Mastigue bem antes de engolir

Diga rápido o nome completo de Tiradentes. Isso mesmo: José Joaquim da Silva Xavier. Não? Não mesmo. Você quis dizer Joaquim José da Silva Xavier. Aproveite e responda o seguinte: o que é alferes? O alferes Joaquim José… Pomposo, não? Não. Alferes era um antigo nível da hierarquia militar no Brasil colonial e imperial que ficava abaixo de tenente e estava logo acima de cadete. E se Tiradentes era militar, que diabos de cabeleira hippie era aquela?

Este é um exemplo clássico das bobagens que engolimos desde pequenos e saímos repetindo vida afora. Ainda sobre Tiradentes, Stanislaw Ponte Preta, em seu Febeapá 1 – Primeiro Festival de Besteiras que Assola o País, conta que uma discussão sobre a juba do alferes levou à publicação, em Diário Oficial, de resolução presidencial pró-cabeleira na qual dizia ser essa “a efígie que melhor se ajusta à imagem de Joaquim José da Silva Xavier gravada pela tradição na memória do povo brasileiro”. Pronto. Por decreto, Tiradentes era cabeludo. No dia seguinte, o Diário Oficial trazia uma retificação: “Onde se lê Joaquim José, leia-se José Joaquim”. Oito dias depois: “Fica sem efeito a retificação publicada no Diário Oficial de 19-4-66...”. Stanislaw termina a história de forma jocosa dizendo que “felizmente a coisa parou aí, do contrário iam acabar escrevendo Xavier com ‘CH”.

Sérgio Porto, o Stanislaw, assim como eu, divertia-se e escrevia sobre as bobagens divulgadas, criadas e replicadas pela imprensa. Mas, depois de um tempo, você deixa de se divertir, percebe que a coisa é séria e gera erros que, às vezes, passam à História. Vez por outra falo sobre esses deslizes (isso foi um eufemismo), como no caso das fotos do Herzog (aqui, em posts de 20, 21, 22 e 29 de outubro de 2004) ou, de maneira mais leve, juntando as barbaridades que lemos por aí em um único dia.

Este narigão de cera é para falar sobre as armadilhas de erros que sempre encontramos na Internet, nos jornais ou nos livros. Se você é da geração Ctrl+C/Ctrl+V, que tem fé na Wikipedia e vê o Google como oráculo, pode parar a leitura por aqui (se é que chegou a tanto), desligar o computador e procurar um gibi qualquer. Se faz parte dos que pensam, prossiga.

Desde os primórdios da web, me perguntam: Como se pode ter certeza que uma informação na Internet está correta? Da mesma forma que você tem certeza de que uma informação está correta em um livro: usando de conhecimento prévio, discernimento, eterna desconfiança e pesquisa exaustiva. Esta é minha resposta desde sempre. Vale para qualquer informação, vinda de Internet, jornal, livro… Livro? Sim, livro. Mesmo os mais sérios e escritos por pessoas respeitáveis.

Esta semana, recebi um e-mail do historiador e jornalista – “totalmente perdido e atormentado”, segundo suas próprias palavras –, Henrique Polidoro. Recebo quase diariamente pedidos de materiais relacionados a revistas e jornais antigos. Durante anos, tive a atenção e delicadeza de responder a cada um. Com o tempo, criei uma resposta padrão na qual explicava que uma informação do tipo “o que procuro saiu numa edição do final da década de 50 ou início da de 60” demandaria dias de pesquisa em centenas de revistas, milhares de páginas, que isso custaria tempo e dinheiro, etc. Depois, passei a responder somente às mensagens de pesquisadores sérios, obviamente bem orientados e com uma noção mínima do que estava fazendo e pedindo.

A mensagem de Henrique tinha esses pré-requisitos, mas me chamou atenção pela simplicidade da dúvida, pelo motivo que a causou e pela facilidade em eliminá-la. Enfronhado em um Mestrado pela PUC-SP, queria acabar com uma polêmica” sobre a data de lançamento da revista O Cruzeiro. No site em homenagem à revista, diz que havia sido lançada em novembro de 1928, mas autores como Fernando Morais (Chatô – O Rei do Brasil, Olga, O Mago…) e Antônio Accioly, diretor da revista durante quase toda sua história, diziam ter sido em dezembro do mesmo ano.

Resolvi aproveitar o questionamento para publicar este texto e eliminar de uma vez por todas essa dúvida, que não é só dele.

Não há qualquer “POLÊMICA” em torno da data de lançamento de Cruzeiro (sem o artigo). A data da primeira revista é 10 de novembro de 1928, como está informado no site. Lá, além da reprodução de algumas matérias da primeira edição, é possível ver também as capas das 10 primeiras edições e suas respectivas datas.

O que existe é ERRO nas datas informadas no livro Chatô, de Fernando Morais, e nas memórias de Accioly Netto. E não só esses. E não só nesses dois livros que falam da revista. Creio ter lido a maior parte dos livros publicados sobre O Cruzeiro e temas afins. Li e recentemente reli, pois estou escrevendo as biografias de Appe e Carlos Estêvão, dois desenhistas da revista. Sobre erros em relação a Carlos Estêvão, adianto alguns na seção “Mais” do site em sua homenagem.

Mas se não se pode confiar em informações de um livro de alguém reconhecido como um dos maiores biógrafos do país e nem no de alguém que trabalhou toda a vida na revista em questão, o que pensar de “um site na Internet”?! NEM PENSAR!, eu diria. Esse é o preço que se paga por vivermos em mundo cheio de informações erradas. Longe de me ofender por esse tipo de desconfiança, sugiro a todos que se mantenham assim. Desconfiem sempre.

A questão se refere a algo muito maior e sobre o qual vivo falando: a precisão da informação no jornalismo e na pesquisa biográfica. Os motivos para erros desse tipo são inúmeros. Vão desde a confiança excessiva do autor na informação que sua equipe trouxe (para quem não sabe, muitas biografias são escritas assim, em um esquema de redação: há pesquisadores, que funcionam como repórteres, e o autor, que funciona como redator, finalizando e assinando o texto) até a fé que temos em nossa própria memória, passando pela falta ou erro de revisão. Há também o muito comum caso de pura incompetência, no qual obviamente não se enquadram os exemplos dos autores citados. O grande problema é que esses erros, independente dos motivos pelos quais foram cometidos, não são percebidos e quando são não podem ser devidamente corrigidos (no máximo em uma futura reimpressão, mas como ficam todos que leram a edição errada?). E assim são repetidos, reforçados, apontados como referência e quase acabam virando verdade.

No caso da dúvida sobre a primeira revista Cruzeiro, basta uma reprodução de uma de suas páginas que mostre a data em que circulou. Curiosamente, o cabeçalho da primeira página na primeira edição não informa a data, que só aparece no alto de algumas páginas. E aí está, para que não reste qualquer dúvida.

Pronto. A primeira edição de Cruzeiro é datada de 10 de novembro de 1928. Perceberam que, nessa página, o “o” final de “novembro” pulou para o final da data? Acho que eles não usavam Word

A partir da segunda edição, a data aparece no cabeçalho. A edição de 1º de dezembro de 1928 já é a de número 4. No citado dia “10 de dezembro” nos livros, a revista já estava em sua quinta edição, que trazia Santos Dumont na capa (8 de dezembro de 1928).

O caso serve para lembrar que qualquer coisa feita por um ser humano é passível de erro. Não podemos nos acostumar a acreditar em tudo que lemos somente por estar em um jornal ou mesmo em um livro. Mais: não devemos ficar papagueando tudo que ouvimos. Mesmo quando o dado vem de fonte primária, deve ser checado e confrontado várias vezes. Questionar é necessário. Sempre. Só assim podemos nos aproximar de uma informação precisa.

E sempre que você encontrar um erro em algo que escrevi – seja em blog, site, jornal, revista, livro ou guardanapo em boteco –, por favor, avise-me. Eu e os futuros leitores agradecemos.

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10 respostas a Mastigue bem antes de engolir

  1. Jandiro disse:

    Baseado em uma biografia, solicitei ao arquivo de um famoso jornal (Folha de São Paulo) que fizessem fotocópia de uma matéria estampada em página inteira do dia tal, de mês tal e ano tal. Para minha surpresa, recebi e-mail informando que não havia essa matéria. Sugeri que procurassem um dia antes e um depois. Finalmente, concluí que somente poderia ter sido um erro na biografia.
    Novamente no meu famoso cursinho, recebi uma apostila repleta de erros. Meus colegas não conseguiam entender o porquê de eu estar duvidando tanto da veracidade daquelas palavras impressas e, para eles, inquestionáveis (agora sei por que a Bíblia é indiscutível para alguns).
    Outras vezes, no entanto, sites nada sérios, blogs recheados de idiotices me forneceram pistas exatas e importantíssimas para conseguir o que eu queria.

  2. Pingback: Blog Memória Viva » Blog Archive » A primeira Cruzeiro

  3. joão antonio disse:

    Sandro.
    Erro há de montão. O grande problema é que o biógrafo geralmente se atem ao tema que lhe interessa, e no caso do Fernando Morais e o outro cara, assim com nas memórias do editor da revista Cruzeiro, Accioli, eles não estavam afim de falar dos artistas gráficos. Eles passam por cima de detalhes como estes. Aposto que você vai passar por cima de detalhes que não seja gráficos… O biógrafo paga um preço alto por isso. E ainda por cima é impossivel falar sobre tudo que envolva o biografado. O cara acaba apostando em alguns flancos. Naturalmente que com você não vai acontecer, o que espero.
    PS Só recentemente soube infos sobre o autor destas capas da Cruzeiro, que ningúem sabia quem era. Mas quem garante que eestas infos são corretas? Não sei, eu cito a fonte de onde tirei a info, nunca digo que eu é que descobri, pra não incorrer no erro do cara.

  4. Sandro Fortunato disse:

    Vamos por partes, JOÃO… 🙂

    DAR MAIS ATENÇÃO a esse ou aquele aspecto da vida de um biografado é uma coisa; DAR UMA INFORMAÇÃO ERRADA é outra completamente diferente. Uma coisa seria eu dar mais atenção aos aspectos da vida pessoal (que é o que uma biografia geralmente faz) de Carlos Estêvão e menos à sua obra; outra seria dizer que ele nasceu no Mato Grosso em agosto de 1920 quando, na verdade, ele nasceu em Recife, Pernambuco, em setembro de 1921.

    A lebre levantada aqui é sobre ERRO DE INFORMAÇÃO. No site de Carlos Estêvão, comento sobre vários publicados em jornais e livros.

    Mas sobre “apostar em flancos”, não espere que eu não o faça. Falar da vida de alguém dando o mesmo peso para todas as coisas seria como contar uma história de amor e aventuras em ritmo de ladainha. Imagine que coisa sem graça! Há momentos e aspectos aos quais se deve dar mais atenção. Não há dúvidas quanto a isso. No momento, a única coisa que posso adiantar sobre as biografias de Appe e Carlos Estêvão é que serão dois trabalhos completamente diferentes. Se há algo que possa ser esperado de ambas é que não contenham erros de informação como os apresentados aqui. Afinal, quando os dois nasceram, já existia documentação. Isso facilita “um pouco”. 🙂

    Sobre o ilustrador dessa primeira capa de Cruzeiro, dizer que “ninguém sabia quem era” é um exagero de quem escreveu o artigo (o qual recebi e agradeço). Em edições de aniversário da revista, era comum citá-lo. Na edição de 22 de novembro de 1958, quando comemorava os 30 anos, a matéria sobre a efeméride é aberta com a primeira capa, ao lado da qual se lê:

    “Esta é a capa (de Manuel Mora) do 1º número de ‘O Cruzeiro’, surgido no Rio e em São Paulo no dia 10-11-1928, com tiragem de 50 mil exemplares”.

    Manuel Mora, como em O Cruzeiro ou Manoel de Móra, como no recente artigo ao qual você se refere? O Cruzeiro como grafado na legenda da própria revista de 1958 ou Cruzeiro como mostra a imagem e como sabemos que era o nome em seus primeiros anos? “Ninguém sabia”, “QUASE ninguém sabia” ou “POUCA GENTE sabia”? 😉 Preciosismo? Sim, mas são ossos do ofício. Quem resolve falar sobre algo que aconteceu tem que se obrigar a ser assim.

  5. wilson disse:

    O homem vira mito e, alguém dá um rosto ao mito. Cria a figura do Mártir. Assim nasce o Tiradentes. Sem a coroa de espinhos, mas com as mãos amarradas, tranforma-se no Cristo do Brasil.

    O mesmo acontece com Pedro I. Sujos e cansados por subir a Serra do Mar, montado em mulas, chegam às colinas do Ipiranga, onde o então príncipe-regente pára para aliviar-se de “um desarranjo”. Isto é a realidade.
    O mito e a Alegoria:
    Na tela, garboso príncipe, garbosa comitiva, em cavalos, anunciam a Independência do Brasil.Ao fundo, uma casa inexistente à época e a testemunha, única, que nunca existiu.
    Realidade e Alegoria. Fica a Alegoria.

    Quanto às datas, as lembranças de cada um não podem virar memória sem que se confirme as datas.
    Aprendí que não se deve fiar totalmente em lembranças.
    Falo por mim: Testemunha viva do incêndio do Andraus, tendo em mente o “filme” do incêndio, sentindo até hoje o cheiro da fumaça, sei o ano, o mês em que isso aconteceu. Mas quanto ao dia, titubeio e vou checar. Quanto às horas e os minutos que passei lá, olhando o prédio arder, nunca vou precisar. Alguém me avisou que o prédio estava em chamas, mas só pesquisando eu vou saber quando começou.

    Vendo tanta incerteza, datas erradas, fui pesquisar os Cinemas de São Paulo. A fonte: velhos jornais que traziam programações de cinema. Nesses jornais, você consegue localizar a data de nascimento de um cinema e, até mesmo, o seu fim. Pesquisei, pesquisei, passei as informações e conclusão, publicou-se que: “…segundo o Wilson, etc.,etc… mas não se TEM CERTEZA… Pode? Pode! Pode, porque ninguém foi checar diretamente na fonte. Outros, então, não me responderam e nem fizeram a correção do êrro.

    Um dia esse povo aprende que lembrança não é Memória. Até lá, a gente aprende desaprendendo.

    Abração,

  6. joão antonio disse:

    Sandro.
    Morreu primeiro o editor da Realidade, que agora me fugiu o nome(um genio do jornalismo). Lembrei, o Patarra. Depois o Sergio e depois o Roberto Freire. Encavalou tudo. Tres genios. Os tres mosqueteiros, creio que aquelas revistas todas da década 60/70 tinham a chancela dos tres. Eles se complementavam. Impressionante, parece até que combinaram de morreu um após o outro. Agora a Caros Amigos fez uma edição pro Sergio, que ficou muito ruim. Eles deviam enfocar as revistas que ele fez, que acho que é assim que ele queria. Era discreto, aposto que se tivessem feito um retrospecto completo das revistas que o genial Serjão fez ficaria muito melhor. Agora falta uma grande homenagem ao Roberto e Patarra.
    ab

  7. Sandro Fortunato disse:

    JOÃO, acho que esses três estão mancomunados, como sempre, e resolveram montar uma outra revista em outro lugar. Ninguém me tira isso da cabeça.

    Quanto à edição especial da Caros Amigos em homenagem ao Sérgio de Souza, eu adorei. Acho que eles fizeram exatamente aquilo que tinham que fazer: uma homenagem ao amigo, ao profissional, à pessoa. Cita sua obra, mas não a coloca acima dele. É algo pessoal. Sobre as revistas que ele criou, muito já se falou, muito se falará, mas essa edição garantiu um documento sobre uma pessoa que, como a maioria dos brasileiros, dentro de alguns anos quase ninguém lembrará ou mesmo TERIA referências de fontes próximas e confiáveis. Nisso, pode ter certeza, eles marcaram um golaço.

  8. Sandro Fortunato disse:

    Jornal do Brasil – 08/06/2008
    O escritor e jornalista Fernando Morais já “assassinou” ao menos duas pessoas. Sua primeira vítima foi o político Último de Carvalho. Em 1975, ao escrever para a revista Veja uma capa sobre o Estado de Minas Gerais, informou a morte do deputado mineiro, na época vivíssimo. O segundo “crime” ocorreu durante o extenuante processo de escrita da recém-lançada biografia de Paulo Coelho. Na página 565, Morais afirma que Celso Lafer viria a ocupar, em 2003, a cadeira de Alberto Venâncio na Academia Brasileira de Letras. O que não seria um problema se a cadeira ainda não estivesse ocupada pelo próprio Venâncio, que felizmente ainda não interrompeu sua passagem pelo nosso mundo. Consultado pelo JB, Morais admite os dois erros e garante que já enviou errata à editora, que fará a correção nas possíveis edições seguintes da biografia.

  9. Armando disse:

    Qualifico seus sites como super produções.Você é jovem com uma curiosidade cultural muito grande, dividindo tudo isso com todos nós.Parabéns.Visite o blog (lygiaprudente.blogspot.com) ,ficarei grato com algum comentario.

  10. Diego Viana disse:

    Sandro, para além dos erros de datas que vemos a torto e a direito mesmo nos veículos considerados mais “sérios”, existe um ainda mais grave e que decorre da péssima educação que se recebe no país. É o erro CONCEITUAL. No Brasil, fala-se em coisas como LIBERDADE, DIREITO, POLÍTICA, PODER, enfim, um sem-número de coisas, sem jamais questionar qual é a extensão (ou a intensão – com “s” mesmo) dessas palavras, que nada mais são senão conceitos. Sabe o que é isso? Falta de estudar filosofia.

    Portanto, viva a volta da Filosofia! (Ops, não tem nada a ver com o seu texto, mas era no que eu estava pensando…)

    A propósito, você sabe em que ano foi feita a matéria do Nasser e do Manzon sobre os Xavantes? Existe um site que colocou várias matérias d’O Cruzeiro online, mas justamente essa não está. Eu queria linkar, no meu texto sobre os índios, mas não pude. Ó raios.

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