E quando ela se zanga

Lá vai Marina andar mais uns metros para chegar ao trabalho. Para voltar ao Senado, onde deixou saudades.

Foi um efeito borboleta às avessas. A terra tremeu na China e a nossa borboletinha bateu asas aqui no Planalto Central.

Marina é uma figura fisicamente frágil. Mas tem um espírito danado de forte. Fez a parte dela e agüentou enquanto pôde essa luta inglória que é defender a Natureza. Particularmente, acho que ela (a Natureza) sabe se cuidar muito bem e já começou a mostrar que se cansou de todas as sacanagens sofridas.

Marina, menina pobre. Marina seringueira. Marina ambientalista. Marina amiga e companheira de luta de Chico Mendes. Marina senadora. Marina ministra. Marina de novo pronta a fazer barulho na tribuna.

Se não sou capaz de mudar alguma coisa aqui e agora, seguramente não serei capaz de mudar no futuro”, deve, finalmente, ter pensado. A frase é de Betinho, mas está na Revista da Marina, publicada por seu gabinete, em agosto de 2001, quando eu desembarcava em Brasília e começava a trabalhar no Senado.

No ano seguinte, pensei em uma “campanha de humanização” que, dentre outras coisas, contaria com a apresentação de fotos dos senadores quando crianças, talvez até em crachás – usados por eles – em alguns momentos (idéia ainda mais estúpida que tentar defender a Amazônia). Marina estava em tratamento de saúde quando estive em seu gabinete e não tive o prazer de vê-la mais de perto, de falar com ela. Muitas vezes a vi atravessando os corredores do Senado, passinho lento, discreta, quase sempre sozinha.

Essa é uma das imagens que guardo dela. A outra está aí ao lado. É a primeira foto de Marina, já uma adolescente. “Mas eu queria uma foto em que ela aparecesse mais novinha, criancinha”, expliquei. Mas não existe. Esta foi a primeira. A família não tinha dinheiro para ter uma máquina ou mesmo uma vida social na qual surgisse uma foto. A pobreza era tamanha que não permitia registros. Era uma história para ser esquecida. Ou gravada apenas na alma.

Lição de humildade aprendida. Já quase ao final do primeiro mandato como senadora, os filhos mais novos iam à escola a pé ou de ônibus. O carro da família havia acabado de ser comprado. À prestação. Marina não tem deslumbres. Acreditava que pudesse fazer algo no Ministério. Se desistiu – e acho que demorou muito – é porque achou melhor voltar ao seu habitat natural, onde pode ser mais ativa, onde pode se fazer ouvida.

Nos 120 anos da Lei Áurea, Marina fez-se livre. Com as bênçãos de Caymmi, só peço, Marina, você faça tudo, mas faça um favor: continue sendo esse exemplo de honestidade, força e perseverança. A luta é inglória, repito, mas não está perdida.

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2 respostas a E quando ela se zanga

  1. Chris Angelotti disse:

    ADOREI!
    Depois dessa eu, se fosse a Marina, pediria que escrevesse minha biografia. rsrs
    Que forma poética de descrever a luta e os ideais de uma pessoa…
    Ah! fiquei triste em perdermos Marina como ministra.Quanto alguém bom aparece num de relevância,logo acontece algo… Mas acredito que, pelo seu histórico, que ela foi sensata. Que ela possa continuar sua luta ainda mais ativa e com êxito.

  2. wilson disse:

    Meu elenco de “mulheres maravilhosas na política” ganhou Marina. Já tinha a Heloísa Helena… Será que encontrarei mais?…

    Ps: Leia direito, omi! Eu escrevi MARINA e não Marisa…;)

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