Appe vê a ditadura e o 1º de maio

Vá lá que “nunca na história deste país” tanta gente teve carteira assinada, que estudantes sem experiência têm chances de um primeiro emprego, blá-blá-blá, etc, mas a charge de Appe (sem data) é sempre atual no que diz respeito à “vagabundagem” e à falta de envolvimento com questões trabalhistas.

É fácil reunir milhares de pessoas para uma maratona de shows bregas. Tente reunir o mesmo tanto, em um feriado, para protestar por algo. Detalhe: sem lhes dar nada (porque em grande parte dessas manifestações há pagamento de diária, alimentação e outros aditivos). Quero ver o povo sair de casa, protestar e sabendo o porquê.

Também nunca entendi essa institucionalização da vagabundagem chamada feriadão. Quando ouço falar em redução de jornada de trabalho, penso que as pessoas estejam querendo algo como trabalhar um mês e ter onze de férias. Em um país com tantos feriadões, no qual fingir doença para conseguir licença ou aposentadoria já não é suficiente, onde já se cortam dedos para não deixar dúvidas “da necessidade de deixar de trabalhar”, falar em Dia do Trabalho, conquista de direitos e coisas afins só pode mesmo ser piada.

Pena que Appe não está mais por aqui para dar um pouco de humor à situação.

Sempre admirei a capacidade de síntese de determinados chargistas. Imerso na obra de Appe, me surpreendo a todo instante com essa característica tão presente. Um bom exemplo disso foi usado na capa do fascículo 4 da série A ditadura militar no Brasil, lançada ano passado pela Caros Amigos (ainda em bancas, fora das capitais, devido à maldita “distribuição setorizada”). Na charge de Appe, a síntese da chegada dos militares ao poder. Castelo Branco dando ordens, comuns aos militares, a um homem do povo. Mais que isso, o diabo, como sempre, está nos detalhes. A caricatura de Castelo bem feita, rosto limpo, queixo erguido mesmo com a falta de pescoço, contrastando com a cara suja e de traços quase indefinidos do representante do povo que, além de tudo, está de calças arriadas. Perfeito!

Muito a propósito, uma série de charges políticas de Appe durante a ditadura inaugura uma nova área sobre o tema, a partir de segunda-feira, 5 de maio, no Memória Viva.

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3 respostas a Appe vê a ditadura e o 1º de maio

  1. wilson disse:

    🙂 Quem sái aos seu, não degenera!:)

    Das medievais “Cantigas D’Escárnio” e “Cantigas De Mal Dizer” de Portugal às prosas,versos e charges, nada é perdoado. Regimes, pessoas, situações, costumes, etc.
    Tudo é motivo para se rir e escarnecer.

    Não seria diferente nesses anos em que a “Gloriosa” de 64 reinou nestes Brasís.
    Tirava-se o maior “sarro” (escarnecia-se, fazia-se piadas) da Ditadura e seus líderes.
    Castello Branco pagou caro por “não ter pescoço”; Costa e Silva era escarnecido por suas gafes (verdadeiras ou não) e pela sua sensibilidade comparada à pisada de um elefante. O Medici era conhecido po Emílio Garrafa Azul Medici em alusão ao Leite de Magnésia de Phillips (que vinha em uma garrafinha de vidro azul). Ou seja, era considerado um purgante. O Geisel era era “malhado” por suas atitudes anti-sociais. O Figueiredo, então, rendeu muitas charges e piadas que fizeram o povo mijar de rir.

    O próprio regime rendeu muitas piadas e cadeia para muita gente.
    É antológica a cena do Chacrinha caminhando para atrás,cantando “Este é um País que vai prá frente…”
    Nessa época “dançaram” muitos chargistas. Do Pasquim, da Abril e da Folha.

    Nessa época também, causou o maior escândalo a charge do Tarzan balançando no cipó e a Jane pendurada nos seus “bagos” e, ele, gritando: “No Cipóóóóóó!!!” Não tenho certeza. Penso que é do Ziraldo.

    Fazia-se também muitas paródias com as músicas ufanistas do regime, tipo Eu Te Amo, Meu Brasil.

    AppE fazia, no período, muita charge singela, mas com um apelo crítico devastador. E, claro, muito humor.

    Foi a época do “abajur de bunda” (mini-saia); época da Jovem guarda, Festivais da MPB, Bossaudade (velha guarda); do Fontenelli que infartou, tentando “dar um jeito” no trânsito de São Paulo…

    Ah! E o mais importante. Aparece a Lei de Gérson: O negócio é levar vantagem em tudo. Certo?! 😛

    Era um tempo de conspirar; de jogar bolinhas de gude ou de aço para derrubar os milicos dos seus cavalos; era tempo de dar um tempo e mijar de rir, vendo os “milicos” da cavalaria, em formação, trotando pelas ruas do centro e deixando atrás de si, “homéricos” cagalhões de estêrco no asfalto. Ríamos de cair no chão. Pois havia sempre alguém que gritava para os “milicos”: “Vocês estão derrubando as marmitas!”. Záz! Um corre-corre. Cavaleiros e cavalos avançavam sobre a multidão, agraciando a todos com coices e muitas salvas de “casse-tétes”…

    Fico pensando: Como seria interessante ver esse lado cômico-grotesco, esse floklore que também fazem parte dos anos de Ditadura transformado em livro. Talvez muita gente se interessasse por esse período tragi-cômico de nossa História.

    Tempo em que ria-se, para não chorar. Ironizava-se para seguir vivendo…

    Abração!

  2. Jailma Nunes disse:

    Até acho que se não fossem alguns chargistas muitas pessoas nem se dariam conta de tantos problemas ao seu redor. Se por meio de uma informação séria ninguem se preocupa com certas coisas, então vamos rir pra não chorar.
    Abraço.

  3. Acredito, por exemplo, que as charges de Luis Fernando Veríssimo são tão importantes quanto suas crônicas. Muitas vezes me peguei com uma idéia de texto na cabeça quase sempre cheia e pensando: se eu soubesse desenhar passaria a informação muito melhor que utilizando a escrita. Gosto mesmo de vir aqui!

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