O silêncio dos inocentes

A morte da garota Isabella e um post no Para ler sem olhar sobre o triste destino de Bobby me fizeram lembrar dos ritos fúnebres que, em minha infância, costumava fazer para os pardais.

Nunca fui testemunha do assassinato de um. Sempre os encontrava no chão, mortinhos da silva, a pedir que alguém lhes providenciasse um enterro cristão. E lá ia eu, acumulando as funções de agente funerário, parente da ave, padre, coveiro e carpideira.

A primeira providência era arrumar o caixão, melhor, a caixinha que receberia o corpo do bichinho. Isso feito, escolhia o local, invariavelmente um jardim, próximo a uma árvore para que sempre houvesse sombra e a vida do outro lado lhe fosse mais amena, uma eterna primavera. Revestia-me da máscara de gravidade própria dos sacerdotes nessas horas e iniciava o ritual.

À beira do sepulcro, dava à criatura uma benção já que lhe haviam sido negadas a oportunidade de arrependimento e a extrema-unção. Encomendava a alma ao céu dos passarinhos – diferente desse que eles têm em vida –, rezava um Pai Nosso, fazia o sinal da cruz e passava ao papel de coveiro, cobrindo o pequeno ataúde com terra, depositando flores, marcando o local com pedrinhas e uma cruz feita com galhinhos de árvore.

Três décadas após essas cerimônias, penso sobre seus motivos. Sempre me compadeci pelo sofrimento dos mais fracos e dos inocentes. Aqueles pássaros deviam representá-los bem. Os desvalidos, sem casa, voando de um lugar a outro, livres em aparência, frágeis, prontos a morrer por qualquer coisa: frio, um vento mais forte, uma pedra traiçoeira voando de um estilingue.

Viviam ao deus-dará. Morriam ao léu.

Nunca enterrei um pombo.

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5 respostas a O silêncio dos inocentes

  1. Carol Campos disse:

    É muito difícil entender a mente humana, muito difícil aceitar o sofrimento dos mais fracos, são situações com as quais nos deparamos ao longo da vida que nos fazem questionar a tudo e a todos, e principalmente, a agradecer por sermos essas pessoas que ainda nos compadecemos!
    Triste seria se achássemos tudo isso natural, aí seríamos equiparados aos que, Deus sabe pq, cometem tamanhas atrocidades.

  2. Diego disse:

    Caramba, Sandro!! Comparar Bobby com Isabella me faz parecer um monstro sem coração…

    Sabe que, quando criança, eu costumava enterrar esquilos? A infância tem das suas!

  3. Sandro Fortunato disse:

    Imagina, DIEGO! Comparei não. Só liguei uma coisa a outra: criança, Bobby, pardais, todos inocentes. E no caso do Bobby, nós sabemos de quem é a culpa! Mas o mesmo sol que o matou há de iluminar as mentes dos que procuram pelo(s) culpado(s) no outro caso e para esse(s) nascerá quadrado por muitos e muitos anos.

  4. wilson disse:

    A foto sensibiliza. E usando essa sensibilidade vem à mente “Sonhos de Menina” da Cecília Meireles. Sonhos que Isabella teve e não mais terá…

    Abração!

  5. vitória lima disse:

    Conheci-o hoje no lançamento do folheto de Clotilde, no Cata Livros.
    A respeito de aves & funerais, pergunto-lhe se viu o filme “As horas” onde há um funeral para um pássaro do qual Virginia Woolf participa.
    VL

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