Velhos palhaços na estrada

Nos últimos instantes de meu último e involuntário ato na Rainha da Borborema, assisti aos Clowns de Shakespeare. Houve ainda uma tentativa de ver algo da apresentação do Cordel do Fogo Encantado. O algo ficou só no bis e na observação de que não se pode aprender a ser palhaço. Você é e pronto.

Na manhã seguinte, partindo para o exílio sem saber, vencida a etapa de chão paraibano, iniciei um papo de velho com Fernando Yamamoto. “Lembra?”, “naquele tempo…” e outras expressões que entregam a idade de qualquer um iniciavam boa parte das frases. Quinze anos é algum tempo. É o tempo que nos conhecemos. Já rodamos bastante e, vez por outra, nossos caminhos se cruzam. Nesses momentos, completamos algumas lacunas: “o que está rolando”, “como foi”, “e aquela história”…

César Ferrário acorda e se junta à conversa. Logo percebe que é difícil fugir “daquele tempo”. Então começa a reconhecer as mudanças recentes, que também existe uma “crise dos 30”, durante a qual insistimos em adolescer em vez de envelhecer. Histórias como a de Fernando se metendo a bater cabeça ao som de Iron, em casa, e ficando todo quebrado depois de duas músicas; meu quase infarto depois de uma nadada no mar de Jacumã ou a excursão de César com um grupo de terceira idade mostra a difícil adaptação do adolescente de 30 anos.

E quando o papo recai sobre as filhas, o grande medo é que canalhas como todos já fomos se aproximem delas. Filhas deveriam ser freiras ou casar somente depois dos 40. Fica difícil bancar o adolescente quando se corre o risco de ser avô.

Natal, esta cidade para se pagar karma, chega mais uma vez e cada um desce em uma parada. Novos pontos de partida, novas histórias começando. Cada clown inventa um personagem e segue seu caminho, sem saber o que esperar da próxima platéia e até se haverá alguma. O que importa é o que se faz no palco. Vamos ao próximo ato.

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