Esse filme eu já vi

Outro vôo mais baixo e vimos as mulheres correndo pela trilha que ia dar à mata, carregando crianças.

Parando um instante, elas olhavam o avião e reiniciavam a corrida para a floresta. Os homens, entretanto, tinha permanecido na taba, ao lado das casas, acompanhando o semicírculo da aldeia. Quando entrávamos pela abertura do semicírculo, eles corriam ao nosso encontro, atirando flechas, que se perdiam na mata, muito longe.

O mundo inteiro viu nesta quinta, 29 de maio, as fotos de Gleison Miranda, da Funai, mostrando um grupo de índios que vivem isolados (entenda-se: vivem felizes) no Acre, próximo à fronteira com o Peru. O organizador da missão e coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai, José Carlos dos Reis Meirelles Júnior, disse que resolveu “fazer a divulgação porque os mecanismos (para proteger essas populações) não têm servido. Ou a opinião pública entra nisso ou eles vão dançar”. As fotos foram mostradas no site da Survival International, entidade que faz campanha pelos direitos dos índios.

Mas o relato que abre este texto não foi feito por Gleison, nem por Meirelles, pelo piloto, nem por qualquer funcionário da Funai ou membro da Survival. Ele foi feito por David Nasser, em 1944, na revista O Cruzeiro, e vinha acompanhado de fotos de Jean Manzon mostrando índios xavantes no Mato Grosso.

A história é cercada de mistérios e ganhava novas tintas aventurescas cada vez que Nasser a contava. Aliás, cada vez que a publicava. Há quem acredite que ele nunca esteve no avião que teria sido alvejado pelos xavantes. Há quem diga que as fotos nem foram feitas por Manzon, mas sim durante um vôo de reconhecimento da Expedição Roncador-Xingu, quase um ano antes, em 1943.

Histórias fantásticas e fantasiosas à parte, maravilhoso mesmo é saber que ainda há tribos indígenas vivendo sem a influência de outras culturas. O próprio organizador da missão que encontrou os índios no Acre alerta: “Não sei nada deles, e a idéia é continuar não sabendo (…) Enquanto eles estiverem nos recebendo a flechadas – e eu já levei uma na cara – estarão bem. O dia em que ficarem bonzinhos, já eram…”.

Triste é saber que a gigantesca área que conhecemos como Amazônia é uma terra de ninguém que, mais dia, menos dia, vai acabar sendo disputada – e provavelmente tomada – por outros povos.

Irmãos índios, não sei como mandar essa mensagem a vocês, mas espero que ela seja recebida: quando aparecer algum pássaro roncador ou outro bicho barulhento, flecha neles. E sejam felizes.

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3 respostas a Esse filme eu já vi

  1. Buca Dantas disse:

    Velho Lobo….INFELIZMENTE vamos ver o mesmo filme novamente…cara…muito forte as duas fotos serem AS MESMAS!!!

  2. Quando vi a reportagem no jornal, me deu uma tristeza, seria melhor que eles continuassem escondidos e felizes. Mas nesse mundo de hoje em dia cada vez é mais difícil se esconder da devoradora globalização.

    O paralelo entre as duas fotos ficou fantástico!
    Parabéns!

  3. wilson disse:

    Quanto aos “remake”, sempre digo que o original é sempre o melhor. Nesse caso, nesse “remake”: É dispensável até o original.
    O gigante Pindorama extingui-se a cada descoberta desses núcleos. Morre junto com cada índio. Morre da doença dos brancos; do vício dos brancos; da ganância dos brancos.
    Penso, se escondidos estão, quantas histórias teriam para contar. Quanto, pela tradição oral, eles aprenderam sobre a periculosidade dos brancos invasores…
    Penso também que, talvez, jamais tiveram contatos com os brancos, que viveram sempre a vida vivida em Pindorama e que, jamais tiveram notícias do Brasil.
    Usos, costumes, tradições! Quanta coisa eles poderiam nos revelar. Mas, não a esse preço: um aculturamento nocivo e improdutivo.
    Por ESSE preço, não. Eu não quero saber.
    A mim basta ver – com muita dor – membros da GRANDE NAÇÃO GUARANÍ, na mais completa indigência, vendendo os seus artesanatos pelas ruas de São Paulo. Triste. E triste é saber os números estatísticos do alcoolismo e suicídio entre eles.
    Índigenas não precisam de apitos, espelhos, colares de contas. Precisam sim VIVER. E viver no seu ambiente, longe dos brancos.
    Precisam ter respeitada a sua Dignidade,Orgulho e Amor Próprio.
    Abração.

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