Vaqueiros e heróis de Brasília

O Romance do Vaqueiro Voador conseguiu me tirar da clausura. E foi fácil. Numa dessas incríveis “coincidências”, encontrei Helton Paulino na noite de sexta e fui avisado: “Ó, amanhã pela manhã…”.

Quando o filme foi exibido na abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2006, minha cabeça já passeava por outros lugares. Acho até que eu não estava na cidade. Perdi de ver Baixio das bestas na telona, não perdi nada em esperar para ver Batismo de Sangue em casa e graças aos céus não vi Cleópatra. O único filme que realmente queria ter visto naquela edição do festival era Romance do Vaqueiro Voador, que nem estava em competição.

Sabia apenas que falava sobre os operários que construíram Brasília. E assim permaneci, quase virgem de informações, por aproximadamente dois anos, para finalmente vê-lo em uma sala de cinema em Campina Grande, na mesma Paraíba onde nasceram seu diretor, Manfredo Caldas, e o ator Luiz Carlos Vasconcelos.

O vaqueiro me pegou de jeito e na hora certa. Não me deu chances de pensar, analisar, criticar.

Confesso: estou com saudades de Brasília. Confesso duplamente: gosto muito de Brasília. Dos lugares onde morei, foi o único para o qual escolhi ir. E único do qual saí com aquele gosto de “espere que eu volto já”.

Adoro Brasília porque é uma cidade inventada. E quem chega por lá se reinventa. É um lugar repleto de personagens. Uma história que está acontecendo, um livro que está sendo escrito. Foi lá que experimentei ser ninguém e isso, ao contrário do que pensa aquele que sonha ser alguém, é algo maravilhoso e extremamente enriquecedor. Principalmente para uma pessoa como eu, que anda por aí lendo as cidades, as pessoas, as coisas. Só dá para fazer isso sendo invisível ou sendo ninguém.

Brasília é uma terra de sonhos. As pessoas vão para lá atrás de dinheiro. Podem conseguir muito e agir como senhores de tudo; podem conseguir algum e agir do mesmo jeito até esbarrar com um que tenha muito; podem não ter nenhum e fingir que têm. Em Brasília, parece que todo mundo fica rico. A primeira providência é se reinventar, aprender o que é preciso fazer para ser aceito no mundo dos novos ricos, dos novos estabelecidos. A má educação é esquecida, o passado pobre é anulado, novos hábitos são adquiridos. Agora todos são gente.

Foi assim desde sempre. Aliás, antes ainda, quando a cidade nem existia. Lá estava o sonho, o Eldorado, o dinheiro, a vida que se sonhou. Os candangos foram chegando para construí-la com o próprio sangue. Literalmente. É isso que o Vaqueiro mostra.

A história oficial conta que houve apenas uma morte durante a construção da cidade: a de Bernardo Sayão, quando uma árvore caiu sobre a barraca onde ele estava. Ele também morreu voando. No helicóptero que tentava levá-lo a um hospital.

No Romance do Vaqueiro Voador vemos uma conta e uma história diferentes. “Três ou quatro mortos por dia”, sepultados em valas comuns ou junto com a obra. Mais de mil para cada ano de construção. Grande parte no “28”, como costumava ser chamado o maior prédio da cidade, o do Congresso.

Eu trabalhei no “21 do 28”. Para chegar lá, saindo da Asa Norte, percorria toda a extensão da Esplanada dos Ministérios. Em meus primeiros tempos de Brasília, adorava fazer isso a pé. Passava pela rodoviária. Esta sempre vomitando gente vinda do Norte, do Nordeste, de todo canto onde há pouco ou quase nada. Gente não; uns cabras querendo ser gente. Milhares de rostos. Passei seis anos prometendo me deter em três pontos: nos barbeiros que cortam cabelo ao ar livre, ao lado da parte baixa da rodoviária; nos que enlouqueceram e nos fantasmas da Esplanada. Mas, ainda que menos apressado que a maioria e curtindo o anonimato, eu também estava com a cabeça em outras coisas e deixei isso passar.

Manfredo foi lá e fez muito melhor. Deu voz ao povo para que contasse sua história. Até hoje muita gente tem medo, não gosta de falar. No filme, mulher nenhuma fala.

Essa obra alicerçada com ferro, concreto, carne e sangue talvez explique muita coisa, inclusive a antipatia que muitos têm pela cidade, meio século depois, mesmo sem nunca ter pisado nela. Talvez explique a tristeza e o desencontro de muitos que foram morar lá.

Começo a ver fantasmas que antes pareciam ter histórias isoladas. A queda do avião com o fotógrafo da revista O Cruzeiro, que cobriu o primeiro baile de debutantes da cidade. Os filmes, recuperados nos destroços, mostravam imagens bizarras, assustadoras, da cidade e das meninas que estavam sendo apresentadas à sociedade. Na edição especial de O Cruzeiro sobre a inauguração da nova capital, o Amigo da Onça, personagem que vemos muitas vezes encarnado nos políticos que fazem Brasília, abria o gás do banheiro para a própria mulher morrer. No final do ano seguinte, o próprio Péricles, criador e desenhista do personagem, se mataria abrindo o gás do fogão em seu apartamento.

Em abril de 1960, na festança para a alta corte, os candangos já estavam esquecidos. Um registro mínimo, mas importante, foi o de Maneco Muller, o Jacinto de Thormes, na revista Manchete. Intitulada O candango – Herói de Brasília, a crônica da edição que mostrava a inauguração da cidade homenageava aqueles que realmente a construíram. O cronista dizia:

Pena que o candango com sua fibra, bondade e intenção, vá desaparecer. Ele e sua Cidade Livre vão restar apenas na história essencial das coisas brasileiras. (…) Candango será absorvido pela cidade organizada, e será operário penteado, roupa limpa, sapato novo, dinheirinho no banco. Com o desaparecimento da poeira vermelha, o candango perderá o aspecto heróico e se transformará em folclore.

Os candangos não desapareceram. Eles continuam desembarcando ali a três quilômetros do 28, sempre cheios de sonhos e esperanças. A poeira vermelha também continua por lá. Levantada pelo vento, dá uma secura enorme dentro da gente. Uma secura na alma. Talvez seja a forma dos candangos lembrarem que continuam lá, que fazem parte da cidade, entrando em cada um, embrutecendo, entristecendo, enlouquecendo os que acreditam ter virado gente.

Eu continuo candangueando pelo mundo, mas hoje respeito e amo muito mais Brasília. Não a das aparências, a dos personagens inventados, mas a da argamassa feita com gente de verdade. Amo mais porque a entendo melhor. Entendo que aquele céu lindo foi a maneira que encontraram para equilibrar toda a podridão que existe dentro dos seus prédios. Foi o céu que os vaqueiros voadores ganharam para nunca saírem de lá. A partir de agora, vou lembrar deles toda vez que olhar para o alto.

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2 respostas a Vaqueiros e heróis de Brasília

  1. Wilson disse:

    A História oficial costuma varrer muitos fatos para baixo do tapete.Um dia, alguém levanta o tal tapete e, então, a realidade dos fatos aparece para exclarecer, ou escandalizar. Então a história oral dos acontecimentos, antes tida como boatos, torna-se verdade.
    Taí uma Brasília conhecida de muitos acontecendo como realidade histórica.
    Lembro quando da construção da Ponte Rio-Niterói, oficialmente, delclarou-se que houve poucos acidentes e irrelevantes… Acredito nisso. E também acredito em Papai-Noël, Coelhinho da Páscoa…
    Abração 😛

  2. Sandro Fortunato disse:

    Muito bom você lembrar a Rio-Niterói. Há alguns anos falei no blog (acho que ainda no Leseira Geral) sobre um livrinho INFANTIL no qual, no rodapé de cada página, a ponte ia crescendo. Nesse livrinho falava sobre as pessoas que caíam e era misturadas ao cimento da ponte. Se alguém conhecer esse livro, AVISE-ME.

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