Escrever e publicar

Vejo meus escritos publicados desde os 16 anos de idade. Lá se vão vintes anos. Sempre em jornais e revistas. Em livro, já fui citado, ganhei dedicatória, escrevi prefácio, tive citação em orelha, trabalhos utilizados como fonte de pesquisa. Somente no ano passado tive um texto – um pequeno artigo originalmente publicado em um jornal – nas páginas de um livro. E só soube quando já estava pronto.

Daqui a alguns dias, finalmente debutarei como escritor. Não mais repórter, cronista, colunista, articulista. É um conto. Um microconto para ser mais exato.

O pecado será cometido na antologia Entrelinhas, a ser lançada pela Andross Editora, no final deste mês. São 43 microcontos e 48 contos em quase trezentas páginas. Gente de todo o Brasil, de todas as idades, começando nas letras, íntimos ou velhos amigos delas. Histórias rápidas – rapidíssimas às vezes – para todos os gostos.

Vinte anos escrevendo, incontáveis reportagens e entrevistas, crônicas, quatro anos de blog que geraram cerca de quatrocentos textos, algumas dezenas de pequenos contos lidos por meia dúzia de amigos, se tanto. Material suficiente para uns dez livros. Por que nunca publiquei ao menos um?

Porque não aproveitei os arroubos (eufemismo para inocência ou ignorância) da juventude, quando achamos genial tudo que fazemos, e porque hoje um feroz crítico, que mora em mim, não me permite macular páginas de livros por pura vaidade. Mas os motivos não são só estes nem assim tão simples.

Atravessei várias fases e formulei diferentes teorias. No início, acreditava que o ideal seria uma grande editora descobrir “as maravilhosas obras escondidas em minhas gavetas”. Que escritor o mundo estava perdendo! Todo aspirante a escritor pensou isso um dia. O tempo foi passando e fui publicando em jornais e revistas. Se há um tipo escrevedor mais arrogante que escritor, este é o jornalista. A cada diploma assinado, temos alguém pronto a fazer pouco do Bechara. Tive péssimas – poucas, ainda bem – experiências com a genialidade alheia que, armados da pena inquisitorial, do concedido título de editor, conseguiram transformar informações, das mais simples e diretas, em erros monumentais. Aprendi que passar por idiota, só por mérito próprio. Dispenso o auxílio de terceiros. Assim, comecei a evitar a idéia desse desgaste com uma editora.

Os tempos mudaram e as edições independentes começaram a se tornar algo cada vez mais comum. Aí eu já não era tão jovem nem tão vaidoso. E o já citado crítico havia se apoderado de mim e de meus escritos. Desconfio de elogios e quando demonstram apreço por um texto em particular, acho apenas que ele (o texto) cumpriu parte de seu dever.

Durante muito tempo não entendi o motivo que levava um escritor a dizer que jamais relia um livro seu ou um cineasta que não revia um filme já finalizado. Só entendi quando comecei a perceber que, a cada releitura de um texto meu, encontrava erros ou uma forma melhor de dizer algo. Aí vinha o trilema: publicar e me envergonhar eternamente, ficar corrigindo sempre como um paranóico ou evitar as duas primeiras opções não publicando.

Nos últimos anos, com tanto material e tanta cobrança – minha e de terceiros – passei à tese de que seria melhor colocar o lixo para fora para finalmente escrever algo que prestasse. Então aconteceu o inesperado. As lições que a vida traz e você é obrigado a aprender. Com o início dos trabalhos para as biografias de Appe e Carlos Estevão, fui obrigado a me organizar, pensar com muito cuidado cada passo dado na pesquisa e aonde cada um me levaria. Só então senti na pele algo que repetia, acreditava, mas não havia experimentado: escrever é 99% de transpiração e somente 1% de inspiração.

Passei a encarar os textos como filhos. Crio, coloco no mundo, dou o melhor de mim a eles, mas não me pertencem. Espero que encontrem bons homens e boas mulheres que gostem deles, que tenham bons momentos juntos.

Portanto, preparem-se. Vem aí um monte de livros, livretos, plaquetes e folhetos. Sobre isso, falarei em breve.
.

* * *

Já pediu seu exemplar do Entrelinhas? A promoção de pré-venda é só até dia 20. Clique aqui e saiba como fazer.

Escreva-me Logo abaixo em  COMMENTS Clique e cadastre seu e-mail

Esta entrada foi publicada em Literatura, Livros. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

3 respostas a Escrever e publicar

  1. Jailma Nunes disse:

    Também não acho boa idéia reler textos feitos por nós mesmos, como vc disse, com um certo tempo percebemos que o texto poderia ter saido melhor, ou que falamos algo desnecessário, ou uma coisa muito sem sentido. Mesmo assim é bom lê-los e ver o quanto as idéias mudam quanto mais escrevemos. Abraços.

  2. Chris Angelotti disse:

    Sandro,

    Adoro seus escritos, com certeza só vem coisa boa dessa cabeça!
    Quanto às publicações, infelizmente sabemos que o mercado editorial não é justo.É por vezes oportunista. Quantas obras maravilhosas são lançadas no exterior e não chegam às nossas prateleiras por questões comerciais. Quantos autores nacionais deixam de ser lidos e escrevem maravilhosamente. E quanto,mas quanto lixo chegam às nossas prateleiras?
    Esse critério de publicação ainda é uma interrogação pra mim.Sinto que o comércio fala sempre mais alto,mas muitas vezes se aposta em coisas que não acredito que vendam tanto.
    Acredito que quem escreve bem terá sua hora. Mas não custa fazer essa hora acontecer.
    Siga em frente garoto! você é dos bons, é dos ótimos!

  3. wilson disse:

    Seja sempre você a escrever. Seja sua a emoção, sua a lógica e seu o instinto.
    Não importa como outros escreveriam, porque não escreveriam a sua história e sim a deles.

    Hoje um contículo em meio aos outros – uma vitória! Amanhã um, dois, muitos livros “à mão cheia”. A perseverança está sendo premiada. Fazer parte de uma antologia é, com certeza, uma forma bonita de eternizar-se.

    Rever o que se escreveu não é válido. Revisitar o que se escreveu é mais importante. Desperta antigas emoções vívidas e as adormecidas.

    Mais do que a história que se escreveu,as lembranças tornam-se histórias paralelas a iluminar o cenário real em que se escreveu a ficção.

    Vai em frente. Brilhe!

    Abração,ção,ção!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *