Autópsias

Tenho andado sombrio. A leitura de Autópsia do medo, iniciada e anunciada aqui no início do mês, foi pesada. A ela somaram-se curiosidades, lembranças, desejos mórbidos e até o descobrimento tardio de uma morte, da qual ainda não me sinto muito à vontade em falar.

Depois do livro, resolvi rever dois filmes: Lamarca e Batismo de Sangue. Motivos: ver outra vez Fleury representado no cinema e, agora com base em relatos mais confiáveis, avaliar a transposição de algumas histórias para o audiovisual.

Lamarca é um dos papéis mais marcantes de Paulo Betti, militante de esquerda que certamente teve motivações especiais para bem encarná-lo em 1994 e reencarná-lo, doze anos depois, em Zuzu Angel. Creio que as atenções de Sergio Rezende, diretor os dois filmes, estivessem demasiado voltadas para Betti. Talvez por isso o Fleury vivido por Ernani Moraes tenha sido mal trabalhado. Aliás, Fleury, não; Delegado Flores. Nem o nome verdadeiro foi usado. E quando digo mal trabalhado, refiro-me à direção. Ernani, à época pouco conhecido, é grande, abrutalhado e poderia representar muito bem o homem símbolo da repressão. Ele ainda nem havia passado ao grande público a imagem extremamente marcante de “grandão bobo” com o personagem Boneca, amigo do Jamanta (outro personagem reeditado), em uma novela no final dos anos 90. Flores/Fleury poderia ter entrado para a galeria de personagens inesquecíveis de nosso cinema. Acredito até que hoje, mais experiente, com mais idade e melhor dirigido, Ernani Moraes fosse uma ótima escolha para representar, de forma mais realística, mais visceral, o delegado Fleury.

Batismo de Sangue, de 2007, eu havia assistido recentemente. O filme é baseado no livro de mesmo nome escrito por Frei Betto e muito em Autópsia do medo, de Percival de Souza, sobretudo nas passagens em que Fleury está presente. Era uma das grandes apostas do cinema brasileiro para 2007 mas, sabe-se lá os porquês, levou pouco mais de 50 mil espectadores às salas de exibição. A meu ver, histórias reais quando levadas ao cinema, repleta de personagens publicamente conhecidas, exigem mais que boas atuações. Exigem que o ator “receba o santo”. Ele só convence se o espectador olhar e não tiver dúvidas de que ali está o personagem verdadeiro e não alguém que o esteja representando. Nesse tipo de trabalho, o primeiro passo é acertar o tipo físico e caracterizá-lo à perfeição. Foi assim com Daniel de Oliveira como Cazuza (Daniel faz Frei Betto em Batismo de Sangue), Jamie Foxx em Ray Charles, Philip Seymour Hoffman como Truman Capote. Representação e direção só devem ser pensadas depois disso. Por outro lado, é claro que de nada adianta colocar um sósia que não saiba atuar, mas isso não vem ao caso agora.

O filme de Helvécio Ratton é bem dirigido, mas comete vários pecados, inclusive o de não apostar na escolha do tipo certo. Fleury – agora com nome real – tem participação tão importante na trama que, em muitos momentos, os freis dominicanos passam de personagens principais a coadjuvantes. Talvez aí devesse ter entrado Ernani – repito, mais experiente, com mais idade e melhor dirigido – mas o papel ficou com Cássio Gabus Mendes, inegavelmente um ótimo ator, mas com características físicas muito aquém de conceder veracidade a um Fleury. Cássio é pequeno, muito baixo, quase desaparece quando aparece ao lado de outros atores. Fleury era alto. A voz de Cássio também não ajuda, principalmente quando grita. Não é uma voz potente, de comando, assustadora, de alguém que tenha certeza de ter em mãos o poder de matar ou deixar viver. Esse é um problema que se estende a outros personagens. Caio Blat está péssimo na maior parte do tempo, a começar pelo “sotaque nordestino global”, inexistente no mundo real, que nem consegue manter e chega a ser ridículo nas cenas nas quais dialoga com a paraibana (e excelente atriz) Marcélia Cartaxo. Além dela, acertaram a mão – sem qualquer conotação com o fato de representarem torturadores – Murilo Grossi e Renato Parara, respectivamente, os policias Raul Careca e Pudim.

Revendo Batismo de Sangue, atentei para cenas que haviam me incomodado da primeira vez. O filme usa de um recurso narrativo muito comum nos dias de hoje. Inicia pelo fim ou por um momento de grande interesse e cria a expectativa para a explicação do que levou até aquele ponto. Batismo… começa com o suicídio de Frei Tito. Durante a cena, uma rápida lembrança do fantasma que o assombra: Fleury estendendo a mão e dizendo “Beija o anel do Papa, beija!”. O fato de ter palavras nesse momento, para mim, já quebra a dramaticidade da cena. Uma direção mais sensível e segura talvez desse o recado com maior carga apenas aproximando a câmera de um sorriso diabólico e do olhar inquisidor que Fleury possuía. Logo em seguida, vemos a cena em que os freis, com óculos escurecidos, são levados em um carro para conhecer Marighella. A cena é mostrada do ponto de vista de Frei Tito, que vai no banco da frente. Entre ele e o motorista, uma revista Realidade com um padre na capa (era uma matéria sobre celibato). Pelas frestas deixadas pelos óculos escurecidos, vê-se o painel do automóvel e veículos passando. Quando o carro estaciona, o espectador é informado de que a cena se passa em São Paulo, no ano de 1968. Já dentro do local de encontro com Marighella, os freis trocam os óculos escurecidos por outros normais. Nos minutos seguintes, veremos o processo de preparação para o famoso congresso da UNE, que aconteceria em Ibiúna e seria desmantelado pelas forças da repressão no dia 12 de outubro. Vamos por partes. Independente de não informar em que mês de 1968 acontece o encontro dos freis com Marighella, pela história mostrada, certamente foi um bom tempo antes do congresso acontecer, até porque nas cenas seguintes os estudantes ainda nem sabem onde o evento poderia ser realizado. Isto posto, aquela revista Realidade não poderia estar ali, pois é justamente a edição de outubro de 1968. Se os padres usam óculos o tempo todo – o que sugere que sejam míopes – também não seria possível ter a visão mostrada na cena em que estão semi-vendados. Ninguém com mais de dois graus de miopia enxerga nada em foco a um metro de distância.

Mais adiante, pouco antes de um encontro com Marighella, Frei Betto aparece ao lado de uma banca de jornais. Nela podemos ver exemplares da Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha da Tarde, além de revistas O Cruzeiro, Manchete e Realidade. Na Folha de S. Paulo, a notícia da renúncia de De Gaulle, portanto, edição de 28 de abril de 1968. O Jornal da Tarde noticiava uma Nova Lei no Brasil, edição do dia 12 de abril do mesmo ano. A Folha da Tarde fala sobre um assalto a banco que teria acontecido naquela manhã e seria ação de terroristas. A revista Realidade com matéria de capa sobre transplante de cérebro é de fevereiro de 1968. As duas edições de O Cruzeiro e a de Manchete, nem me dei o trabalho de saber de quando eram. Como costumo lembrar: o diabo está nos detalhes.

Claro que a intenção ali era “contextualizar a época”, mas creio que esses detalhes sejam mesmo importantes e fáceis de serem ajustados, ainda mais em se tratando da produção de um filme, que não é coisa pequena. Claro também que só um maluco como eu, que vive entre jornais e revistas antigas, irá perceber coisas desse tipo, mas o que realmente me chama atenção é que vemos com muita facilidade certos “erros históricos” em filmes americanos e deixamos passar os referentes à nossa História. E aí volto a bater na mesma gasta tecla de que não temos memória, não conhecemos nossa História e, por isso, preparamos mal nosso futuro.

Com tanto Fleury na cabeça, lembrei de Nome aos bois, música dos Titãs gravada no disco Jesus não tem dentes no país dos banguelas, de 1987. Nela, Nando Reis desfila o nome de 34 personalidades responsáveis por atrocidades, atos arbitrários ou pela divulgação destes: Garrastazu/ Stalin/ Erasmo Dias/ Franco… Pinochet/ Gil Gomes/ Reverendo Moon/ Jim Jones. O último da lista é Fleury. Eram os primeiros anos de abertura e uma banda de rock finalmente podia e resolvia dar nome aos bois. Procurando pelo clip da música no YouTube, deparo-me com um atribuído a um “especial na TV Manchete” no qual fotos dos citados vão aparecendo durante a chamada de seus nomes. Nos comentários, demonstrações várias de jovens – maioria de usuários do serviço – que “não entenderam a homenagem”. Nem poderiam. Não foram educados para isso. E seus filhos, muito provavelmente, rirão com Tropa de Elite passando na Sessão da Tarde.

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Uma resposta a Autópsias

  1. wilson disse:

    Passa o tempo e eu noto que, para muitos, o ano de 68 nem começou. Se não começou, não poderia terminar.
    Rodo pela vida e o silêncio do povo (ou preguiça? Omissão?) é mais opressivo do que o silêncio imposto pela ditadura. Todos sabem do 69!… Do 68, nada!
    Alienação? Lavagem cerebral? Não. É pura e simplesmente´o efeito da dieta do pão e circo deixando seqüelas como indolência e falta de memória dos seres viventes nesses tristes trópicos. E, quem não reconhece os heróis acabam presas dos tiranos.
    Penso na Rue des Écoles, na Sorbonne e numa única verdade sobre as revoluções. Elas devem ser feitas por revolucionários e para os revolucionários,para o tempo presente e nunca para a posteridade.
    Para os brasileiros, salvo minorias, 68 nunca existiu, não deixou ou acrescentou nada.
    É como se fosse pura ficção, como o filmes ditos “biográficos”, feitos de celulóide. Duas horinhas depois, na rua esquece-se. Outros, empolgados, cabecinhas ocas, espadas de pau, falam de atos de heroísmo e atitudes que teriam. Espadas e consciências desaparecem como o primeiro copo de cerveja tomado nos botecos da vida. E saem, vez em quando por aí, caras pintadas… Para quê?…
    Gente de todo o mundo sabe mais sobre os anos da ditadura brasileira do que nós. Mas… Não tem mas! A ditadura acabou faz tempo e o povo nunca teve interesse de conhecer-lhe os detalhes. Não-teve-interesse. As informações estão sempre aí, para quem se interessar.
    Antes uma revolução era uma revolução. Hoje, virou um evento social. “Eu Sou Da Paz”… E esquece-se a verdade dita por Churchil: A Paz se conquista com sangue suor e lágrimas. O que vale dizer que é preciso lutar sempre para conquistar.
    Décadas de ditadura desapareceram por ato da Anistia indiferente de um povo. Não existiu 68, nem 64, muito menos torturas…
    Um dia esse povo acorda. Só espero que não seja sob uma nova ditadura… Se isso acontecer, talvez nem importe. Desde que não falte o pão e circo.
    Vou ficar aqui, na minha Sorbonne interior. Antes que saia pela praça da Repúlbica da Memória e concorde com aquele “maluco beleza” que tinha, estampado na camiseta, a frase: O mundo é Uma privada. Só tem merda nele.

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