Isabella

Gostaria de começar a semana com um tema mais ameno, mas isso parece quase impossível. Então vamos à pauta que, por hora, abrandou a temperatura do óleo em que estão fritando Dilma Roussef.

Há poucos dias, cansados e desesperados pela terrível fase de birra que Pietro vem apresentando, resolvemos desaposentar a empoeirada tevê que jazia há meses empoeirada em um canto da casa. Ligar a tevê, para mim, é realmente um ato de desespero. Principalmente quando as opções são apenas os canais abertos. Isso feito, acontece a morte da garota Isabella. E o que serviria de babá a Pietro, passa a ser governanta de seu pai.

Peguei-me esperando o jornal seguinte. E o próximo e ainda o outro. Além do sentimento comum de desejo por justiça, minha atenção se voltou, desde o primeiro instante, para o roteiro da novela, isto é, para o tratamento dado à notícia.

Estamos acostumados a esse tipo de caso. Sob holofotes, as autoridades se sentem no Big Brother. De agentes do submundo passam a celebridades e, como em qualquer reality show, querem mostrar aos espectadores uma imagem de distinção, competência, bom caráter, de donos da situação e de todos os poderes. A cada início de telejornal fico na expectativa do surgimento de Pedro Bial a dizer “Vamos ver como andam os nossos heróis” para, em seguida, chamar delegado, promotor, policiais e suspeitos.

Segredo de Justiça é algo tão bem guardado que há quem acredite que isso não existe. É pura ficção. O que está em segredo diante de tudo que tem sido exposto? O caso Isabella rende teses – que não cabem aqui – sobre o discurso da comunicação de massa. A tevê, parece-me, está ligeiramente mais cuidadosa. Assim como “os heróis” que se apresentam diante das câmeras. “Não estou acusando…”,  “Não estou dizendo…”, “É bom ter cuidado…”. É bom ter muito cuidado.

As principais revistas semanais foram mais enfáticas. Parecem aliviadas com a quebra do longo jejum de sangue inocente. Desde fevereiro do ano passado, quando o garoto João Hélio foi arrastado por quilômetros por um carro roubado, não víamos nada parecido. Pelo menos não tão perto e tão espetacular, no sentido mais bizarro e business, do termo. Há o caso da inglesinha Madeleine, desaparecida há quase um ano em Portugal, mas não só parece distante como não foi apresentado um corpo ao circo de horrores que se cria nesses casos. Madeleine é só especulação. Pode ter tido um fim (se é que) muito parecido com o de Isabella, mas esta é uma história de mistérios onde conhecemos o fim mas desconhecemos o que levou a ele. É como nos filmes em que a primeira cena é a da morte do personagem principal e que nos obriga a ficar sentados e hipnotizados à espera de que se mostre o porquê.

A história toda é muito confusa. Segue um roteiro no qual aumentam as dúvidas à medida que aumentam as informações. É porque, como nos filmes, só faltam as informações realmente necessárias: Quem? Como? Por que?

Crimes envolvendo família – sejam por dinheiro, ciúmes ou qualquer outro motivo injustificável – costumam ser desvendados logo. As confissões aparecem rápido. Deixo aos psicólogos, psiquiatras e religiosos as explicações pelo desejo de expiação por parte de quem os comete. Da Fera da Penha ao casal Richtofen, passando por Daniela Perez, os “quens”, “comos” e porquês sempre aparecem.

Além de “Por que?”, há outras perguntas que sempre me vêm nesses casos.

1) Como é que alguém faz algo assim e dorme?
2) Como é que alguém pode defender quem fez isso? (Todos têm direito à defesa. Isso é incontestável. O que me assombra é como um advogado pode mentir para tentar livrar a cara do criminoso como se ele não tivesse cometido o crime. E, neste caso específico, nem estou dizendo que isso exista até o momento. Eu só consigo conceber a seguinte atitude: “Você fez? OK. Vamos tentar entender o que aconteceu, evitar o linchamento e buscar uma pena justa segundo o que dizem nossos códigos”.)
3) Que tipo de desequilíbrio pode levar a cometer um ato como esse?
4) Quando as autoridades aprenderão que alimentar um circo em torno de casos assim atrapalha muito mais do que ajuda?
5) Quando a imprensa aprenderá que não tem poderes de polícia nem muito menos de juiz e que suas condenações, invariavelmente precipitadas, são mais severas e, no caso de um julgamento errado, não há como reverter o estrago causado?
6) Quando teremos uma reforma penal decente que responderá à altura a crueldade de nossos tempos?

Se alguém puder respondê-las, agradeço.

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12 respostas a Isabella

  1. Henderson disse:

    O ser humano adora ver o sangue derramado. Sempre foi assim e provavelmente sempre será. Nos tempos antigos, as pessoas assistiam entusiasmadas as cenas de suplício em praça pública. Evoluímos?? Acredito que em lugar da praça, agora temos a TV, que sacia nossos desejos por lama e sangue.

  2. Tato disse:

    Rapaz, eu tava me segurando há uns dias, relutando para não escrever algo sobre isso, mas não agüentei.

    Tenho algumas teorias pessoais para tentar responder tuas perguntas:

    1) Há gente ruim no mundo, por mais que lutemos em acreditar na pureza intrínseca a todo ser humano.
    2) O “adevogado”, na verdade, tá cagando e andando para o fato de defender ou não defender. “Adevogado” não tem vontade própria. Tem apenas conta bancária e reputação entre os seus parecidos. E, por mais que seja revoltante, a verdade é que quando um “adevogado” pega um caso desses, e vai prá mídia, o nome dele sobe entre os seus.
    3) Uma alma sebosa. Muito sebosa.
    4) Autoridades? Aprendizado? Mídia? Brasil? Desculpe… não faz sentido uma frase com todas estas palavras juntas.
    5) Idem.
    6) Ibidem.

    É foda, meu querido.

  3. Ana disse:

    Sandro, se alguém responder suas perguntas, me avise. Eu voto nele. Beijos!

  4. joão disse:

    Sandro.
    Esta história é muito estranha mesmo.E há coincidencias ainda mais esquisitas. Como é que um sujeito larga de uma Ana Carolina para ficar com outra ? Não é um nome tão comum assim…
    Mas o que mais me encabula é a mãe da criança , que age com um sensatez muito grande. Eu no lugar dela estaria culpando alguém, pois é da natureza humana sempre culpar alguém pra aliviar a dor. Ela no entanto é de uma serenidade que chega a ser zen. O que quero dizer é que é um caso muito delicado, e não dá pra dizer nada sem saber tudo. Na minha cabeça já passaram vários culpados, mas é claro que não vou linchar ninguém. Já errei meus palpites milhões de vezes. Mas há certezas em mim sobre este caso, mas confesso que apesar desta certeza há coisas que não batem
    A midia faz o circo dela.
    E segue o baile…

    joão antonio

  5. Renata Silveira disse:

    Nós po cá, desta lado do Atlântico e no hemisfério em que todos se consideram desenvolvidos, há um ano levamos com a novela da Madeleine todos os dias. “Uma histótia sem fim”, com pitadas de disputas nacionalistas entre ingleses e portugueses.

    A realidade é mais enfadonha do que os filmes, pois aquela “paz” encontrada nos finais felizes dos clichês de ‘roliúdi’ não vem nunca.

    Mas isto do crime hediondo não é o pior. Pior é saber que há, só em Portugal (um país dito de “primeiro mundo”), 10 mil crianças institucionalizadas. Retiradas dos seus pais-carrascos pela Segurança Social. Empilhadas em lares á espera de um milagre. E há muitas tragédias pré-anunciadas…

    Há duas semanas num dos meus trabalhos mais recentes de fotografia, conheci um pequeno rapaz de doze anos que foi “salvo” de uma tentativa de suicídio por um vizinho. está agora numa instituição.

    Doze anos! O pescoço marcado pels hematomas do cinto… Olho para aquela criança e morro por dentro.

    A que maus tratos e inferno pessoal está condenado uma criança que aos doze anos já não tem vontade de viver?

    Em Portugal a maioria dos crimes bárbaros são passionais e envolvem disputas por herança, violência contra mulher e crianças, disputa entre vizinhos por causa de uma cerca… São crimes do âmbito privado, mas que afetam publica e moralmente a todos. Todos os humanos.

    E mais: Com uma nova lei recentemente aprovada, para se entrar com um processo de adoção em Portugal, o casal pagar 500€ ao estado para abertura do processo! Desta maneira as crianças institucionalizadas vão
    futuramente passar a ser os idosos abandonados em instituições… Belo futuro num país que tem três velhos para cada jovem.

    E outra: A pequena Esmeralda (CASO ESMERALDA, para quem quiser pesquisar no google), filha de uma brasileira abandonada grávida e dada a adoção a um casal aos 3 meses de idade, agora com 6 anos, está condenada pelos tribunais a ser entregue a um “pai biológico” aparecido de última hora, contra a vontade da mãe bilógica, que pensa que o melhor para a filha é estar com os pais adotivos.

    O pai adotivo, um militar do exército, ficou três meses na prisão por recusar-se a desistir da sua filha… Foi acusado de sequestro e está obrigado a indenizar o pai biológico em 60 mil euros…

    Mais uma novela que não terá final feliz…

    RS

  6. Renata Silveira disse:

    PS: E ainda está na nossa memória o caso JOANA. Menina algarvia que foi morta pela mãe e tio (por ter pego os dois, irmãos, em ato sexual), esquartejada e dada de comer aos porcos.
    A Polícia Judiciária descobriu indícios, ela confessou e está presa. Cumpre 16 anos de prisão. Mas o cadáver da Joana nunca foi encontrado. Há quem duvide da investigação da PJ e considere, para todos os efeitos, que a Joana é mais uma criança desaparecida, como a Madeleine…

  7. Renata Silveira disse:

    PS2: Sobre a “serenidade da mãe da Isabela”, devo dizer que, na altura em que a Joana desapareceu, a mãe dela foi capa da revista Visão (tipo Veja em Portugal) a “rezar” para que devolvessem a filha dela… Com as investigações ficou provado quer ela não só matou a criança como deu-a de comer aos porcos!
    A frieza com que a mãe de madeleine sempre apareceu transcende a dos ingleses em geral… Mas num país sem CSIs e com as fortes pressões políticas exercidas pelos diplomatas ingleses, a investigação esteve desde cedo “viciada”.

    É muito mais fácil livrarem-se de um cadaver de criança do que imaginamos… Jogá-lo de cima de um prédio não é a mais inteligente!

  8. Jandiro disse:

    Sempre me questionei se o amor incondicional que acreditamos que os pais devem devotar aos filhos é algo biológico e natural ou apenas mais um dos conceitos construídos para um modelo de homem ideal e família feliz. Conceitos que mudam de tempos em tempos.
    Já vi gente dizer que não gostava de criança sendo comparada a um monstro, o pior dos monstros. Será? Acho um porre quando os pais de vários filhos declaram que gostam de todos do mesmo jeito, na mesma intensidade. Será?
    Acredito em uma boa parte de desequilíbrio mental em casos que chegam ao extremos: assassinato, estupro, espancamento… Certo é que isso é crime e deve ser evitado e punido exemplarmente.
    O que questiono, no entanto, é essa balbúrdia criada em torno da figura de pai/mãe e o amor que devem dedicar aos filhos.Será que é possível dessa forma idealizada?

  9. Sandro Fortunato disse:

    Isso mexe mesmo com todo mundo, não?

    RENATA, só agora, que acabei de postar o texto O silêncio dos inocentes, lembrei do final da sequência (Hannibal) do filme de mesmo nome e dessa versão da vida real contada por você. O triste é que a vida real sempre supera o terror ficcional. Ela é sempre pior do que podemos imaginar.

    JANDIRO, esse papo dá outro texto. Aliás, dá muitas teses. Eu tenho três filhos em idades bem diferentes. Dizer que “gosto de todos igualmente” é perfeitamente possível no que diz respeito à intensidade, ao sacrifício de vida que faria por qualquer um. Mas é claro que há identificações maiores ou menores, por este ou aquele motivo, assim como há também motivações históricas que podem fazer com que um ou outro “pareça”, em algum instante, mais amado, mais querido. As simpatias entre personalidades e o desenvolvimento do relacionamento são fatores importantíssimos para que surjam essas “diferenças”. Eu costumo fazer das diferenças algo extremamente positivo. No meu caso, eu tenho uma filha mais velha, que sempre será a primeira; uma mais nova, que sempre será a caçula, a princesinha; e um mais novo que as duas que é o único homem. É claro que há motivações maiores e mais profundas, mas só essas já bastariam para fazer de cada um deles uma criatura única e especial para mim. Mas isso é a minha história como pai. Eu conheço gente que abandonou filho, gente que espancou, que abusou sexualmente, que tem tantos filhos que nem sabe dizer o nome de todos… Definitivamente, cada história envolve tantos pequenos detalhes que é impossível “rotular amores”. E eu acredito, melhor, eu sei que em um relacionamento entre pais e filhos há tudo isso – sentimentos biológicos, naturais, idealizados, DESENVOLVIDOS e VIVIDOS – e muito mais. E é a soma de tudo isso que faz nossas vidas serem tão ricas.

  10. Carol Campos disse:

    Sandro, gostaria muito de saber tais respostas, e como advogada (quase virando hippie), gostaria de saber mais ainda a resposta da 2ª pergunta!
    Por não saber essa resposta, que vivo tão desiludida e sem esperanças com essa profissão!
    Mas enfim, no final disso tudo, ainda confio na justiça divida, essa, pra mim, não falha!

  11. wilson disse:

    Os psicopatas, os onipotentes estão por aí. Um dia acontece a “gota d’água” que transborda o copo. Eles são revelados. Quem são? Comerciários, Industriais, “peões”, sacerdotes, médicos, etc. Um alguém comum que, como um vulcão adormecido, explode e tráz à tona o seu desvio. O que os levam a cometer tais atos nem eles mesmo o sabem. Sentem apenas, que estão acima do bem e do mal. E dormem muito bem, como um bebê. São Doentes.
    Há os que sofrem da pestilência do Ódio e do desejo de vingança. Não são doentes. São predadores. Qualquer meio justifica a sua satisfação final. Desses eu tenho medo! Tenho medo porque são os mais comuns… e numerosos.

    Todos são inocentes até que se prove a culpa. Para isso estão os advogados. E são as provas concretas que definem a culpabilidade. O advogado trabalha na forma da Lei e se o defendido ou réu, for culpado, ele vai tratar, na forma da Lei, de obter penas menores. Pelo Estado de Direito, todos são defensáveis.

    Não há como saber o que leva alguém a cometer um desatino desses. Mas, o que movimenta esse alguém certamente é o Òdio.

    Meu nonno dizia que o tilintar das moedas fazia até os mudos cantarem. E há muitos nas dependencias policiais dipostos a “vazar” informações por qualquer “agrado”. E o “diz-que-me-disse” vira bola de neve e explode na mídia.

    E a imprensa usa e abusa das verdades verdadeiras, falsas, inventadas e criadas… Se podemos complicar para que simplificar. Em certos momentos Penso na imprensa com um balde de água na mão ajudando apagar um incêndio. E os que estão próximo dela sentem um forte cheiro de gasolina… Tire suas conclusões.

    Quanto a Reforma do Código Penal Brasileiro, lá pelo século XXII, farão algumas mudanças…
    Comparo o Brasil à caverna encontrada por Alí Babà. Sei que existem diferenças. Na Caverna haviam somente 40 ladrões…

    Abração.

  12. Christiane Angelotti disse:

    E ainda tem gente que acha que existe inferno…. ora, vivemos nele.

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