Um Brasil cada vez mais careta

O pensamento surgiu há alguns anos. Eu me via em uma reunião de família, com meus filhos e netos, procurando nestes últimos um “bom rebelde”. Eu, o avô maluco, contestador, atiçando sempre e perguntando se alguém ali, além de mim, estava vivo. Ao pensar nisso, ainda não sabia, mas algo me dizia que a geração dos meus filhos seria bem quadrada, chatinha, sem graça mesmo.

Ou não. Talvez ainda haja salvação. Esta geração, entre a minha e a de meus filhos, a que está entrando na fase adulta, que está com vinte e poucos, é a tal que vidiei. Apática, sonhando com uma casa e independência financeira. Uma geração burguesinha-burra, sem poesia, sem rock’n’roll. Sem interesse em aprender grande coisa. Os macetes para passar no concurso é toda “cultura” almejada.

Pesquisa publicada neste domingo, 27 de julho, na Folha de São Paulo constata o óbvio: “O jovem rebelde e niilista de gerações passadas deu lugar àquele que busca acima de tudo a realização profissional e a independência financeira. Para atingir esse objetivo, eles consideram o estudo importante. Ambiguamente, mais da metade deles (54%) já repetiu o ano”.

O “estudo” ao qual se referem os jovens deve ser entendido como títulos que são degraus para atingir uma vida mansa. Não entenda por “estudo” o desejo ou a necessidade de enriquecer culturalmente. Como o surgimento desenfreado de faculdades particulares vem mostrando nos últimos tempos, se for possível pagar à vista pelo diploma e não ter que esperar quatro ou cinco anos, a maioria topa. Afinal, grande parte vai sair de lá apenas com um papel. Se o transtorno de comprá-lo a prazo pudesse ser evitado, o objetivo real poderia ser atingido mais rápido.

Acho deprimente a perspectiva de uma sociedade onde urbanóides mentecaptos sejam maioria. Essa sociedade é fruto de um Brasil medroso. Não há contestação, não há revolta, não há revolução. É o filho contente com o que o pai pode dar. Se o mundo lá fora é assustador, para que sair de casa? Transformá-lo em algo melhor? Isso é trabalhoso. Nem pensar!

Tomara que esse não seja o mundo dos meus filhos. Tomara que eu consiga manter os meus acordados, de olhos bem abertos. Tomara que não se contentem com uma vida em pequenas jaulas onde há comida, banho, tratamento médico e nenhuma liberdade. Tomara que não permitam que roubem seus direitos.

Não fui criado nem estou criando ninguém para ser ovelha ou mais um tijolinho no muro. Eu faço parte de outra Legião.

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7 respostas a Um Brasil cada vez mais careta

  1. Quem diria, a geração de pais hoje em dia almeja que os filhos sejam ovelha. Negra!

    Ao menos o nosso mais velho é considerado pelos colegas de escola como alguém que gosta de “música antiga, velha”. Isto porque tem como banda preferida os Rage Against the Machine(!).

    Música contestatária (a última grande banda de rock rebelde que se tem notícia). Já é um bom caminho against the wall!

  2. hehehehehe
    Pena vc ter lido o meu bRog antes de eu corrigi-lo…Estou embaraçada..Mas nada q um Neutrox não resolva.
    Sejamos bem-vindos as nossas insanidades e oxala possamos dividir nossos pensamentos diferenciados!
    Bjokas
    FM o dia

  3. oie…amigo…essa é a vida do FAST…fast food, fast inteligência, fast amizades, fast relacionamento, fast, fast, com rapidez que o munda está é normal que algumas pessoas se acomodem.
    Mas, olha ainda há esperança no final do túnel. ontem cheguei em casa e meu bb de 16 anos estava sentado na cozinha lendo o nosso EnTRelinhas e ainda fez uns comentários e pediu um exemplar para dar para a mãe de uma amiga. E opniou ainda me dizendo que não gostou do Sentido Inverso (no qual fiz parte também), pois prefere algo mais concreto como os contos, do que as poesias.
    Então, não esquente, nem todo mundo está no censo comum.
    beijos

  4. Kassandra Torres disse:

    Sabe, às vezes fico pensando, por que não temos a garra, força e vontade dos que vivenciaram a ditadura? Não que eu seja a favor da mesma, mas as pessoas tinham mais vontade de vencer barreiras, crescer, ser alguém e tentavam mudar, pelo menos, o que stava ao seu redor. Acho que, já que não temos mais a mesma coragem, temos que encorajar nosos filhos e as gerações futuras…e chega de cultura inutil.

  5. Sandro Fortunato disse:

    O “NÓS” no qual me incluo tem, viu, Kassandra? Mas isso é fácil de explicar. Quando vivemos sob pressão, quando vivemos cerceados em nosso direito de expressar opiniões, quando vivemos acuados, nós nos transformamos em verdadeiros bichos batalhadores, fortes, cheios de imaginação para contornar ou colocar abaixo a situação. Pegue o caderno de notas de qualquer jovem cubano e veja como é melhor do que a maioria dos nossos jovens com livris já publicados que se dizem escritores. Os caras crescem sob pressão. Crescem pensando. Já viu o filho adolescente de Ingrid Betancourt falando? Parece um gênio na frente dos “nossos adolescentes”, entendendo-se por isso “os brasileiros da mesma faixa de idade”. Não, ele não é um gênio. Ele foi formado sob pressão. Usa a inteligência, é politizado, articulado, sabe o que quer. Os “nossos” é que são idiotizados. Há também que se pensar que “essa geração que lutou contra a ditadura” é uma minoria. A maioria era apática. E os filhos e netos deles ainda mais apáticos e verdadeiramente imbecilizados. Já têm medo por antecipação. Qualquer um que perceba isso tem O DEVER de não somar-se à pasmaceira e de não legar isso à sua prole. Pé na bunda desses moleques que é pra ver se eles pegam no tranco!

  6. Wilson disse:

    Eu, como faço parte dos AA, vou vivendo um dia de cada vez… A propósito: AA quer dizer Aloprados e Alucinados.
    E continuo sem lenço e sem documentos. Por causa disso, às vezes, a Vida me dá as costas. Digo às vezes porque antes era sempre. Foi melhorando quando eu passei a morder-lhe a bunda.
    Vou vivendo, meu caro. E feliz! Tudo vai chegando normalmente, sem neuras, sem ansiedade.
    Abração. ;P

  7. Pedro De Luna disse:

    Puxa… caí aqui por acidente e devo dizer que esse texto é brilhante. Faço de suas palavras as minhas. E olha que eu pertenço a essa geração xonha, que deturpa o valor da cultura e é adepta de tudo que for mais cômodo e rápido.

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