Os donos das histórias

Gravações inéditas de Renato Russo, reedição da obra de Jorge Amado, fotobiografia de Clarice Lispector, reedição de Vivaldo Coaracy, edição fac-similar da primeira edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas. A todo instante vemos alguma ação para a preservação da obra e da memória de alguém. O que pouca gente sabe é que isso é só a pontinha de um iceberg. Sob o mar gelado do esquecimento, há centenas e centenas de projetos desse tipo que jamais chegarão à superfície.

Muitos porque não conseguirão qualquer apoio para serem realizados. A falta de dinheiro é um dos maiores e mais comuns entraves para que venham a existir. Mas há um obstáculo muito mais poderoso que é capaz de deter até os projetos que têm dinheiro para serem colocados no mundo. Trata-se de um fenômeno que mistura orgulho, vaidade e mesquinhez. Costumo chamá-lo de “o dono da história”.

Acontece assim: alguém passa a vida toda a criar obras maravilhosas – literatura, poesia, música, desenho, filme,… – e, quando morre, começa uma briga entre seus herdeiros para saber quem é o “dono da história” do falecido. O resultado disso é quase sempre o mesmo: a história é enterrada com quem a viveu. Quem perde são seus admiradores e todo mundo que poderia um dia vir a ser um.

É irônico que geralmente tal ato venha acompanhando da desculpa “estou fazendo isso para preservar a memória…”. E nada é realmente feito.

O orgulho e a vaidade fazem com que a pessoa acredite que só ela tem o direito de contar aquela história, só ela está apta, só ela sabe “a verdade”. A mesquinhez faz com que pense: “isso vale algo e só eu posso lucrar com isso”. Há ainda um outro ponto: quando isso acontece, pode ter certeza, está presente também a tentativa de esconder algo.

Esbarrei com isso, várias vezes, em pesquisas para o Memória Viva. Nada que me atingisse diretamente. Rápido aprendi a sentir, de longe, o cheiro de pessoas assim e manter distância. Para quem trabalha nessa área – de preservação de memória – por paixão, mesmo sem estar envolvido, dói assistir a esse tipo de comportamento. E, infelizmente, é algo muito comum.

Não canso de cantar minha sorte em relação às pessoas com quem mantive contato para as biografias de Appe e Carlos Estevão. Esposas, ex, filhos, netos, sobrinhos, amigos, colegas de trabalho… Pessoas maravilhosas que, cada um a seu modo, têm me ajudado muito durante todo o processo de pesquisa.

Foi numa dessas conversas, com uma amiga de Appe, no ano passado, que fiquei sabendo de um trabalho maravilhoso de preservação da obra e da memória de um grande compositor e instrumentista brasileiro. Um trabalho feito com amor, por gente competente e gabaritada, com tudo para ser um grande sucesso e atingir seus objetivos. Mas esbarrou em um “dono da história”.

A conversa foi com Terezinha Mendes, cantora lírica. O trabalho vem sendo feito por sua filha, a socióloga Flávia de Oliveira Barreto. Consiste em escrever uma biografia e montar shows e exposições com o objetivo de organizar a obra e manter viva a memória de seu pai, um tal Severino Dias de Oliveira, nascido em Itabaiana, cidadezinha do interior da Paraíba. Compositor, sanfoneiro, coisa muito comum no estado. Você – e meio mundo – já deve ter ouvido falar dele, que era mais conhecido pelo apelido de Sivuca.

Matéria de capa do Caderno 2 do Estadão, na última segunda, fala sobre o caso. Começa de maneira sóbria e direta: A quem pertence a obra de um artista depois de sua morte? Ao público que o consagrou ou aos herdeiros que deixou?

A filha única de Sivuca pode ver todo o seu projeto barrado por força de decisão judicial que lhe tira o direito de fazer qualquer coisa com o nome do pai. Absurdo? Sim. Mas só um dentre muitos parecidos que estão acontecendo agora.

Meu pai não teve a preocupação de ficar juntando nada. Só queria tocar. Tem disco que não se encontra em lugar algum do mundo. Se você não reedita, o que acontece? O artista morre de novo”, diz Flávia na matéria.

A última frase é a regra do que acontece no Brasil. Qualquer disposição contrária é a exceção.

Sivuca é conhecido e respeitado internacionalmente, mas quem o conhece aqui no Brasil? “Se você fala sobre Sivuca com uma pessoa que entende de música, ela sabe quem é. Mas se perguntar na rua é capaz de ele ser confundido com o Hermeto Pascoal”, sentencia a filha, consciente de que vivemos em um país sem memória.

Quem se lembra de Marinês, falecida há apenas um ano? Ou de Canhoto da Paraíba, morto há menos de um mês? Quem lembrará deles daqui a vinte, trinta anos? Quem se importa com isso?

Certamente há alguém que se importa. E ao tentar preservar a memória dessas pessoas, estará fazendo um favor aos que estão aqui e podem continuar usufruindo de sua arte, de tudo que elas criaram. Seriam bem-vindas muitas histórias. Não só uma oficial, com dono, quase sempre guardada de forma tão “cuidadosa” e sem sentido que acaba nunca sendo compartilhada.

Espero que na maioria desses casos prevaleça o bom senso. Que os donos das histórias sejam menos egoístas e possam realmente mostrar que amavam e respeitavam seus personagens.

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3 respostas a Os donos das histórias

  1. wilson disse:

    Uma historinha:

    Tio Isaía (Isaía mesmo.)cochilava em sua cadeira de balanço. Tia Rosa explicava: Ele está bem, fortão, 95 anos. Não fosse a esclerose…

    Tio Isaía acorda,dá um bocejo e diz frases em dialeto calabres. Tia Rosa conta: Tá assim. Parece que esquece completamente o Português. (Como se, em 80 anos no Brasil,ele falasse bem o Português.)

    Tio Isaía fica um bom tempo olhando ao redor, com se estivesse em outro planeta. Repentinamente, com um brilho intenso nos seus grandes olhos verdes, encara minha prima Bea (Beatrice), dá um grande sorriso desdentado e diz: Bea, como você está “bella”! Rosina “portaci” o café e…e…

    Nos olhos do Tio Isaía a intensidade do brilho apagou. Disse algumas frases em dialeto, respirou fundo e emudeceu.
    Tia Rosa, mais uma vez, esplicou: É assim mesmo. Passa dias em que não fala, dias a resmungar em dialeto e num átimo volta a conversar normalmente. Dura poucos minutos às vezes, quase nada – a conversa e ele volta para “o mundo da sua cabeça”. “Chi lo sà cosa pensa…”

    Bea olha para mim, pisca e me diz ao pé do ouvido: “Nossa! Parece até que a tia está falando da Memória do povo brasileiro…”

    No Brasil quando uma personalidade morre. Morre mesmo! Aniquilam sua memória, destróem os seus trabalhos e o condenam ao ostracismo. Apagam a sua lembrança e prestam desserviço às gerações vindouras.

    Vez ou outra, mais por obra do acaso que por pesquisa, uma personalidade retorna do seu sono eterno. E o povo faz festa, jura amor, fidelidade até que vai ao ar a próxima atração…

    Aí, como meu tio Isaía, o brilho fenesce, a chama apaga. Emudecem, esquecem. Sem culpas e sem remorsos. Como na esclerose “del mio zio Isaía.”

    A moral dessa história depende da consciência culpada ou inocente de cada um.

    Abração.

  2. Jandiro disse:

    Jorge Amado, Clarice Lispector, Machado de Assis… Fico frustrado com a insistência de resgatar sempre os mesmos. Uma impossibilidade total de ousar e diversificar vem resumindo a vida cultural brasileira sempre aos mesmos. Grandes, sem dúvida, mas não únicos.

  3. Sandro Fortunato disse:

    Não é mera insistência, JANDIRO. É possibilidade. Só se faz isso em dois casos: 1) por iniciativa ou com permissão de quem possui os direitos; e 2) quando a obra está em domínio público. Todo o resto é esquecimento ou esbarra em algum “dono da história”.

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