Fleury, Dops e coincidências no 1º de Maio

Em todo dia 1º, organizo os livros que pretendo ler durante o mês que inicia. Na lista prévia de 10 ou 12 títulos, sempre uma biografia. Desta vez escolhi uma que me foi dada há algum tempo por Wilson: Autópsia do medo – Vida e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Um calhamaço de 650 páginas escrito por Percival de Souza.

Motivo da escolha? Talvez o fato de estar preparando um site especial sobre 1968 para o Memória Viva. Tenho lido muita coisa sobre aquele ano, movimentos estudantis, repressão e, claro, sobre o Dops – Departamento de Ordem Política e Social, que teve em Fleury sua mais destacada figura.

O primeiro capítulo começa com a descrição da chegada de duas viaturas trazendo “subversivos” para uma sessão de tortura no DOI-Codi – Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações de Defesa Interna. Fala do local, dos “métodos de interrogatório”, de sua ligação com o DOPS até, finalmente, apresentar o biografado. O segundo capítulo começa assim:

Esse homem feito mito morreu afogado ao cair de um barco no início da madrugada de 1º de maio de 1979, em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo…

Sim, 29 anos hoje. Esse tipo de “coincidência” acontece comigo todo o tempo.

Só aí também me dei conta de outra “coincidência”. Hoje pela manhã, a Estação Pinacoteca, em São Paulo, inaugurou a exposição Direito à Memória e à Verdade – A Ditadura no Brasil: 1964-1985. Além disso, o espaço onde funcionavam as celas do Dops muda de nome. De Memorial da Liberdade – que sempre achei um tremendo contra-senso – para Memorial da Resistência.

As fotos abaixo são de quando estive lá (também) em maio de 2006.

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2 respostas a Fleury, Dops e coincidências no 1º de Maio

  1. Renata Silveira disse:

    Jornalistas e revolucionários, do Bernardo Kucinski e Brasil Nunca Mais, do Paulo Evaristo Arns foram dois livros que marcaram-me imenso no primeiro semestre do curso de Jornalismo. Ganhei-os de presente da minha mãe que, entre muitas histórias de repressão, lembrava dos seus tios – e alguns primos – presos e torturados pelo regime (ainda o de Vargas) que obrigou o meu avô a viver muitos anos na clandestinidade e sob o nome de um irmão já falecido…
    Hoje há outras formas de censura… E há outros assuntos no agenda setting que cegam-nos diariamente da realidade política, rementendo-nos aos biguibródis da vida!!

  2. wilson disse:

    A madrugada de 1º de Abril marca o início da “Revolução Gloriosa” de 1964. Data que, por motivos óbvios, passou a ser “comemorada” em 31 de março.
    Milicos no poder, Fora! Abaixo a Ditadura!… Frases que ecoam até hoje nos meus pensamentos.

    Um 1º de abril que transformou-se em décadas de terror. Passeatas,contestações, UNE, TFP, CCC, MAC,FAC. Censura Prévia de programas de TV que exibiam os certificados da Federal; Teatros invadidos, Jornais empastelados de forma subterrânea a oferecer ao público receitas culinárias impossíveis e os festivais. Foi também a era dos “ZÉ MANÉS” que raramente tinham conhecimentos ou cultura sufuciente para exercer a censura.
    O Cinema Nacional sobrevive de porno chanchada…
    E um PELÉ subserviente declara que “os brasileiros não estão preparados para votar…”

    Tudo era subversivo. Bastava uma denúncia. Época dos “desaparecimentos”, dos “suicídios”; cemitérios clandestinos e torturas.
    Torquemada renasce e reinstala o Santo Inquerito e o Dops transforma-se na Sé.

    O templo maldito permanece com os seus fantasmas a vagar. Seus gritos ainda ecoam por aquelas paredes, assim como os risos sádicos dos torturadores.
    Prédio maldito do Dops! Nem sempre ele foi assim. A obra de Ramos de Azevedo era sinônimo de Vida, de Progresso: Foi a primeira estação da Cia. Sorocabana. A vida ia e vinha por aquelas portas sempre abertas.
    Prédio Maldito! Por mais que o “maquiem”, não conseguem apagar, dissimular o terror, a dor e os écos do passado. Alí, não há uma egrégora de energia, somente um buraco negro. Deprime.

    Terror, terrorismo; intelectuais, cantores que, na condição de refugiados políticos, viviam as suas vidinhas enquanto vidas anônimas, sem regalias, insistiam em viver, entre os “Paus-de arara”, choques elétricos, mutilações, pancadas, o resto da VIDA que se lhes extiguia.
    A multidão dos anônimos jazem como indigentes e desconhecidos em cemitérios públicos e clandestinos. Não voltaram dos seus exílios e nem foram recebidos com aplausos e toques de trombetas. São DESAPARECIDOS… Mas, quem se importa?…
    E Fleury? A Justiça foi feita: Infartou, caiu na água e afogou-se. Morreu sozinho. Niguém se importou ou derramou uma lágrima; no peito de cada um havia sim, um sentimento de “já foi tarde”… E, o povão dizia frases sussuradas carregadas de maldições.
    Tenho na lembrança a voz clara e angustiada de uma mãe de torturado. “Que ele NUNCA encontre a paz!”

    Amém!

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