Ecos de 68

Apesar de ser um leitor compulsivo, meu relacionamento com a leitura de livros, especificamente, não é do tipo “simples devorador”. Há várias nuances sobre as quais pretendo tratar em breve, numa série sobre o prazer de ler. Abordo o assunto agora apenas para dizer que uma das facetas desse relacionamento é o de ler, de tempos em tempos, um mesmo livro. Nessa lista de releituras estão, dentre outros, A metamorfose, de Kafka; A Polaquinha, de Dalton Trevisan; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; e 1968 – O ano que não terminou, de Zuenir Ventura.

O livro foi lançado em 1988, coincidindo com minha entrada na universidade. Comprei e li no mesmo ano, em uma edição do Círculo do Livro. Em 1998, li de novo. E mais uma vez agora em 2008. Vinte, trinta e quarenta anos depois dos fatos narrados nele. O tema vai ficando mais familiar e ao entendimento são somados outros conhecimentos e minha própria experiência.

Desta última vez, não saía de minha cabeça o fato de aquela geração estar, finalmente, no poder. E alguns já “nem mais”, como José Dirceu. Seria, então, uma nova leitura. Daí surgiu outra das minhas obsessões. Começo a buscar livros afins e vou me mergulhando cada vez mais fundo no tema. Na seqüência do livro de Zuenir, busquei Abaixo a ditadura – O movimento de 68 contado por seus líderes, de José Dirceu e Vladimir Palmeira, lançado em 1998.

Fico me perguntando se a garotada de hoje tem a mais pálida idéia de quem são essas figuras e do que elas representam para nossa História. Não seria exagero algum dizer que tivemos alguns presidentes que não tiveram a importância histórica desses dois enquanto estudantes.

Abro parênteses para falar sobre José Dirceu. Quando Lula foi eleito, ninguém tinha dúvida de que seu sucessor mais provável seria o Zé. Pelo menos eu achava isso. Eu e muita gente que mirou nele para tirá-lo do ministério e, não satisfeita, cassá-lo como deputado, que era para não dar asa à cobra. Tudo dentro dos conformes. Ele não é santo. Nem qualquer um que se meta com política. Acho que o único erro dos petistas que vêm sendo fritados um a um nos últimos anos é que não se escolaram na sacanagem, não se “profissionalizaram”, antes de chegar ao poder. E os doutores nisso não perdoaram. Vêm limando uma a uma todas as lideranças de esquerda, seguindo o conselho de Herr Bornhausen (lembram?): “vamos nos livrar desta raça por 30 anos”.

Falei do Zé para falar de como as informações são manipuladas pelas elites, de como a boiada vai sendo facilmente tangida por quem tiver o grito mais forte e do que o tempo faz com as pessoas. Há líderes de esquerda no Brasil que lutaram muito mais e passaram por infernos que Che Guevara não passou nem em seus piores pesadelos. A figura de Che foi endeusada pela então nova elite e o resto é história. Até hoje, a garotada estampa a cara dele em tudo quanto é lugar, repete o “Hay que endurecerse…” e sabe que ele andou de motocicleta por aí. Agora pergunte a essa garotada quem foi e o que fez Vladimir Palmeira, José Dirceu, Franklin Martins, Fernando Gabeira… A história de cada um deles não acabou aos vintes e poucos anos, com a de muitos outros, sabe-se lá porquê. Mas durante duas décadas, quem mandava na história oficial fez deles os bandidos, os renegados. Eu acho muito mais válido andar com uma camisa com a cara do Gabeira e a frase “O que é isso, companheiro?” do que com uma do CliChê Guevara.

Quando esse povo começou a chegar ao poder, sem luta armada, eleitos pelo voto popular – algo pelo qual eles lutaram tanto –, logo começaram a cortar suas asas. Nós desaprendemos a pensar. Foi preciso uma liderança extremamente popular, vinda dos sindicatos, para se criar um símbolo de resistência. Símbolo que só foi realmente aceito pela maioria quando se enquadrou em parâmetros mais burgueses, mais parecidos com o sonho de consumo da classe média. Lulinha Paz e Amor, barba aparada, ternos bem cortados, fala moderada, en passant em vez de menas. Ele seria – porque até o momento, não obstante sua popularidade, o tempo verbal mais correto parece-me este –, repito, ele seria o caminho para essas lideranças de esquerda, mais politizadas, mais intelectualizadas, vindas das universidades, chegarem ao poder. Mas a direita conhece bem a lição e não deixou que outro mito, outro símbolo fosse criado. O passaralho continua voando solto.

E, finalmente, quanto à mudança das pessoas, volto ao livro de Dirceu e Vladimir. Escrito há dez anos (a partir de depoimentos), impressiona pela maturidade dos então cinquentões falando de suas lutas na juventude. Não se arrependem de nada, sabem que tudo aquilo foi necessário, mas fazem uma avaliação ponderada, um “se fosse assim poderia ter sido melhor, mais eficiente”, que desmonta qualquer máscara de bicho-papão que se queira dar a eles. E outros dez anos passaram. Dia desses, vi uma entrevista de Zé Dirceu ao UOL News e fiquei impressionado com sua serenidade, com seu tom, suas declarações certeiras, comedidas, coerente e fiel às idéias e aos colegas que, alguns querem fazer acreditar, “lhe deram as costas”. Pena que não tenha aprendido isso antes. Mas se Collor, que saiu como saiu, hoje está no Senado, é só uma questão de tempo, talvez “30 anos”, para “essa raça” aprender a se manter e brigar de igual pra igual com os cachorros grandes. Fecha parênteses do Zé.

Neste final de semana, temos ainda ecos dessa história. Hoje, Zuenir Ventura está lançando 1968 – O que fizemos de nós que, segundo o próprio, teve como preocupação “encontrar no mundo atual o que nasceu ou se desenvolveu em 1968”. Essa é a grande chave para bem aproveitar e aplicar tudo o que aconteceu naquela época. Antes que eu corra para comprar, devorar e muito provavelmente colocar esse novo capítulo escrito por Zuenir nas lista dos livros que lerei várias vezes, detenho-me em uma curiosidade de época sobre Vladimir Palmeira.

Na mesma edição de O Cruzeiro onde estava impressa a foto dos estudantes lavando a Sorbonne, que utilizei no texto anterior, há uma extensa fotorreportagem intitulada O difícil caminho do entendimento, na qual se mostram os conflitos entre universitários e polícia. Mais adiante, um misto de perfil e um dia na vida de Vladimir Palmeira na matéria Assim nasce um agitador.

“Não, não quero fazer uma revolução para meus filhos, netos ou outras gerações. A geração atual é que vai gozar da nova sociedade. Não quero uma revolução de caridade para o futuro. É agora e já”, dizia Vladimir, na edição de 6 de julho de 1968. Por mais que ecos daquele tempo sejam ouvidos ainda hoje, as palavras do líder estudantil encerram uma verdade absoluta. As revoluções, cada uma a seu tempo e com seus motivos, são para hoje.

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Uma resposta a Ecos de 68

  1. wilson disse:

    Só o meu comentário?
    Entende agora o que disse sobre os ranços da ditadura? Pois é.
    Não espere muito das gerações posteriores a 68. E 68 ficou no século passado, antes de o século passar. A grande maioria não dá a mínima. Omissão é a palavra de ordem.
    O velho 68 só terá validade ser for tema de uma novela global. Aí tooodos saírão às ruas para fazer um show; aí, vira moda. E a moda sempre passa. E a conseqüência novelesca não será como o estrondo de uma potente bomba. Será sim, como um peidinho insignificante e sem cheiro. Enfim, acaba a novela, acaba a motivação. Pena que a Grande Novela da Vida não tenha o mesmo IBOPE que as novelas da Globo.
    Certo estava o Chico Buarque de Hollanda, quando compôs o hino do povo brasileiro. Lembra? “Pra ver a banda passar…” (A Banda). E a banda continua passando e o povo parando para ver. E tudo volta à mesmice depois que ela passa.
    Tenha um tempo ouça A Banda. Voce vai descobrir que a Banda é a ditadura e os que a vêm passar são os brasileiros de todas as classes sociais. Depois que a banda passa ( a ditadura se firma… Tire as suas conclusões…
    A banda hoje, pode ser muitas coisas. E o povo continua o mesmo. Gosta de vê-la passar.

    Aproveita e ouça também “Subdesenvolvido” e me diz o que mudou, ou não mudou no brasileiro. 😉

    Ah! Não coloque no blog.Não haverá comentários. Ou talvez, uns poucos.

    O medo e a censura tornou-se epidêmica faz muito tempo.

    Abração.

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