Corpo

Esta é a segunda vez que me meto a falar sobre um filme ao qual não assisti. Para ser mais correto, não falarei a respeito do filme, mas sim de histórias nas quais ele se baseia e sobre as quais venho falando durante este mês.

Corpo, primeiro longa de Rubens Rewald e Rossana Foglia, estréia esta semana nos cinemas. O filme traz uma história ambientada no IML e evoca fantasmas da ditadura. Segundo informado no site da produção, “dois fatos da recente história política brasileira estão relacionados à concepção do filme”: a descoberta de uma cova clandestina com mais de mil corpos, em 1990, no cemitério de Perus, em São Paulo; e as fotos publicadas em 2004 pelo Correio Braziliense, que inicialmente, pensavam alguns, mostrava o jornalista Vladimir Herzog em situações humilhantes antes de ser assassinado, em 1975, em uma cela do DOI-Codi, também em São Paulo (a pessoa na foto era um padre).

Lembro bem das primeiras notícias sobre o encontro das ossadas em Perus. Noticiaram a descoberta de uma vala comum com ossadas que acreditavam ser de desaparecidos políticos. Dezenas, centenas, 1.049. Falou-se bastante, mas era setembro de 1990 e a imprensa parecia estar mais disposta a brincar de ser livre, cobrindo as primeiras eleições estaduais após uma eleição direta para presidente, do que mexer nos podres do regime ditatorial que todos queriam esquecer.

Mas não há motivo para e nem como esquecer. Imagino o poder das forças ocultas que fizeram, ou melhor, que impediram que fossem feitas as devidas investigações sobre os corpos encontrados em Perus. Uma década depois, no ano 2000, só duas ossadas retiradas da vala clandestina haviam sido identificadas e a Unicamp estava louca para empurrar os ossos para outro lugar. E hoje, no que deu tudo isso?

Ainda que Corpo não seja sobre, mas parta dessa história – “um corpo encontrado em uma vala comum (e misteriosamente preservado por mais de trinta anos) serve como elemento convergente das histórias de seis personagens” –, seria interessante que tivesse o poder de despertar a atenção para os casos dessas centenas de pessoas que não tiveram um ponto final em suas histórias. São centenas de famílias sem dúvidas de que seus entes queridos foram mortos e enterrados clandestinamente, mas que gostariam de dar um enterro digno ao que restou deles, um enterro que simbolicamente lhes restituísse alguma dignidade.

Assim que assistir, falo mais a respeito. Para quem não conhece o trabalho de Rubens Rewald e Rossana Foglia, sugiro dar uma olhada em Mutante, premiado curta dirigido por eles.

Escreva-me Logo abaixo em  COMMENTS Clique e cadastre seu e-mail
Esta entrada foi publicada em Cinema, Memória. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Uma resposta a Corpo

  1. wilson disse:

    Não ví o filme. Mas, pelos comentários, a proposta era mostrar o lado mais negro da ditadura e a via-crucis e os medos dos parentes dos presos políticos.
    Alegoria porque, seja no Brasil, na Argentina, no Chile, mostra um evento que marcou para sempre a América Latina: Os Desaparecidos.
    Os desaparecidos são aqueles que – por felicidade – fugiram ou se esconderam; os mortos em torturas e enterrados em covas clandestinas no setor de indigentes, ou lugares escondidos, dos cemitérios públicos.
    Desaparecidos são aqueles que foram entregues aos familiares em caixões lacrados. Parentes não viam o Corpo e jamais poderiam constatar a mentira do Atestado de óbito.
    O Corpo, para outros, conta a fábula dos que foram “anulados” pela tortura e ditadura e a luta dos parentes para resgatar a sua identidade.
    Como não ví o filme, não sei se têm razão ou não. Mas, se a idéia de Alegoria for esta, o filme deve ser muito interessante.

    Abração.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *