Barbarella

Ah, esses diretores tarados e suas mulheres maravilhosas! Criam e imortalizam mitos femininos só para demonstrar, em escala mundial e histórica, seus troféus. Graças à vaidade exibicionista de Roger Vadim, talvez acentuada pela crise (qual?!) dos 40, o mundo conheceu Barbarella nas carnes de Jane Fonda. Tão forte, tão perfeita, tão maravilhosamente encarnada que não deixa dúvidas: é única e original. Apesar de não ser nem uma, nem outra.

Não nego o sangue. Dessas uniões oníricas, coloco a de Carlo Ponti-Sophia Loren e as de Fellini-e-suas-deusas no topo da lista das mais bem sucedidas do cinema. E no papel, nada como os fumetti de Milo Manara e Guido Crepax para incendiar a imaginação e a libido de qualquer um. Admito que Barbarella seja uma exceção a tudo isso. Com duas boas justificativas: foi criada por um francês e produzida por um italiano.

Antes de Valentina nascer, Jean-Claude Forest já havia criado Barbarella. E, para mim, acabam aí as comparações: heroína sensual em quadrinhos. Prefiro os desenhos e as histórias de Crepax. Ponto. Mas a transposição da personagem de Forest para as telas foi das mais felizes da história do cinema. Dirigida – e “digerida”, se me permitem – por outro francês , mas produzida por um italiano: Dino De Laurentis.

Assistir Barbarella hoje tem um peso muito maior, imagino, do que em 1968. Naquele ano, enquanto meio mundo pegava fogo, assistir àquela ficção non sense carregada de sensualismo, vinda de uma história em quadrinhos criada apenas seis anos antes, poderia parecer extremamente banal. Porém, como sabemos hoje, o filme fez a fama de Jane, que não precisaria mais ser a filha de Henry, a irmã de Peter, nem lançar vídeos de ginástica ou casar com um mega empresário para entrar para a História. Como sabemos também, Vadim levou para a tela não só a beleza de sua mulher, mas tudo que gostava de fazer ou ver fazerem com ela.

O sexo livre com vários amantes, o sexo como restaurador de todas as vontades, regenerador e potencializador das capacidades. Barbarella-Jane era uma mulher mais poderosa que “a máquina dos excessos”, que qualquer prazer artificial. Sua força parece vir de uma epifania pós-coito – e de fato o é –, pois vemos Barbarella várias vezes em êxtase, deitada, sorrindo, olhos fechados, viajando, curtindo o gozo, restaurando suas energias.

Barbarella-Jane tornou-se um mito que a Barbarella dos quadrinhos jamais conseguiria ser. Atravessa já quatro décadas influenciando todo tipo de manifestação artística. Desde sempre nos quadrinhos e no cinema; na moda e na música. Quem viveu os anos 80 e não pulou ao som de Duran Duran? A banda que tomou para si o nome do cientista que Barbarella deveria salvar no filme e que só em 1997, já com 17 anos de existência, apresentaria sua homenagem/releitura da heroína em Electric Barbarella. A música é ótima, mas o clip preferiu exaltar a banda como ícone gay e ficou caricato. Barbarella vira uma sensual boneca cibernética muito mal usada para afazeres domésticos. Ao menos lembram de lhe dar um brinquedinho para que tenha seus próprios momentos de diversão. No clip, a personagem é vivida pela modelo americana Myka Bunkle, que a despeito da misoginia empregada no filmete, aproveitou seus cinco minutos para fazer muito tempo uma boneca que todo homem gostaria de ter.

Agora Barbarella ganha outra pele. A de Rose McGowan, a garota com perna de metralhadora de Grindhouse – Planet Terror. Faz sentido. Uma mulher de trinta que faz inveja as de vinte, mulher do diretor (Robert Rodriguez), nascida na Itália e de mãe francesa. Faz todo sentido. Sem tirar qualquer brilho da “original” Jane Fonda, tem tudo para reavivar o mito, apresentando a personagem às próximas gerações e deixando ecoar em seus sonhos a pergunta que tem milhões de respostas: “Em que você pensa quando faz amor com Barbarella?

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Deixem Barbarella trepar em paz!

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2 respostas a Barbarella

  1. Acho que esta semana vou querer comer bisteca todo dia. Obrigado pela inspiração, Sandro. Adeus vegetarianismo!

  2. wilson disse:

    Barbarella era uma espécie de Flash Gordon – claro que muito mais gostosa que ele. Nos anos 70, além da Barbarella, ví “If” e “Laranja Mecânica”… Foi um “nó” daqueles.

    O que marcou em Barbarella, foi a Fuck
    Machine. E o corpão da Jane.

    Barbarella e Vampirella circulavam pelas bancas de Sampa.

    Nos anos 70 falava-se que Barbarella seria um protótipo da futura Barbie Putinha, que seria lançada no século XXI.

    No começo dos anos 80, ainda era possível encontrar o poster de Barbarella sendo carregada pelo Anjo. Mas nos 80, o tesão baixou, a AIDS pintou. Barba, Vampi e outras, caíram no esquecimento. Até a Rebordosa acabou morta…

    E, Jane-Barbarella era um jantarzão prá trocentos talheres: Sexo grupal, troca de casais, ménage a trois millle (Era foda!)… Um dia arrumou a trouxa, voltou prá casa e gravou muitos vídeos de ginástica para que todos tivessem um perfect body… Mas nunca falou das pláticas, remoções de pele e lipo-aspiração que constantemente fazia… Malhou, malhou, murchou e encolheu-se. Não mais Barbarella, não mais a dançarina de They shoot horses, don’t they? (A Noite dos desesperados). Recentemente virou “Suegra” – um verdadeiro “retorno às telas” com prognósticos “fim-de-carreira”.

    O Horror dos Anos 80, sepultou Barbarella em alguma parteleira. Mas um dia, ela voltará com tudo para mostrar ao mundo do século XXI que antes da “Maldita”, trepava-se à granel…

    Abração!

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