A tradicional poesia sertaneja

Aproveitando que este blog está cada vez mais parecido com uma revista de variedades (das boas!), aproveitando minha ignorância sobre determinados temas, aproveitando o gancho de que Clotilde Tavares lança hoje, em Campina Grande (PB), seu folheto de louvação ao Cariri e, finalmente, aproveitando-me de seu conhecimento sobre o tema Cordel, lacei a bruta no MSN e arranquei dela – em luta selvagem! – uma conversa sobre os tais folhetinhos.

Antes, faz-se necessário dizer que adoro esses livrinhos de poesia popular e que foi assim como sempre os vi. Gosto dos papelinhos porque sou viciado nisso, mas gosto também do “som dos cordéis”. Mesmo que você tenha ainda menos conhecimento sobre o tema do que eu (que sei quase nada), deve saber que a tradição oral da poesia sertaneja é anterior à forma impressa popularmente chamada de Literatura de Cordel.

Iniciamos um papo contraído (sim, contraído, porque a danada estava arredia que só a gota) que foi se tornando mais natural do meio para o final, quando em vez de teclar, resolvemos falar e, encantada com minha bela voz, Clotilde ficou mais à vontade (isso vai gerar um comentário mal-criado por parte dela). Pois bem, segue trecho da conversa, ilustrado por alguns folhetos de minha coleção.

Sandro – Onde nasceu o cordel?
Clotilde – Bem, o cordel nasceu nas fábricas, onde se unem fios de algodão, lã ou barbante; faz-se o cordel, que depois é enrolado em tubos e comercializado…

Tá! E os folhetos? Na gráfica, eu sei… E os versos?
Eu tenho uma implicância com esse termo “O cordel”. O que existe é o romanceiro popular nordestino, que são histórias em versos, originalmente decoradas e recitadas, e depois (final do século 19) impressas em papel rústico, com prelos rudimentares, constituindo os “folhetos”, que eram vendidos nas feiras. Esses folhetos (e o povo ainda chama “folheto” ou “verso de feira”) podiam ser expostos em tabuleiros ou “a cavaleiro”, em cordéis esticados entre duas estacas de uma banca. Aí, os intelectuais que começaram a estudar esse fenômeno quando já constituía uma “literatura”, começaram a chamar isso de “literatura de cordel”, um termo inapropriado, pois a rigor não define a essência do que é essa produção literária. E agora todo mundo chama “cordel”. Escreveu uma linha debaixo da outra, não importa de que jeito for, chama-se “cordel”! Ô termo famigerado!

Qual seria o termo mais apropriado?
Não sei. O povo chama folheto. Eu gosto de folheto.

Como você começou a se interessar pelos folhetos?
Eu não comecei a me interessar. Fui criada junto com isso, com essas histórias, ditas decoradas ou lida nos folhetos que mamãe trazia da feira. Fazem parte da minha cultura. Faz parte do romanceiro popular nordestino. Eu nunca vi folheto de cordel pendurado em cordão. Quando eu era menina, era numa maleta. O camarada tinha uma maleta, abria e os aprumava na tampa. E ficava lendo. Nunca vi folheto pendurado em cordão. Vim ver isso em exposições. Não estou dizendo que não tenha. Eu nunca vi.

Agora responda, como uma boa moça, minha primeira pergunta. Como nasceu o cordel, ou melhor, como nasceram os folhetos?
No final do século 19, quando a imprensa começou a se modernizar, alguém teve a idéia de comprar aqueles prelos antigos, de composição manual, letra por letra, que ficaram ociosos. Foram adquiridos por poetas, por pessoas que tinham essas histórias na cabeça e que resolveram imprimi-las. O papel fundamental nesse processo foi o de Leandro Gomes de Barros. Pode-se dizer que Leandro criou a Literatura de Cordel. Leandro, que é nascido em Pombal, na Paraíba, teve a idéia de pegar aquelas histórias e começar a imprimir. Ele criou a Literatura de Cordel no sentido de haver criado todo o processo, desde a criação e composição dos versos, a edição, a impressão, à escolha dos tipos, das capas, depois botava esse pacotes no lombo de um jumento, danava-se pelo interior e fazia comercialização. Além de ter escrito mais de 600 folhetos diferentes. Ele escrevia romances, folhetos de propagandas, de acontecidos, sobre a vida dos cangaceiros, escrevia de tudo.

Parece que o pessoal bom mesmo de cordel é da Paraíba. Quais outros nomes podemos citar? João Martins de Athayde…
João Martins de Athayde é um dos clássicos dos folhetos. Quando Leandro morreu, a viúva vendeu a ele o prelo e também os folhetos. Ele começou a botar o nome dele nos folhetos porque naquele tempo essa questão de autoria era algo muito diluído. Então tem folheto que na capa tem o nome de João Martins de Athayde e na última estrofe tem o acróstico de Leandro (formando o nome com as iniciais de cada verso). Mas ele também escrevia.

José Bernardo da Silva…
José Bernardo da Silva é outro também dos antigos e também famosos.

E esse lance de autoria dos folhetos?
A cultura popular se caracteriza por não ter um conceito muito rígido de autoria, mas na literatura de cordel tem. Eles brigam muito. Quem é o autor, quem copiou de quem… Até hoje rola uma briga sobre quem é o autor do Pavão misterioso. Os estudiosos dizem que o autor é José Camelo de Melo Rezende e não João Melquíades Ferreira. O que aconteceu é que o folheto é de José Camelo, que cantava junto com Melquíades. José Camelo meteu-se numa confusão – eu não sei os detalhes – e teve que fugir. Nisso Melquíades manda imprimir o folheto com os versos. Quando Camelo voltou, disse que ia matar Melquíades e foi uma confusão danada.

E você? Desde quando escreve folhetos?
Segundo os registros de uma pesquisadora que esteve comigo ano passado, eu sou a mulher que tem folhetos mais antigos assinados. Antes de mim, só uma mulher teria escrito e publicado, mas ela assinava com nome de homem (Maria das Neves Batista Pimentel, que assinava com o nome do marido, Altino Alagoano). O primeiro foi em 1974, chamado A tragédia humana, no qual eu contava com era a vida de uma atendente de pronto-socorro, que era eu mesmo. Esse folheto eu mandei pra papai, que mandou para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

E sobre esse que está lançando hoje? O que pode dizer dele?
Esse folheto foi escrito porque minha família tem origens no Cariri e eu sempre ia àquela região, me emocionando profundamente com aquele universo cultural, com a natureza, que também é linda, áspera e pedregosa. Eu devo ter natureza de bode porque adoro aquilo, aqueles serrotes, aquelas pedras, aquele céu azul de tinir! Aí, começando a freqüentar as reuniões do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri, apresentei um trabalho e no final do trabalho tive a idéia de incluir uns versos sobre o Cariri. O povo gostou e eu resolvi escrever o folheto, onde faço uma louvação à região, natureza, história, cultura, etc e ainda cito, rimando, dentro das estrofes, todos os 40 municípios do Cariri histórico. Por isso é que é “de A a Z”, ou seja, de Alcantil a Zabelê.

Vamos a um trecho…

Cariri de A a Z
As belezas do Cariri Paraibano

Neste momento eu imploro
A divina inspiração
Peço força pro meu verso
Peço rima pra canção
Muito alento pra garganta
Muita seiva nessa planta
Nascente no coração.

Quero louvar nestes versos
O Cariri afamado
Terra, gente, natureza
E a tradição do passado
Nas vertentes da memória
Muitas páginas da história
Trazem seu nome gravado.

Desde o século dezenove
Que meu povo vive aqui
Como velhas baraúnas
Plantadas no Cariri
Homens de têmpera forte
Mulheres de altivo porte
Foi desse clã que eu nasci.

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15 respostas a A tradicional poesia sertaneja

  1. Pingback: Blog Memória Viva » Blog Archive » As belezas do Cariri Paraibano

  2. márcia disse:

    adorei, mas… muito, muito curto, quero mais!!!

  3. Sandro Fortunato disse:

    Vixi, D. Márcia! Que é que a senhora, que pode dar aula disso, quer mais? Colabore com esse pobre! Conte umas histórias. 😉

  4. Sandro Fortunato disse:

    ADENDO

    A pedido de Clotilde, entrei em contato com Fankka Santos, doutoranda que a entrevistou no ano passado, para saber se a informação de que ela (Clotilde) era mesmo a primeira mulher a assinar folhetos de cordel ainda era válida. Fankka acaba de responder. Reproduzo sua mensagem:

    “Sim, quando eu falei com Clotilde no ano passado ela era a primeira. Agora eu já encontrei outra de 1968. Encontrei aqui nos arquivos da Universidade de Poitiers, França, porque aí não se tem infelizmente esses registros. Mas você pode dizer, sim, que Clotilde é uma das precursoras poetisas de cordel ao lado de outras que certamente existiram mas que, contudo, a historiografia ainda desconhece”.

    Fankka é professora do curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará e faz doutorado sobre a presença das mulheres no cordel pela Universidade Federal da Paraíba.

    ADENDO 2

    Para quem possa ter se assombrado com o fato de ela encontrar na França mais informações sobre cultura popular brasileira do que aqui mesmo, saiba que isso é muito comum. Detesto dizer, mas para estudar cultura brasileira, sair do Brasil ainda é uma das melhores opções.

    ADENDO 3

    Esperando Fankka informar o nome da poetisa de 68… 😉

  5. Fanka disse:

    Sandro, sou suspeita para deixar recado pois além de pesquisar esse universo (cordel e autoria feminina) sou fã da poetisa entrevistada por sua coluna, por isso, deixo apenas meu abraço e o desejo que esse espaço seja aberto para outras e tantas mais escritoras que a historia silenciou…e parabens pelo novo trabalho de Clotilde, vou querer depois…
    Só corrigindo, sou doutoranda pela UFPB, João Pessoa. Estou aqui para coletar informações em um grande centro de cordel o Fonds Raymund Cantel, onde existem mais de 8 mil folhetos e entre eles, o que lhe disse, de fins da década de 1960 e outras duas publicações do início de 1970. Nesse momento não tenho em mãos o nome das autoras, mais em breve atualizo essa informação. Abraços e até breve!

  6. wilson disse:

    Então, temos aí uma Clotilde Cordeleira. Bom ver que, o que começou como tradição oral mantém-se vivo. E manter-se vivo neste país tá meio difícil: Tradição, Flolklore, tantas coisas estão morrendo, se perdendo…

    Falam em Cordel e eu lembro a Praça da Sé, aqui em São Paulo. Nos anos 60 e 70, tínhamos por lá os Trios Nordestinos, os Cantadores de Embolada e os Cirandeiros que cantavam à capela uma infinidade de músicas do norte/nordeste.

    Entre eles estavam os Cordeleiros que recitavam as histórias e vendiam a Literatua de Cordel. Muitos, como afirma Clotilde, traziam os livretos em uma mala que era aberta e, presos na tampa dessa mala, com cordinhas (cordel) estava o mostruário. Na mala mesmo, ficava o estoque a ser vendido. Em mãos do vendedor estavam os mais recentes Cordéis chegados do Nordeste.

    Vara/varal,barbante,corda/cordel, pelo menos aqui em São Paulo era comum até o início dos anos 50. Desapareceram com o advento das Bancas de Jornal. Servia como aproveitamento de espaço e seguraça. Não só dos folhetos ou livretos da Literatura de Cordel, mas de outras revistas. Abria-se a obra pelo meio e colocava-se no cordão. Fixadas pelo prório peso ou por um simples pregador de roupas.

    As barraquinhas de quinquilharias dos Nordestinos, que também vendiam Cordéis usavam esse tipo de varal para exibí-los.

    Acho que a corda ou cordel, pelo menos aqui, virou tradição. Nos anos 90 houve um “revival” das histórias de cordel. E eles eram exibidos pendurados em barbantes nas bancas de jornal e nas livrarias.

    Aqui, o Cordel não perdeu a sua força, nem o seu fascínio. Econtramos muitos vendedores lá pelos lados do Jardim e Estação da Luz, misturados aos vendedores de CDs piratas, óculos, etc.

    Uma constatação interessante: Desde os anos 60, até hoje, Há uma preferência e paixão muito grande pelos folhetos impressos naquela forma simples e rudimentar. Os rebuscados e, mesmo os antigos, revestidos por “uma roupa nova” são deixados de lado.

    E não falo de intelectuais ou colecionadores que buscam antigüidades. Falo do próprio Nordestino radicado em São Paulo.

    Não sei se aí, na Parahyba (como eu gosto de grafar)e em geral, no Nordeste esse material é usado nas escolas. Ser for, ótimo! Senão, devia!

    Clotilde,parabéns!!!

    Abração

  7. Parabens pela excelente matéria sobre esta poeta porreta & linda mulhher que é Clotilde Tavares. Nada mais esclarecedor!!!
    Estarei indicando nas minhas páginas.
    Abração fraterno & tataritaritatá!
    http://www.luizalbertomachado.com.br

  8. Benedito Luciano disse:

    Prezado Sandro, bom dia!

    Sobre o termo “folheto de cordel”, certa vez, conversando com o professor Átila Almeida, ele me disse que não concordava com essa denominação, tendo em vista que os tais folhetos não eram exibibos nas feiras pendurados em cordel. Em alguns casos, o tais folhetos eram pendurados num arame esticado. Portanto, nesses casos, a denominação mais apropriada seria “folheto de aramel”.
    De “cordel” ou de “aramel”, pouco importa. Pois, o mais importante é o conteúdo.
    Saudações poéticas,
    Bené

  9. Cecilia Correia disse:

    Oi Oi Sandro!!!
    Adorei a Materia de Cazuza, mas gostei mesmo pq vc mencionou o ginasio Juvenal Lamartine!! Eh q esse ano estou me formando em arquitetura e como tema da minha monografia escolhi fazer uma casa de espetaculos!!! E tenho a intensao de mostrar como Natal necessita de lugares para shows como os q vc mencionou!!! se possivel queria q vc me descrevesse mais como era os shows no juvenal e no palacio dos esportes!! seria um enorme prazer pra mim!! ter suas emocoes na minha monografia!! risos
    desde obrigada …

  10. Sandro Fortunato disse:

    Clotilde lançando o folheto:
    http://br.youtube.com/watch?v=2Ly7z3JMwXg

  11. vitória lima disse:

    Adorei a entrevista com Clotilde Tavares.
    Aos interessados: sim, na França tem muitos pesquisadores dubruçados sobre literatura popular brasileira. Alguns desses nomes são Idelette Muzart Fonseca e Ria Lemaire. Idelette já foi professora da UFPB, tem tese sobre Ariano Suassuna, verteu Ariano para o francês e hoje está de volta à França. Ainda mais: a UEPB tem uma significativa coleção de folhetos de cordel (não sei se já está disponível ao público pesquisador). Como é em Campina Grande, deve ser a maior do mundo!
    Vitória Lima (professora da UEPB)

  12. Cristina disse:

    Hola:
    Pido ayuda, necesito dos poemas sertanejos opuestos. Uno, en el que no aparezcan conflictos sociales, es decir, armonías en el campo y comunión con la natureza. Otro, en el que aparezcan críticas a orden económico y social. Con autor y años de publicación. Material que necesito para un trabajo con docentes. Gracias.

  13. Depois de algumas semanas, revisito esta matéria e fico feliz com os comentários de pessoas tão legais, tão queridas, que me elogiaram e dedicaram seu tempo a ler esta entrevista. A quem interessar possa, estarei “nesses dias” colocando no ar o folheto sobre o Cariri e imprimindo a segunda edição de um folheto que lancei em 2005 e está esgotado: “A Vida e a Obra do Padre Malagrida, o Santo Andarilho do Nordeste”.

  14. Sinéia Silveira disse:

    Pesquiso o universo cordelistico de Cuíca de Santo Amaro. Ao ler sobre Clotilde, fiquei interessada em ler alguns dos seus cordéis. Como ter acesso a esse material?
    Grata,
    Sinéia

  15. jerfeson william disse:

    gostei muito!!!!!

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