O poder ultrajovem

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Ah, os jovens! Eles podem tudo. Eles podem mudar o mundo. E sempre acreditam que para melhor.

Confesso que me diverti assistindo à ocupação da reitoria da UnB pela tevê. Ria, olhava para minha esposa (que estudou na UnB), ria mais, lembrava dos meus tempos de UFRN, ria mais ainda. Os jovens são todos iguais. Uns mais, outros menos, mas são sempre jovens.

Quando fizeram a lavagem da reitoria, lamentei não estar lá. Juro! Vestiria meus vinte anos outra vez e me precipitaria rampa abaixo. Antes, lembraria de tirar o celular e o MP3 Player e de pedir a alguém para fotografar ou filmar com minha câmera. Claro, somos brasileiros e estamos em 2008. Nada daquela sisudez dos estudantes franceses lavando a Sorbonne no maio de 68. Muito menos a dos nossos compatriotas, naquele mesmo ano, virando e incendiando carros nas ruas. Os tempos são outros. A ocupação da reitoria da UnB não esperava nem os telejornais. Estava nervosa e festiva nos blogs, no Flickr, no YouTube, no Twitter. Outros tempos, outros tempos…

“Nos meus”, há vinte anos, também tinha dessas fanfarras. Com as cores da época.

1988 – UFRN – Curso de Jornalismo. Mais uma turma que iria mudar o mundo. Sandro no meio. Pelegos no Centro Acadêmico. Vamos tirar esse povo! Os malucos se reúnem. Roberto Homem redige o Manifesto Rolentrando. Prometemos caçar os professores fantasmas. Prometemos lutar por um jornalismo independente. Prometemos lutar pela modernização do curso. Prometemos fazer uma campanha limpa em todos os sentidos. Prometemos, prometemos, prometemos… Além de prometer, nós sabíamos mesmo era fazer festas. O som interrompia as aulas e ia até a madrugada. Numa festa-comício, reunimos tantas bandas que cada uma podia tocar, no máximo, três músicas. Tinha para todos os gostos e para a falta de também. Festa, muita festa. Amanhecíamos dormindo sobre os freezers, sobre as mesas, nos corredores. Como é bom ser jovem!

Ganhamos a eleição! Tudo vai mudar! O C.A., o curso, a UFRN, o Brasil, o planeta todo! Final de ano chegando… vamos fazer uma festa para comemorar, depois a gente assume. Férias. Voltamos no ano seguinte e ninguém assumiu nada. A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, o C.A. fechou. Durante meses. Depois foi arrombado, saqueado e, finalmente, entregue à chapa tão politizada – de esquerda, claro! –, que havia perdido para nós. Naquele tempo, a esquerda apanhava sempre.

Em 1968, havia mil motivos para lutar. Em 1988, havia mil motivos para festejar. Em 2008, mil motivos para blogar, flickar, twittar, para despachar o reitor. Isso não tem preço. Para todas as outras coisas, sempre há uma fundação ou um cartão corporativo.

Aqueles estudantes da UnB, que acompanhei de perto durante quatro anos bem recentes e julgava politicamente acomodados, no meio da farra midiática fizeram o que deveriam fazer. Até os de Relações Internacionais que, em sua maioria, cultivam um ar blasé de “assembléia, só a da ONU” acamparam, gritaram e, enfim, chutaram os boas-vidas. Parece que a garotada acordou. Aí eu pergunto: E agora? Quais são os ideais que alimentam esse ressurgimento do movimento estudantil? Existe mesmo uma luta pela modernização das universidades? E não era esse um dos motivos da luta de 68? O que aquela geração conseguiu? E a minha, de 88? O que conseguimos além de ficar bêbados? O que irá conseguir a de 2008? Eleger-se, criar barriga, corromper-se?

Drummond, o mesmo que perguntou “e agora?” já deu a resposta: Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.

Já estou louco para ver como será 2028.

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4 respostas a O poder ultrajovem

  1. wilson disse:

    A Sorbonne…
    Vez ou outra, como um velho fantasma, a Sorbonne vem assombrar o mundo.
    Na década de 60, no seu interior as idéias fervilham. O viver por viver transmitido pelo Existencialimo é contestado; idéias políticas; sociedade e Estado de Direito… Um mundo de idéias germinando em solo fértil. São os tempos da RPM (Revoluções Por Minuto)Marx,Mao;Democracia,Anarquia,Comunismo,Colonialismo… A França explode, Paris é a bomba. A Sorbonne o detonador. E sob a luz dessa explosão, o mundo entra guerra das idéias e ideais.
    Os anos 60, jogou o mundinho pós segunda guerra na lixeira. Não mais juventude passiva dirigida por um líder, e sim uma juventude ativa que toma nas próprias mãos o Destino.
    E o Livrinho de Mao, deixa a sua marca nessa época. Não porque era líder ou gurú dessa geração, mas porque pregava o direito revolucionário da contestação.
    Sorbonne, ecos da juventude de ricaços e burgueses que hoje riem desses seus tempos…
    O fantasma da Sorbonne continua lá. Assombrando.
    Sempre haverá uma Juventude com suas idéias e ideais. È isso que move o mundo.

  2. wilson disse:

    Em tempo: Complementando o meu comentário, para es te e para um post anterior.
    Somone de Beauvoir desfilou seu famoso bundão por lá.
    Ps: FHC também. Mas, claro que o bundão dele não tem a relevância do popô de la Beauvoir… 🙂

  3. Izilda ( Zi ) disse:

    Não há como não se identificar com manifestações como a ocupação da reitoria da UNB, quando se foi um jovem participante do movimento estudantil. Eu vivi o finzinho de uma época brava, entre 1972 e 1976, engrossando as fileiras da esquerda, numa Faculdade predominantemente de direita: A São Francisco – USP. Tudo tinha um sabor heróico e clandestino. Das reuniões secretas do Centro Acadêmico ao teatro popular, que reunia estudantes e operários, o objetivo era sempre o mesmo: derrubar o regime militar. Ousamos tudo, corremos riscos, muitos de nós foram presos, torturados, mortos…outros, simplesmente, casaram-se e mudaram-se… ou pior, viraram a casaca! Duvido, porém, que não sintam todos, diante de ações como a que vimos recentemente na UNB, um certo regozijo e identificação. Não tem jeito. Trazemos sempre conosco o jovem que um dia fomos. Ou que ainda somos. Beijão.

  4. Lini* disse:

    Rs, essa foto na unb ficou muito boa… to estudando na unb agora, mas entrei depois da acupasao da reitoria… que pena, queria estar la tbm, falta uma mocinha brincando ai na agua apesar da seriedade da coisa

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