Sem preser, sem memó

A cidade vai se apagando ao nosso redor e não nos damos conta. Não cuidamos da pracinha, dos brinquedos ou das árvores que existem nela. Um dia, percebemos que há um grande matagal ou um grande lixão no lugar da praça. Ou nem percebemos.

Se não cuidamos daquilo que podemos usar, imagine de algo que nunca usamos, que “não é do nosso tempo”. E por falar nele, é comum não termos tempo para olhar as coisas no caminho de casa para o trabalho, para o supermercado ou para o shopping. Temos tanta pressa para ver determinadas coisas, quase sempre sem grande importância, que acabamos não vendo o que há no caminho até elas.

Desde 2001, tenho estado em algumas cidades todos os anos: São Paulo, Rio de Janeiro, Natal e Campina Grande. Sendo memorialista e com a facilidade de registrar imagens que temos atualmente, comecei a fotografar os mesmos lugares a cada passagem por essas cidades. Assim fui percebendo como apagamos ou deixamos apagar nossa História todos os dias.

Sabe aquelas lindas e famosas fotos de Rio e São Paulo feitas há cem anos? Todos aqueles lugares não desapareceram de repente. Alguns até ainda existem, mas esquecidos, deteriorados, sem cores, apenas sombras ou fantasmas do que foram um dia, escondidos por trás de alguma construção mais recente.

Rio e São Paulo são duas metrópoles. Autofágicas como qualquer outra. Engolem-se todo o tempo. Por concentrarem riquezas e atenções, também tiveram muitos registros, em todas as épocas, de suas modificações. Mas essas mudanças acontecem todo o tempo em todos os lugares.

A também quatrocentona Natal é hoje completamente diferente de quando fui morar nela há 22 anos. Naquela época, quase não havia prédios e nem mesmo qualquer construção em vários quilômetros de seu litoral. Da mesma forma, a jovem Brasília é hoje muito diferente daquela em que fui morar em 2001 e mais ainda da que conheci em 1991. Os monumentos continuam lá (quase) com a mesma cara que tinham em 1960, mas tudo ao redor mudou.

Para o bem ou para o mal, as mudanças acontecem por ação ou inação do homem. Há quatro anos, resolvi pegar Campina Grande (PB) como “cobaia” e fazer uma série de registros sobre essas transformações. É uma cidade cheia de contradições, como qualquer outra, mas que, por determinadas características, facilita a observação.

Não pretendo desenvolver qualquer tese sobre isso. Somente registrar. Deixo aqui dois exemplos para que qualquer um possa tirar suas próprias conclusões sobre como a falta de preservação vai comendo nossa História.

Nas seqüências abaixo, dois ícones dos tempos dourados de Campina Grande: os cinemas São José e Capitólio.

Cine São José
O antigo cinema, fechado há anos, está hoje nas mãos do governo do estado que não faz nem deixa fazer nada para sua preservação. A mensagem do governador na abertura dos trabalhos da Assembléia Legislativa, em fevereiro deste ano, mais uma vez prometia restauração. Até janeiro de 2006, como vemos na primeira foto, as letras que formavam o nome do cinema resistiam bravamente há mais de 60 anos. O vandalismo fez o que o tempo e o abandono não conseguiram. A frente do Cine São José funciona como parada de ônibus.

 

Cine Capitólio

Foi inaugurado em 1934 e, depois de muitos altos e baixos, fechou em 1999. As fotos mostram os fundos do Capitólio. O painel alusivo aos 25 anos do Festival de Inverno de Campina Grande (completados no ano 2000) vem sumindo. No alto, lentamente, pela ação do tempo. Onde o bicho-homem alcança, o processo é mais acelerado. Do outro lado, onde era a bilheteria, hoje você pode comprar uma tapioca e um refri. Projeto de recuperação? Para quê? De 65 anos de atividade e quase uma década de inatividade, restaram apenas as paredes que dão contorno ao prédio.

A poucos metros do Capitólio, o Babilônia, outro cinema histórico, depois de passar pela fase “igreja evangélica”, foi transformado em um pequeno shopping, inaugurado este ano. Não sobrou nem o nome que, antes da obra, diziam que seria preservado.

E assim, a História vai sendo apagada um pouquinho a cada dia. Quase sempre só percebemos isso quando não há mais nada a fazer. Em vez de abandonar à ação do tempo e dos vândalos, talvez seja melhor sepultar definitivamente e sem dó como fez o dono da casinha abaixo, próxima ao Capitólio. Se é para matar a História, que pelo menos seja dado um túmulo a ela.

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6 respostas a Sem preser, sem memó

  1. Diego Viana disse:

    Sandro, esse é o tipo de coisa que me atinge profundamente. As fotos da Av. Rio Branco, quando ainda era Av. Central, me fazem chorar. Naquele tempo, devia ser uma espécie de Bd. Haussmann, só que mais eclético.

    Por outro lado, quantas vezes o festival de cinema de Campina Grande completou 25 anos?!?!?! 🙂

  2. Sandro Fortunato disse:

    DIEGO, infelizmente os eventos culturais de Campina também sofrem do mesmo mal. O Festival de Inverno, que reunia as mais variadas manifestações artísticas ainda existe… ou pelo menos existiu até o ano passado quando, tirando as pessoas diretamente envolvidas, as outras cinco (eu incluso) ficaram sabendo quando já estava acontecendo. Quase da mesma forma, o Encontro para a Nova Consciência, que já vai em 16 anos e acontece sempre durante o carnaval, já foi algo de trazer gente de todo canto do Brasil para discutir filosofia, religião e ciência em vez de reverenciar Momo. Continua existindo, mas de forma muito mais modesta. Isso para não citar locais como o Eldorado, sobre o qual já falei aqui, que atraía gente de todas as capitais do Nordeste e até de outras regiões. Hoje é um esqueleto escondido atrás de barracas sujas de uma feira.

  3. Henrique Polidoro disse:

    Sandro, mais uma vez parabéns pelo texto e pela provocação. Vou comentar na condição de um apaixonado (em crise) pela História e também como um profissional desta área.
    No seu texto, me parece que vc ilustrou sua preocupação com o ‘errorex’, o corretivo do homem (aquele que apaga um registro para colocar outro em cima) com dois locais emblemáticos para a cultura local e regional.
    Pois bem, está muito bem fundamentado e safo de qualquer crítica dada aos memorialistas e gratuitos saudosistas. Mas mesmo assim não me furto de colocar em questão o seguinte: a História pede a preservação, mas considera a dinâmica da humanidade também, ou seja, para a nossa ciência é preciso movimento o qual, após o Renascimento Comercial, vem sobretudo das cidades (para nossa cultura ocidental, é claro). Sem o movimento não haveria História e nem as histórias deste campo do conhecimento.
    Daí eu pergunto, como permitir transformações que respeitem o passado e que permitam o futuro? Árdua tarefa, pois é preciso estabelecer critérios e isso é política, e quando se faz política permitimos ser subjetivo, é inevitável (in)felizmente.
    No seu caso a subjetividade exaltou a cultura (certamente vc teria outros exemplos, mas escolheu dois ‘patrimônios’ culturais), a pergunta que fica é: Why ‘sô’?
    E a economia? E os antigos nomes da nossa cidade? E o esporte? E os rios e seus traçados? E o caminho da roça? E as chatas cantigas de folclore? E o bolo de fubá? E a mulher melancia? O que fazer? O que de fato representa o nosso tempo e deve ser preservado para o futuro? Preserve tudo, mas dê espaço para o novo! Aumente a memória do nosso computador humano, pois o acúmulo é enorme. Essa é a nossa cruzada, selecionar e ter que renunciar, não sabemos abrir mão! Esse é o nosso pior defeito e contra ele a gente nem procura remédio.
    De qualquer forma sempre é bom historiadores e amantes da história levantarem suas armas contra o concreto ou a picareta dos picaretas. Entretanto a gente precisa de um exército maior e ele só vai crescer qdo soubermos qual é a nossa verdadeira luta. Todo critério é resultado de um histórico, de uma história, de uma intenção e de conceito de belo e importante (influenciado pela história pessoal, política e econômica de quem define). Quem vai definir isso? Geralmente é quem está no poder! Já foi o poder da força física, do dinheiro, das armas … e das penas do intelectual!

  4. wilson disse:

    Como você mesmo disse: Cidades são antropofágicas. Mas nós não. É uma pena ver o Cine São José nessa triste condição de indigência.
    Este prédio é um lindíssimo exemplar da Art Déco. Deveria ser preservado. Não sei quantos Art Déco existem por aí. Mas esse é um exemplar que deveria ser preservado como fonte da história da arquitetura em Campina Grande. É tão dígno, tão perfeito. Não pode ser deixado à prória sorte.
    Vai atrás para saber. Bote a boca no mundo! 😛

    Abração,

  5. Sandro Fortunato disse:

    WILSON, boa parte do centro antigo de Campina Grande é em Art Déco. É o período em que a cidade tinha dinheiro. São as primeiras (e, ao que me parece, mais fortes) décadas do ciclo do algodão. O que se vê hoje, como em muitas outras cidades, é a descaracterização (grades, aparelhos de ar condicionado, reformas sem critério). Aliás “o que se vê” é um termo bem empregado. Muito NÃO SE VÊ por conta dos gigantescos letreiros e propagandas das casas comerciais. Duvido, mas espero que haja logo uma ação – como em Campinas e São Paulo – e esse lixo visual seja retirado para que, dentre outras coisas, a arquitetura possa ser apreciada.

    HENRIQUE, tudo muito bem lembrado e propício. E, pode até não parecer, mas concordo com absolutamente tudo que você disse. O objetivo aqui foi simplesmente alertar para o TOTAL DESCASO, seja do poder público, dos “guardiões da cultura” ou do cidadão comum. Em relação aos exemplos dados, sou de opinião que aquele caixote sem qualquer valor arquitetônico que ocupa um quarteirão inteiro bem no centro da cidade, o Capitólio, dê lugar a algo moderno e VIVO. E que este seja bem tratado. Quanto ao São José, este poderia ser qualquer coisa com quase esforço algum. Nem falo do velho costume religioso dos políticos em não fazer nada sem levar um terço. Falo de várias ações imbecis nas quais se gasta dinheiro aos tubos por absolutamente nada de útil enquanto uma pequena parte disso poderia resolver aquela situação de total abandono. E, sim, escolhi “dois ícones” de cimento, mas poderia ter falado sobre qualquer coisa. E vou! Em breve. Só para lembrar algo que está acontecendo mo momento, dou o exemplo do São João. Ano passado, fiquei impressionado como o povo vem abandonando o costume de acender fogueiras no dia do santo. Este ano, o poder público proibiu as fogueiras e foi a maior chiadeira. Aposto que muita gente vai “retomar o costume” só por pirraça. Outro ponto: a festa que acontece no Parque do Povo só encontra rival, em todo o Nordeste, na de Caruaru. Quem conhece, sabe. É como querer comparar os desfiles das Escola de Samba do Rio com algum outro do Sul ou do Centro-Oeste. Dentre outras coisas, há “ilhas de forró” com forró de verdade, pé-de-serra, a noite toda: sanfona, triângulo e zabumba. Mas, no palco principal, sempre há o desfile dos grandes lixos comerciais, os “Caracu Com Ovo Podre” e “Cuecas Borradas” da vida. Da mesma forma, as quadrilhas (as de dança) vão perdendo sua originalidade enquanto há mais e mais concursos de “quadrilhas estilizadas”. Ora, penso em fazer, no próximo ano, uma quadrilha estilizada com os personagens da Marvel. A organização poderá ser contra? “O novo sempre vem” e DEVE VIR, o que me deixa louco é que não há uma “atualização” das coisas e dos costumes, há uma DESCARACTERIZAÇÃO completa e rídicula. Ainda vou falar a respeito e mostrar muitos exemplos, bons e maus, em vários lugares, sobre temas afins. Fique de olho.

  6. joão antonio disse:

    Sandro.
    Muito interessante esta sua mania(vamos dizer, trabalho arquitetonico), de ir fotografando os lugares pra ir comparando, poucos anos depois. O pior de tudo é que não trata-se de décadas de distancia de uma foto pra outra, são poucos anos. E neste hiato há uma degradação muito grande. Antigamente um imóvel demorava muito tempo pra se degradar, a velocidade agora está realmente grande. Você está provando. Também tenho notado pelas ruas onde passo, não fotografo mas guardo em minhas retinas fatigadas.
    abraço
    joão

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