Agripino? Pode mandar enquadrar.

Quando vi a capa da Caros Amigos de abril com o senador José Agripino de mãos postas e a chamada dizendo que “a pose de santa de altar disfarça o neocoronel com todos os seus vícios”, pensei que iriam desancá-lo a valer. Nem tanto.

Quem morou e foi jornalista no Rio Grande do Norte entende a justificativa, ao final, quando o repórter Léo Arcoverde diz que conseguiu “entrevistar apenas três pessoas (e todas sem se identificar) (…) Ninguém quer tocar no assunto”. Típico. Ainda bem que Léo saiu de lá. Bem-vindo ao clube e seja feliz.

Passei por vários jornais e tevês em Natal. Por sorte ou afinidade, logo me bandeei para a área cultural, mas até nela encontrei dificuldades em publicar uma ou outra vez. Em Natal, costuma-se fazer um jornalismo amarrado, de rabo preso, no qual os conselhos de calar aparecem a todo instante.

Mas há franco-atiradores. Ali pelo final de 1993, início de 1994, aos 21 anos de idade, quando se pode tudo e eu ainda acreditava que o jornalismo mudaria o mundo, que deveria ser porta-voz da verdade e outras bobagens, eu parecia despontar como um deles. Fui então “convocado” para uma entrevista com Agripino. À época, ele estava deixando o governo do estado para concorrer a uma vaga no Senado.

A entrevista era para a Revista RN Econômico. Eu estava assumindo a editoria, estava curtindo ficar na redação e não via qualquer motivo para participar de um encontro desses, mesmo porque o jornalista que iria fazer a entrevista era muito experiente e competente na área de política. Mas obedeci e, mesmo a contragosto, acabei indo.

Iniciada a conversa, na casa dele, comecei a achar que tudo estava muito morno. Papo de comadre, perfil de coluna social. E já que estava por ali, eu deveria me intrometer. Fiz uma pergunta – nem lembro do que se tratava – que foi mal recebida. Ele olhou rapidamente para mim, ignorou a questão e continuou o papo. Pouco depois, voltei à carga. Ele deu uma resposta ríspida e perguntou: “Você não é daqui, é? Pelo sotaque é carioca”. A partir dali, fui tratado como “o carioca” e só muito tempo depois fui atinar para o motivo da pergunta e para o escárnio que o tratamento guardava. Eu não era dali e “não estava sabendo me comportar”.

Sugeri uma capa no qual Agripino dava adeus ao Rio Grande do Norte. Era pra ser um “já vai tarde” (tenho meus momentos Veja), mas não explicitei tal vontade (mesmo porque jamais seria atendida). Ficou um negócio tosco. Infelizmente – ou felizmente! – meus arquivos da época jazem em um guarda-roupa na casa dos meus pais, em Natal, e não tenho como reproduzi-la no momento.

Encontrei-o outras vezes, em coberturas diversas, mas como nunca fiz o gênero “oi, coronel, vosmicê lembra de mim?”, nem tinha papo ou, quando tinha, era rápido, frio e totalmente impessoal.

Em 2002, reencontrei-o de forma inusitada. Eu trabalhava na Subsecretaria de Projetos Especiais da Secretaria de Comunicação do Senado Federal. Uma foto de Agripino veio parar em minhas mãos. Ela seria utilizada em um quadro na galeria de presidentes de uma comissão da qual ele era titular (Assuntos Econômicos, se ainda lembro). Minha missão: Pitanguear a foto, isto é, “aliviar as marcas de expressão; deixar o senador mais bonito”. A costumeira busca por estreitamento de relações com os poderosos e a cata por migalhas que é praxe nos palácios, fizeram com que me mandassem lhe mostrar o resultado pessoalmente. “Vai lá. Faz uma média”. Mais uma vez contra minha vontade, fui à toca da raposa.

Antes de ser confundido com algum maluco a pedir favores que a segurança havido deixado passar, me apresentei, mostrei a foto à secretária e aguardei um pouco. Convidado a adentrar o gabinete, mostrei o resultado da plástica e ouvi um “agora está melhor” acompanhado de um sorriso. Tive a sensação de estar caminhando na contramão do que sempre acreditei e de que, em momento algum, deveria ter “ajudado a melhorar sua imagem”.

Saí do gabinete pensando em uma melhor aplicação para a frase com a qual ele encerrou o encontro: “Pode mandar enquadrar”. Léo e a Caros Amigos arranjaram uma muito boa.

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Uma resposta a Agripino? Pode mandar enquadrar.

  1. Uuuhn… isto é a continuação do texto das chacretes?
    No Alecrim, zona comercial histórica potiguar, há muitas.
    Só não lembro quem fui que fez a foto do adeus…

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