Pais & Filhos

Há frases que repetimos constantemente para expressar nossas idéias, nossas certezas, mas muitas vezes não dos damos conta do que realmente querem dizer e de quão verdadeiras e presentes são em nossas vidas.

Há duas que repito sempre. Uma é a de que não me importa o que meus filhos sejam desde que saibam ler e pensar. Acho absurdo alguém dar este ou aquele tipo de brinquedo, livro ou roupa para uma criança tentando de alguma forma influenciá-la na “escolha de uma profissão”. Criança tem que brincar e ser educada dentro dos costumes de sua família, preferencialmente atualizando e melhorando estes. Não tem que se preocupar com nada. Mas ao falar que desejo apenas que meus filhos saibam ler e pensar, talvez eu esteja fazendo a mesma coisa, afinal é só isso o que eu mais ou menos sei fazer.

Enquanto a maioria dos pais gostaria que os filhos seguissem suas carreiras ou escolhessem uma que garantisse bons ganhos materiais e destaque social, confesso que ficaria muito satisfeito se os meus simplesmente optassem por algo que lhes trouxesse felicidade. Não me importa se um deseje ser padre, monge budista ou artista plástico, se outra quiser ser atriz, outra escritora, carreiras ingratas que presenteiam pouquíssimos com reconhecimento e dinheiro.

Se optassem por uma profissão por ela trazer prestígio, mais rentabilidade e estabilidade financeira, não iria censurá-los, mas em meu íntimo perguntaria: “Onde foi que eu errei?”. Se algum chegasse dizendo que queria ser jogador de futebol, dançarina de axé, pagodeiro ou coisa parecida, diferente do que pensava até um tempo atrás – “mato, me suicido ou os dois?” –, apenas pediria um exame de DNA para que não restassem dúvidas sobre eu não ser o pai. E se por acaso fosse, pediria que lhe abrissem a cabeça para saber o que aconteceu ao cérebro.

Portanto, o desejo é esse: Saibam ler, pensar e sejam felizes.

Outra das coisas que repito é que os filhos ensinam muito mais aos pais que estes a eles. Pais estão aí para orientar e proteger. Se forem suficientemente inteligentes, aproveitarão a oportunidade para aprender algo e esperarão a vez de seus filhos aprenderem quando eles também forem pais. Criança aprende tudo sozinha. E só aprende o que quer. Quem é pai sabe. Quantas vezes você já disse “Não bota isso na boca”, “Não pula daí que você vai se machucar”, “Caiu no chão, joga fora”, “Antes de comer, precisa lavar as mãos”. Centenas? Milhares? Desistiu? Mas basta um único dia na escola e as crianças vêm cheias de novidades. Aprendem um monte de coisas: palavras erradas, hábitos abomináveis, gritaria, vozes e risadas de desenhos animados… Aprendem rápido, sozinhas e só o que querem. E assim, ensinam aos pais a ter paciência, perseverança, a buscarem caminhos para driblar a selvageria do mundo, a melhorarem seus hábitos para que os filhos possam repeti-los.

Há poucos dias, levei Pietro, meu mais novo, a uma igreja. Logo na entrada, uma imagem de Jesus de braços abertos. Perguntou quem era, eu respondi. Imediatamente ele observou:

– Ele está machucado.

Para tentar diminuir a seqüência de “É? Por que?”, tentei usar um acontecimento do dia para diminuir a história.

– Hoje, no colégio, um colega seu não o machucou sem querer? Às vezes as pessoas machucam as outras sem querer e sem saber porquê estão fazendo isso.

Ele me olhou com aquela cara de “que história mal contada” e disparou:

– Ele veio assim da fábrica?

Passei toda a vida dizendo que não sigo qualquer religião e que sou iconoclasta, mas precisei de uma criança de três anos para me mostrar que estávamos diante de uma imagem. O que ou quem ela representa, que histórias evoca, os valores que lhe são atribuídos, tudo isso forma um conjunto de informações que vamos recebendo e criando durante a vida e que, muitas vezes, fazem com que percamos a capacidade de olhar para algo e enxergar o óbvio. Mesmo que nunca tivesse visto algo daquele tipo, Pietro sabia que estávamos diante de um “boneco” e que certamente ele não havia se machucado na escola enquanto brincava com seus coleguinhas. Simples assim. Pensamento puro, direto, sem complicações.

Nesse dia, finalmente entendi e aceitei: na relação pais e filhos, os educadores são os filhos.

Recolho-me a pensar nas muitas lições contidas numa pergunta simples e a procurar outros caminhos para me orientar e, se possível, orientar meus filhos.

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4 respostas a Pais & Filhos

  1. Pipi disse:

    Tão simples e tão verdadeiro! Só temos a reaprender com eles. Bjão!

  2. A Zoé olha com surpresa para o cristo na cruz e grita: “o palhacinho!”. Seria apenas um facto curioso se a tal blasfêmia não fosse proferida dentro da catedral de Santiago de Compostela! Ok, as crianças é que sabem, não é?

  3. Wilson disse:

    Crianças nos ensinam, e muito. Pena que existam aqueles que acham que crianças são para serem vistas e não ouvidas.

    Perdem a chance de aprender e de ouvir “pérolas” hilariantes como essa do Pietro. 😛
    Meu Pai lembrou-se até o fim da vida o dia em que eu, aos 5 anos, vi um ovo de páscoa enorme e perguntei a ele quem o havia botado. Meu pai disse que foi o coelhinho. Eu, na minha inocência (ma non troppo) respondi: Então ele tem um cú enorme… Independente do vexame que passou, eu virei uma história que o fazia muito feliz, quando dela lembrava.
    Criar os filhos é uma arte. Criar estranhos, basta ligar a “babá eletrônica” e ir embora.

  4. Como sempre seus posts me fazem muito bem. Este me deu a certeza de ter cumprido satisfatoriamante minha missão. Minhas filhas são mulheres bem sucedidas porque estão felizes com suas escolhas, embora sejam essas pouco valorizadas pela maioria( uma é artista plástica, a outra, atriz e a mais nova é formada em gastronomia e é também estudante de jornalismo).
    Passei a vida descobrindo com elas um monte de coisas boas ou não. Sempre houve uma troca gostosa, verdadeira e muito interessante. Claro que sempre fui criticada pelo resto da família, mas hoje, apesar da pouca grana no bolso, sei que minhas meninas são riquíssimas de outros bens que as fazem muito mais próximas da felicidade do que ter apenas um monte de dinheiro no banco, no fim do mês…

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