Cazuza – 50 anos

A primeira vez em que vi Cazuza foi na praia. Nem lembro qual. Ipanema ou Leblon. Eu era um moleque, estava com um grupo mais velho e quando nos aproximamos alguém o chamou. Estava deitado sobre uma toalha de banho. Sentou, virou o rosto. Alguém me cutucou: “É o Cazuza”. Eu só sabia que ele cantava numa banda que já tinha visto no programa do Chacrinha. Ainda nem havia começado a comprar meus primeiros discos.

Em 1986, já morando em Natal, fui ao meu primeiro show. Cazuza. No Palácio dos Esportes, um ginásio que fica na Praça Cívica, no bairro de Petrópolis. O local abrigou shows de todas as bandas e cantores oitentistas: Paralamas, Ultraje, Titãs, Lobão, Kid Abelha, Lulu… Era o Circo Voador em Natal. O show fazia parte da turnê de Exagerado, primeiro álbum solo de Cazuza. Eu nem tinha idade para ir, mas como era maior e mais encorpado que a média dos adolescentes que já tinham 16, 17 anos, entrei na boa.

Foi um ritual de iniciação. Sair à noite, ir a um show de rock, flertar, ficar agarrado, dar beijinho, pular, cantar… E Cazuza apadrinhando esse batismo.

No ano seguinte viria Só se for A 2, que ouvi até quase deixar o vinil fino como papel. Em, 1988, fazendo a trilha sonora para o moleque que entrava no curso de Jornalismo, Ideologia. Depois tudo aconteceu muito rápido. Mais dois álbuns, ambos com Cazuza já muito debilitado, e sua morte em julho de 1990. Lembro de ver a notícia no Jornal Nacional e ficar sem acreditar. Era como se os anos 80 inteiros estivessem morrendo junto com ele. E talvez tenha sido isso mesmo.

Trancado no quarto, vitrola no último volume, acompanhava as músicas com uma guitarra muda e chorava. Chorava muito. Um não entender de por que se morre. Naquele instante, nem imaginaria que no mesmo ano eu estaria sentindo isso de forma ainda mais intensa, vivendo meu próprio drama pessoal com a perda de alguém muito mais jovem que Cazuza.

Em minha história pessoal, com o ano de 1990 terminou toda uma fase de sonhos. As músicas de Cazuza entraram definitivamente em mim. Vida louca vida/ vida breve/ já que eu não posso te levar/ quero que você me leveSenhoras e senhores/ trago boas novas/ eu vi a cara da morte e ela estava vivaExageradoO nosso amor a gente inventa/ pra se distrair/ e quando acaba, a gente pensa / que ele nunca existiu… Tudo entendido-vivido de uma só vez e uma única certeza: que o tempo não pára.

E pensar que o garoto que o viu na praia tem hoje mais idade do que ele chegou a ter…

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12 respostas a Cazuza – 50 anos

  1. wilson disse:

    É… O tempo não pára. Por mais que a gente invente ou reinvente.

    A AIDS levou tanta gente naqueles anos 80. Penso que foi nessa década que, realmente, o sonho acabou…
    O Decamerônicos anos 80 colocou sua marca e estígma em Cazuza. Deveria partir com os outros, mas permitiu-lhe deixar sua marca, sua pegada nas areias do tempo que não pára.
    O tempo levou-o no alvorecer dos anos 90. Holofotes foram-se apagando, emudeceram guitarras,teclados, baterias, parafernália técnica… “The show is over.”
    A vida não lhe deu os aniversários de 40,50. Pois o tempo não pára, não dá tempo a ninguém.
    Não tem importância. Nos seus módicos 30 anos viveu intensamente. E mais vale uma hora de vida realmente vivida que um século de tédio cotidiano.
    A maior homenagem que Roma dava aos seus soldados mortos, resumia-se em uma única palavra: VIVEU!
    E Cazuza VIVEU. Nunca vegetou… Foi e é alguém.
    Cazuza não morreu. Apenas, viveu.
    Abração.

  2. Renata Silveira disse:

    E agora que assisto a tudo de cima do muro…
    Sandro, obrigada por trazer à tona as memórias mais fantásticas da minha pré-adolescência. – ah os bons tempos dos shows no palácio…
    Sou e serei sempre da “geração dos 80”. Embora fosse muito nova, é o espírito de uma esperança auto-destrutiva que ainda habita em mim… Tslvez por isso que “exagerado” e pelo menos dois dos discos do Barão estejam sempre no meu mp3. É uma “herança” de música e poesia urbana que já passei ao meu filho.
    Beijos,
    RS

  3. Renata Silveira disse:

    PS: A primeira animação “apaixonada” do Arthur, dedicada ao seu primeiro “amor” adolescente, aquele amor que não foi dito por causa da sua timidez excessiva e por isso condenado ao pretérito imperfeito, tinha como trilha sonora “exagerado”…
    Quantos adolescentes de hoje choram suas quase-conquistas afetivas ao som do Cazuza?
    Outro dia recebi um e-mail tipo corrente, escrito por algum reacionário, que entre outras coisas e a respeito do filme Cazuza, bradava que ele não era exemplo para ninguém.
    E eu pergunto: e quem o é? Os excessos de uma vida só cabem a quem a vive. O resto são falsos moralismos e politiquices pretensamente corretas… Tudo estava escrito e descrito nas letras do Cazuza.
    RS

  4. Edmar disse:

    Sandro,

    lendo o que você escreveu me veio a lembrança dos anos 80 e me pergunto o que estará acontecendo com a criatividade nacional, será que a fonte que existia nos anos 80 secou?

  5. Tião disse:

    Lobão, rapaz, também tinha os shows do Juvenal Lamartine, aquele campinho de futebol na Hermes da Fonseca. Lá tocaram Paralamamas (na época do disco BigBang), Caetano Veloso (na turnê do disco sem nome mas que apelidávamos de “José”) e o próprio Cazuza, no histórico show da turnê de “O Tempo não pára”. Aos dois primeiros, assisti. Ao terceiro, não. Mas o que a gente ouvia do disco “Só se for a dois” não era brincadeira. Curiosamente, até hoje é um disco que me leva pra cima, acaba com qualquer sinal de fumaça de tristeza, tédio ou depressão. E a imagem é perfeita: a morte de Cazuza foi meio que o final de um ciclo. Nem por isso as coisas deixam de se transformar – e a gente tem que ter os olhos abertos para essa evidência da vida. Como dizem os versos de Paulo Coelho que o próprio Cazuza também registrou em disco, “alguém quando parte é porque outro alguém vai chegar”. Sua história pessoal – a sua, Lobão – é uma prova disso.

  6. Sandro Fortunato disse:

    Pela ordem…

    WILSON, como registrou Lobão, parceiro de Cazuza em muitas músicas: É melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez.

    RENATA, geração é uma questão de afinidade e não de idade. Eu, que tenho alguns anos mais que você, já entrei meio de banda na geração dos 80. Quando fui a esse show do Cazuza, estava completando 14 anos.

    EDMAR, tenho teses e mais teses a respeito disso. A primeira dá conta de que sobre pressão há mais criatividade e mais qualidade. A geração de Cazuza e Renato Russo era de filhos da ditadura, de garotos que viram mas não participaram ativamente da luta por liberdade pois eram ainda muito novos. Quando puderam fazer alguma coisa, em vez de armas empunharam microfones e guitarras. Quem saiu ganhando com isso foi a gente.

    TIÃO, fui muito ao Juvenal também. Dentre outros shows que aconteceram lá, estive nesse do Caetano e no dos “nossos Beatles”, o RPM. Lembra quando disseram que os Rolling Stones iriam tocar no Juvenal? 😉

  7. wilson disse:

    A verdade, Renata é que, nos anos 80, ninguém era exemplo para ninguém, hoje em dia. A vida era outra e o modo de vivê-la também. Poucos se lembram do horror daqueles anos de muita criatividade e da incerteza de se estar vivo no dia seguinte.
    Naquele tempo os valores eram outros. E, CAZUZA FOI EXEMPLO SIM! Exemplo de coragem, quando botou a cara na televisão e nos shows; quando assumiu a sua condição de aidético; quando começou a sua luta contra a doença, luta vencida pela morte e não pela vontade.
    Foi exemplo quando colocou-se acima dos medos, folklore e preconceitos das pessoas. Exemplo porque não se escondeu e seguiu em frente. Foi amado, foi beijado, abraçado. Ajudou, na sua “maluquice”, no seu jeito de ser, que outros não sofressem a rejeição. E a rejeição, o isolamento, matava mais que a AIDS.
    Os anos 80 foram mais complexos do que parecem. Nem os que vivemos aquela década, podemos definí-los com clareza.
    Exemplos de conduta pessoal, podem ser questionável. Mas a vida dos anos 80, há que se pensar. Quem tiver tempo e coragem, que resolva a equação daquela década…
    Foi e será sempre um grande artista, que nos legou uma infinidade de músicas que foram a “nossa cara”, a “cara do Brasil”, nos 80 e que continuam sendo…

    Abração.

  8. Chris Angelotti disse:

    Nossa, amei o post!
    Quantas lembranças…
    Nunca fui a um show do Cazuza,na real só fui no show do Paralamas naquela época, mas não perdia o programa do Chacrinha. Era uma referência. Sábado a tarde era o momento do Chacrinha e em meio às brincadeiras, dos calouros, vinha a nossa trilha sonora dos anos oitenta. Quando acabava o programa iamos nos arrumar para alguma “festinha americana” ou simplesmente íamos ficar com os amigos.
    Já vi a mãe do Cazuza falando que a conforta sentir que o filho viveu intensamente da forma que quis e foi feliz.Como todos aqui disseram é muito melhor ser assim.
    Bom, o fato é que tenho orgulho de ter vivido essa fase, com músicas tão inspiradas. Embora fosse nova e por isso não tivesse curtido ainda mais, os anos oitenta foram gloriosos.
    E salve Cazuza!
    “Pro dia nascer feliz
    Essa é a vida que eu quis
    O mundo inteiro acordar
    E a gente dormir…”

  9. Roberta disse:

    Pois é, parecia piada aquela notícia que apareceu no dia 7/7/90. Uma piada de muito mal gosto, sem dúvida.
    Assim como vc, chorei muito, e ainda choro. Choro pela perda de uma esperança ingênua de acreditar que ele iria sair daquela. Acreditava firmemente nisso. Tinha 15 anos e neste dia fui ao show da Legião no Jockey (única vez que fui ao show da Legião). Já tinha comprado ingresso e não queria ir porque estava muito chateada. Mas que bom que fui. Que bela homenagem foi feita por todos. E mais choro lá também. Choro até hoje, como a perda de uma pessoa muito especial, muito próxima, quase como se dividisse uma mesa de bar comigo.
    Hoje tenho 32 anos (neste mês farei 33) e me assusto quando percebo como está longe a data de sua morte, como deve ser doloroso para uma mãe perder um filho nessa idade, na minha idade! Que filho! Que mãe! Que poeta! Que personalidade! Que alegria por ter vivido sua música, por ter começado cedo a ouvir o Barão (divindo espaço na vitrola com a Blitz e depois Legião). Nessas horas é bom demais não ser filho único e ter alguém para te “apresentar” o que é bom logo cedo.
    Que delícia ouvir o Chá das Cinco… Guardei durante anos uma fita cassete que gravei da rádio. Hoje encontrei na internet uma boa entrevista desse mesmo Chá das Cinco, em MP3.
    Se não tiver me escreva que te passo com prazer.
    Parabéns pela qualidade de tudo o que escreveu e pelo sentimento exposto, comovente e belo.
    Forte abraço

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  11. sidiel de paula nogeira disse:

    mestre,mago,mito,musico,mundo….
    50 anos atras nasceu uma voz que nunca calou,
    só cantou e encantou pois O TEMPO NÃO PARA!!!
    VIVA CAZUZA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  12. Ana disse:

    É, sabado agora, 51 anos.
    Conheço ele há pouco tempo mesmo, mas já ele faz toda a diferença, pra mim mesmo.
    Pessoa querida (os amigos dele que o digam!) e músico talentoso.
    Inspirou muita gente, em vários sentidos.
    Ninguém vai esquecer ele, e ele sabe disso!

    …♥

    VIVA CAZUZA!!

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