Para gostar de ler 2 – MAS EU NÃO TENHO TEMPO!

Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio”. Os versos da canção do Pato Fu denunciam algo do qual sempre desconfiei: os mineiros sabem viver no ritmo certo. Sem pressa. Em cadência quase oriental, espiritual, como quem acredita que se algo não puder ser resolvido agora poderá se ajeitar em uma outra vida. Gente assim vive mais e melhor.

Não tenho tempo para ler”, “Se tivesse mais tempo, eu até leria”, “Quando eu tiver tempo…”. Todo mundo já disse ou já ouviu algumas dessas frases ou outras variações quando o assunto é leitura.

A pesquisa feita pelo Instituto Pró-Livro e Ibope Inteligência diz que “entre os motivos para não ler, a falta de tempo aparece como o mais apontado, com 29%”. Novidade alguma, mas agora há uma pesquisa legitimando isso.

Para entender esse “problema” é preciso, primeiro, pensar a respeito do tempo.

O tempo, como o utilizamos – dividido em anos, meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos –, é uma invenção nossa e, como tal, deveria ser usado a nosso favor, para nosso benefício e não para nos prejudicar. Ninguém tem mais ou menos tempo que outro. A divisão é a mesma para todos. Quando alguém diz que não tem tempo para alguma coisa, podemos fazer, de imediato, três interpretações básicas:

1) a pessoa está usando a “falta de tempo” como desculpa para não fazer algo que não considera prioridade ou necessário em sua vida;

2) a pessoa administra mal “o seu tempo”, vive ocupada, e realmente acredita que não tem condições de encaixar outra atividade em sua rotina;

3) a pessoa realmente vive tão assoberbada de coisas para fazer que, infelizmente, nem vive e logo vai ter essa grande dádiva – a vida – confiscada, já que não sabe mesmo como utilizá-la adequadamente.

Se você costuma dizer que “não tem tempo”, seja honesto e diga em qual das três situações você se encaixa.

COMO SOLUCINAR TAIS “PROBLEMAS”

Quem se encaixa na primeira situação, na qual a falta de tempo é só uma desculpa, provavelmente tem outro problema. Ele também é mostrado na pesquisa do Pró-Livro:

Outros 28% não lêem porque não são alfabetizados e 27% porque não gostam ou não têm interesse. Entre as limitações, 16% afirmaram que possuem um ritmo lento de leitura e outros 7% disseram não compreender a maior parte do que lêem.

Isso tudo está relacionado com a péssima educação que temos no país, com a falta de incentivo à leitura desde cedo. A “falta de tempo” é mesmo mera desculpa. Você vai precisar tomar uma atitude séria e TER A CORAGEM DE APRENDER A LER. Sim, você já leva vantagem por ser alfabetizado, agora é só praticar. Pare de mentir para si mesmo e LEIA.

Aos que se encaixam na segunda situação – a de administrar mal o tempo e acreditar que não consegue encaixar a leitura no seu dia –, falarei sobre minha própria experiência. Quando alguém me diz que “leria (mais) se tivesse mais tempo”, costumo retrucar da seguinte forma: “Faça como eu: não durma”. Invariavelmente a pessoa ri e acha que estou brincando. Não estou. Normalmente, durmo cinco ou seis horas por dia. Se você acha isso pouco, explico os motivos: eu não tenho tempo para dormir e vou ter todo o tempo para fazer isso quando morrer. É uma escolha. Eu acho mais importante ler do que dormir. Mas todo mundo precisa dormir! Sim e eu durmo. Só o tempo necessário para restabelecer minhas forças. Não desperdiço o tempo que pode ser empregado em outras atividades dormindo além do necessário. Mas vamos com calma. Se você precisa de oito, dez ou doze horas de sono diárias para se recuperar plenamente, durma todo o tempo que precisar. Garanto que isso não o impedirá de criar um hábito de leitura.

Por que? Porque você perde tempo enquanto está acordado.

Diga-me: quanto tempo você passa na frente da televisão durante um dia? Quanto tempo fica sentado em algum lugar esperando alguma coisa (ser atendido pelo médico, pegar o filho na escola, a mulher no trabalho, ficar na fila de um banco ou dos Correios,…)? Se você pega ônibus ou outro transporte coletivo, o que faz enquanto espera e durante o tempo que está nele? Quanto tempo você passa na cama antes de pegar no sono? O que você faz quando não consegue dormir?

Imagine que você tirasse apenas dez minutos do tempo que você vê televisão, cinco minutos em que está esperando por algo ou alguém e mais uns dez minutos, já na cama, antes de dormir. Já seriam 25 minutos por dia. Digamos que, durante esse tempo, você conseguisse ler quinze páginas de um livro. Seriam 105 páginas em uma semana. Mais de quatrocentas em um mês. Um livro médio de quatrocentas páginas ou dois de duzentas. Mas digamos que você só se dispõe a pegar menos da metade desse tempo para ler: quatro minutos a menos de tevê, quatro minutos na fila, quatro minutos na cama. Doze minutos diários, umas sete páginas por dia, 210 em um mês. Seria um livro por mês. Doze em um ano. Muito acima da média – ridícula e a qual, creio, seja muito pior na realidade – de 4,7 livros/ano atribuída aos brasileiros.

Entendeu? Não. Vou mostrar com desenhos.

Os desenhos acima são de uma campanha das Edições O Cruzeiro e da Câmara Brasileira do Livro. Eles foram publicados no final da década de 1960 nas páginas de O Cruzeiro. Naquela época, a população do Brasil era metade da atual e as tiragens dos livros eram, no geral, bem maiores que as de hoje, assim como estes ganhavam várias edições. Mas já estavam em queda. Percebeu que você tem tempo de sobra? O que está faltando é um livro.

A cada mês, seleciono quinze livros. Esforço-me para ler doze e coloco oito como meta mínima. É claro que há muitas mudanças, variações e obstáculos durante esse percurso de trinta dias. Leio muitas biografias (que costumam ter mais de 600 páginas), viajo, sinto-me indisposto, tenho dor de cabeça, me canso e acabo dormindo mais que o de costume, as obrigações como pai e marido tomam mais tempo do que o planejado… mas, em média, leio dois livros por semana. E acho pouco. Claro, leio ainda revistas, jornais, blogs, sites, etc. Ficaria feliz se conseguisse ler três por semana. E meu “plano de aposentadoria”, como muitos sabem, inclui ler um livro por dia.

OS RITMOS

Calma lá! Assim como devemos respeitar nossa necessidade de sono, também devemos respeitar nosso ritmo de leitura. Eu leio assim porque consigo ler rápido e entender o que estou lendo. Não há genialidade ou super-poder algum nisso. É simples prática. Michael Phelps também nada muito mais rápido que eu. E ele nem é um peixe! É só um cara que treinou uma capacidade – que eu e você também temos – com mais afinco para fazer determinada coisa.

Além do ritmo do leitor, há o ritmo do livro e o ritmo do envolvimento. Dois exemplos sobre o ritmo do livro. A montanha mágica, de Thomas Mann, é um livro cheio de descrições minuciosas, demoradas (chatas, mesmo!), em uma história longa e repleta de curvas. Precisa ser lido com cuidado. Degustado demoradamente, mastigado da forma adequada para poder ser digerido. Já um livro como O Código Da Vinci, de Dan Brown, tem outro ritmo. É rápido. Você acaba de ler um de seus pequenos capítulos e já quer saber como aquela trama se resolve e qual será a próxima. É uma leitura nervosa, agoniada. Não tem graça deixar para depois.

O ritmo do envolvimento está relacionado ao seu interesse pelo tema. Ainda que eu consiga ler, de forma relativamente fácil, seiscentas ou setecentas páginas em um final de semana, costumo passar um mês inteiro com uma biografia. Gosto de entrar na vida do biografado, de pensar sobre cada momento, de me deter em certas histórias, de pesquisar a respeito, de fazer leituras paralelas para ajudar na contextualização de época e me sentir ainda mais familiarizado com os personagens. Por outro lado, livros considerados fáceis – como os de Adelaide Carraro, de quem li uns trinta títulos –, costumo ler de um só fôlego. São leituras “para relaxar”, já que não exigem muito do leitor. E nisso não há qualquer demérito para o autor. Muito pelo contrário. Não é à toa que, cada um a seu tempo e devidamente inserido no contexto de sua época, autores como Adelaide Carraro e Paulo Coelho sejam tão lidos. E se, por muitos, são considerados vulgares ou autores de subliteratura, há neles o mérito inegável de fazer uma quantidade gigantesca de gente que jamais leu vir a pegar em um livro e se tornar um leitor. Milhares. Milhões. Eu adoro Kafka, Machado de Assis, Lima Barreto, mas jamais sugeriria a um não-leitor que tentasse começar a ler por algum deles. Provavelmente serviria como desestímulo.

Exercite-se. E, como em todo exercício, comece pegando leve: leitura fácil, durante um tempinho, TODO DIA. Depois vá aumentando. Logo, logo você vai estar encarando os pesos pesados da Literatura.

Conseguiu chegar até aqui? Acha que “perdeu tempo com isso”? Então vou compensá-lo. Comente e concorra a um exemplar do Entrelinhas ou de Câmara Cascudo – 20 Anos de encantamento, duas antologias com textos meus. Comentou, já está concorrendo.

Amanhã, no próximo texto desta série, falarei sobre os prazeres que a leitura proporciona e como o livro – e não o cachorro – é o melhor amigo do homem.

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5 respostas a Para gostar de ler 2 – MAS EU NÃO TENHO TEMPO!

  1. Fábio Bugatti disse:

    Concordo com tudo o que você disse, e sempre tento fazer algo com o tempo que não estou fazendo nada, se estou vendo tv (normalmente apenas vejo coisas que realmente me interessam) nos intervalos faço exercícios físicos, ou então escrevo qualquer coisa pois quero pegar o costume de escrever.
    Esse texto vai ajudar muita gente, mas infelizmente as pessoas que realmente precisam de um empurrão não o verão. Seria ótimos ter algo como esse texto em campanhas pró-leitura, algo que atingiria a todos.
    Tento fazer minha parte, sempre que me pedem empresto meus livros, ou as vezes simplesmente apareço para um amigo e falo ”você devia ler esse” e o empresto.

  2. wilson disse:

    O tempo não limita ninguém. Nós limitamos o tempo.
    O que faço: Leio em ônibus, no metro, no táxi.Leio um pouco antes de dormir.
    Nos ônibus e metro, gente. Gente lendo livros: Didáticos, Auto-ajuda, Romances clássicos e baratos, Livros Espíritas, Metafísicos e a infalível Bíblia.
    A grande maioria desse povo, realmente, têm vidas duras. E lêem! Não se queixam de falta de tempo.
    E os que se queixam da falta de tempo, ou usam essa falta como desculpa, na verdade, têm todo o tempo que necessitam: como passar horas em salas de bate-papo e outras tantas nos ORKUTs da vida.
    Tempo a gente encotra, tempo a gente inventa. É só deixar a preguiça de lado.
    Abração,

  3. natalia disse:

    estou concorrendo ao livro? hahaha

  4. Jandiro disse:

    Consegui chegar ao limite da raiva quando meus colegas de cursinho (Sim!!! Fiz cursinho para o concurso do INSS! E fiquei em 2º lugar, obrigado!) pediam para a professora de português que ensinasse interpretação de texto. O tempo era limitado e meus simpáticos concorrentes não conseguiam entender que não seria ali que iriam adquirir algo que lhes fazia falta por não cultivarem o hábito da leitura. A professora era muito calma, mas percebi seu olhar de desespero e desilusão diante da realidade.

  5. João Dias Rezende disse:

    Posso dar um breve testemunho aqui de como os livros são importantíssimos para o ser humano. São alimentos para o Espírito. Não é à toa que as grandes religiões do mundo sempre têm um livro-guia (a palavra escrita e parece que mais ainda, a impressa tem um poder impressionante, é quase mágica, tanto que tem gente que acha que bastou algo estar em livro e pronto, aquilo é verdade absoluta)

    Leio uma média de 6 a 8 livros por mês. Sei que é pouco ainda, porém me consola pensar também em qualidade em lugar da quantidade. Leio pouco, mas procuro que esses poucos sejam bons.

    Abraço a todos!

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