Em Realidade

O pau comeu na casa de Noca, ou melhor, aqui na redação do Sempre Algo a Dizer durante a reunião de pauta para saber que encaminhamento seria dado a este texto sobre a revista Realidade.

Eu, Sandro F., repórter, 35 anos, nem drogado nem prostituído, sugeri uma exaltação ao bom jornalismo, à imersão na reportagem, aos bons tempos em que ser jornalista era motivo de orgulho. Nosso editor, S. Fortunato, disse que seria mais interessante mostrar o ambiente cultural e jornalístico em que a revista surgiu, compará-la a já sem fôlego O Cruzeiro, falar sobre o público que exigia uma publicação como Realidade. O Redator-chefe, Sandro Fortunato, queria uma contextualização mais política, em que se falasse como um investimento empresarial teoricamente apoiado pelo governo militar podia se mostrar tão de esquerda e abordar tantos temas-tabus; que se enfatizasse seu surgimento dois anos depois do golpe e a mudança sofrida com o AI-5. Foi então que outro redator, o Sandrão, lembrou que esses tempos áureos – do lançamento a dezembro de 1968 – tinham no pelotão de frente os jornalistas Paulo Patarra e Sérgio de Souza, que nos deixaram este ano.

Em realidade, vos digo: falar de Realidade sem desenvolver uma tese acadêmica, escrever um livro (jamais escrito!) ou tomar pelo menos uma dúzia de páginas como a revista fazia para cada matéria é muito difícil. A parada foi resolvida de maneira bem democrática: os chefes mandaram e eu obedeci. “Põe tudo isso aí em um texto rápido para o leitor-internauta, fala das principais capas e reportagens do período 66-68 e avisa que tem um site que vai disponibilizar um sistema de pesquisa para se saber em qual edição saiu cada matéria, quem escrevia na revista, etc”, disseram eles. “Então tá”, disse eu.

* * *

O golpe militar de 1964 começou com uma grande mentira: a data. Os militares insistindo que tudo se desenrolou no dia 31 de março; todo o restante dizendo que havíamos acordado sob fuzis em 1º de abril, dia da mentira.

Foi também com uma mentira que Realidade fez sua estréia dois anos depois, em abril de 1966. Foi assim que ganhamos o Tri, dizia a primeira chamada na capa que trazia Pelé sorrindo e ostentando o busby usado pelos guardas da Rainha Elizabeth, numa antecipação do que seria o resultado da Copa do Mundo, a se realizar na Inglaterra dali a três meses. Aquele foi o primeiro furo – não no sentido jornalístico, de dar a notícia antes de todos – da revista, que inventou de brincar com o que ainda não era e nem viria a ser realidade. A reportagem-sonho e o sonho de uma grande revista de reportagem acabariam logo. A primeira seria enterrada pela Hungria, no jogo que fez Garrincha conhecer sua única derrota com a camisa da seleção, e por Portugal; o segundo acabaria em dezembro de 1968, com o decreto do Ato Institucional número 5.

Na Carta do Editor, assinada por Victor Civita, publicada na primeira edição da revista, há um “afago diplomático nos líderes da revolução”: “Queremos comunicar a nossa fé inabalável no Brasil e no seu povo, na liberdade do ser humano, no impulso renovador que hoje varre o País, e nas realizações da livre iniciativa”. Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados da qual a já não mais poderosa revista O Cruzeiro fazia parte, acreditava que a nova concorrente era protegida pelo governo. Conchavos e ciúmes à parte, Realidade dava um banho de jornalismo, seguindo a tendência do new journalism norte-americano. No ano de seu lançamento, abordaria vários temas-tabus como a pílula anticoncepcional, jogo do bicho, divórcio, juventude e sexo, celibato na Igreja e educação sexual da criança. Na edição de dezembro, enquanto outras revistas costumavam usar símbolos cristãos, reforçando a fé e os costumes religiosos, perguntava na capa: Deus está morrendo?

O ano de 1967 começaria de forma inesperada para Realidade. A edição de janeiro, número 10, especial, trazia um raio X da mulher brasileira da época. O que elas pensam e querem, Confissões de uma moça livre e Eu me orgulho de ser mãe solteira eram algumas das chamadas. Um juiz de Menores entendeu que a revista tinha caráter obsceno e era “profundamente ofensiva à dignidade e à honra da mulher” e mandou apreender a edição. Somente na gráfica, foram retidos 231.600 exemplares de um total de 475 mil. Ironia que uma edição em homenagem à mulher fosse considerada ofensiva a ela. Ironia mesmo seria a liberação, vinte meses depois, como veremos mais adiante.

A censura parece ter aumentado a vontade de falar de tudo sem freios. A edição seguinte traria na capa um superclose de uma mulher, em delírio quase orgástico, fazendo alusão ao carnaval. Na de março, uma matéria sobre como os comunistas tomaram o poder na Rússia. Em abril, Carlos Lacerda falava sobre o antiamericanismo. A de maio, com uma matéria sobre drogas, mostrava na capa um homem se injetando. Em junho, uma matéria sobre censura. Em outubro, matéria de capa sobre racismo no Brasil e nos Estados Unidos. Em novembro, a verdade sobre a renúncia de Jânio e, fechando o ano, a edição de dezembro trazia uma mulher nua cobrindo os seios numa chamada para uma matéria sobre sonhos.

Como todos sabem, o ano seguinte, 1968, traria tristes lembranças ao país. Realidade entrou o ano tentando esclarecer as coisas. Por que o homem bebe, por que morre o brasileiro, por que lutam os protestantes, por que a América é odiada eram as chamadas de capa da edição de janeiro. Em fevereiro perguntava Quem ameaça o Brasil: esquerda ou direita? Em abril, a capa trazia Fidel Castro; em agosto, Che Guevara.

Em novembro de 1968, a matéria principal era a cobertura das eleições presidenciais americanas por Carlos Lacerda. Quase 23 páginas foram dedicadas a mostrar que, apesar de tudo, os Estados Unidos eram livres para escolher seus representantes. Essa edição tem ainda outras peculiaridades. O primeiro texto contava a vitória conseguida pela revista junto ao Supremo Tribunal Federal: a liberação da edição especial sobre a mulher, no dia primeiro de outubro. Era uma vitória. Mesmo que, um ano depois da apreensão, 225 mil exemplares tenham sido destruídos. Na última página, na seção Brasil pergunta, o questionamento era: Está em marcha um golpe de estado para derrubar o atual governo? Na primeira página, ao lado do sumário, no expediente, ainda não se sabia mas era a última vez em que apareceriam os nomes de Paulo Patarra e Sérgio de Souza como diretor e editor de texto, respectivamente. Quase toda a redação se demitiria.

Dezembro de 1968 traria o endurecimento do regime militar. Decretado o AI-5, dentre outros absurdos, estabelecia-se a censura prévia. A edição daquele mês marcava o fim do melhor período de Realidade e também era recheada de detalhes especiais. Na capa, o último feito de Paulo Patarra: uma entrevista com Luís Carlos Prestes. Na parte de esportes, uma matéria dizia que “o caminho da seleção brasileira até a Copa do Mundo de 1970, no México, passa pela esquerda”. Gerson, Rivelino e Tostão, em página inteira, ladeados pelo título: Nestas esquerdas o Brasil confia. A revista ainda brindava os leitores com a edição completa de A revolução dos bichos, de George Orwell. O conto, que deixa claro o desencanto do autor com o socialismo ante a ascensão do Stalinismo poderia servir como propaganda do governo, mas ali estava como “uma veemente de denúncia de todo tipo de totalitarismo e opressão”.

Realidade seguiria até a edição 120, de março de 1976. Mas essa já seria outra Realidade.

* * *

Abril de 2008. A edição deste mês da revista Caros Amigos não deve trazer o nome de Sérgio de Souza como editor. Ele faleceu no dia 25 de março. Dois meses antes, em 21 de janeiro, foi Paulo Patarra. Esses dois certamente estavam tramando algo e devem estar lançando uma revista, em algum lugar, por esses dias.

Também neste abril, o site Memória Viva começará a disponibilizar a catalogação de seu acervo. Essa primeira fase inclui o período que vai desde o lançamento de Realidade, em abril de 1966, até a edição 45, de dezembro de 1969. Será possível pesquisar por títulos das matérias, nomes dos colaboradores e palavras-chaves. Não se trata de digitalização da revista. O sistema é uma ferramenta para auxiliar pesquisadores que têm determinados periódicos como objeto de estudo mas não têm acesso a coleções completas. Na fase inicial do projeto estão sendo catalogados Realidade e o jornal O Pasquim. O lançamento será feito no final deste mês e faz parte das comemorações pelos 10 anos do site Memória Viva.

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4 respostas a Em Realidade

  1. joão disse:

    Sandro.
    Sempre acompanhei as aventuras jornalisticas do Paulo e do Sergio. Genios do metier. A Caros Amigos era um pouco engessada, não por culpa do Sergio, mas por falta de grana. Tiveram que fazer a Caros Amigos de coluna e não de reportagens, que é o que o Sergio sabia fazer mesmo. Paulo foi outro genio , da mesma forma. Eu gostava e ainda gosto de iniciativas deles como o jornal EX, do Grilo e do Bondinho. Nestes veículos eles radicalizaram e foram até o underground, sem perder a ternura. Fiquei muito triste em saber da morte sdo Sergio, do Paulo eu já sabia e tinha meio que acostumado, mas do Sergio foi um susto. Fico pensando agora, e aimprensa alternativa agora, onde vai parar. Resta o Raimundo Pereira…E os jovens? Ningúem aparece com uma revista realmente alternativa…
    abraço
    joão antonio

  2. Jandiro disse:

    Digamos que foi o professor Sandro que me fez pousar o olhar sobre a Revista Realidade. Minha danação eram os livros, logo vieram as revistas.
    Me lembrei do artigo sobre os colecionadores de livros que se encantam por suas capas. Não fossem as capas, poderia ter não sucumbido à tentação.
    Logo a inquietude de não conseguir uma edição desejada. A nº 48, a mesma que meu professor Sandro não tem. A mesma que (parece) ninguém tem.
    Queria saber jogar “no bicho”, 48. Na certa é um bom palpite.
    Abraço.
    PS: Você quer que eu cante Happy Birthday? Vou logo avisando que minha voz não é lá essas coisas…

  3. wilson disse:

    Ah! A ABRIL de muitos abril e muitas “abriladas”.
    “REALIDADE”, remete-me à realidade de Victor Civita, e aquela síndrome que ataca todos os grandes editoress milaneses: O desejo de ter uma casa editora. E o desejo de fazê-la grande!
    Então nasce a EDITORA ABRIL nesta Milano sul-americana que é São Paulicéia Desvairada De Piratininga. Vira GRUPO e vai de vento em popa.
    Gibís, revistas – um mundo ao alcance de todos. Surge a ABRIL CULTURAL que trouxe para as bancas a literatura nacional e universal; coleções montada a fascículos semanais e uma coletânea de peças de teatro: O TEATRO VIVO.
    REALIDADE, feita nos modelos das maiores revistas internacionais evoluindo para uma personalidade própria, marcou uma época e deixou saudades.
    Sinto falta dela. Sinto falta do “Seu” Civita. Sinto falta da criatividade.
    Hoje eu não posso ir embora e nem vou ler meu Pasquim, nem a realidade. Tem a Veja, Época, etc… Muitos artigos, muitos assuntos, muitas denúncias. Mas e os “culhões” daqueles que fazem as revistas e botam a cara para bater, como nos tempos da REALIDADE?.
    Abração.

  4. Vigneron disse:

    Seria interessantea digitalização da revista realidade e do Pasquim, pois muitos não conheceram essas publicações. E, cá entre nós, foram importante e ímpares.

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