras se formam de pequenas fontes…
    A imponência do pinheiro e a beleza do ipê
    começaram ambas na simplicidade das sementes…
    Não fosse a gota e não haveria chuvas…
    O mais singelo ninho se fez de pequenos gravetos
    e a mais bela construção não se teria efetuado
    senão a partir do primeiro tijolo…
    As imensas dunas se compõem de minúsculos grãos de areia…

    Como já refere o adágio popular,
    nos menores frascos se guardam as melhores fragrâncias…
    É quase incrível imaginar que apenas sete notas musicais tenham dado vida à “Ave Maria”, de Bach, e à “Aleluia”, de Hendel…

    O brilhantismo de Einstein e a ternura de Tereza de Calcutá tiveram que estagiar no período fetal e nem mesmo Jesus, expressão maior de Amor, dispensou a fragilidade do berço…

    … Assim também o mundo de paz, de harmonia e de amor com que tanto sonhamos só será construído
    a partir de pequenos gestos de compreensão, solidariedade, respeito, ternura, fraternidade, benevolência, indulgência e perdão, dia-a-dia…

    Ninguém pode mudar o mundo, mas podemos mudar uma pequena parcela dele:

    esta parcela que chamamos de “Eu”.

    Não é fácil nem rápido…

    Mas vale a pena tentar!
    Sorria!!!
    Fabio Azamor

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