Maratona Fellini – Anos 50

Eu tento. Evito. Juro. Mas é pior porque acaba acontecendo uma rebordosa, uma crise de abstinência, uma necessidade extrema. Resolvi ter uma overdose de Fellini no fim de semana. “Vou ver tudo!” Seria necessário não fazer outra coisa e dormir quase nada da noite de sexta até a manhã de segunda. Até aí, tudo bem, mas achei que Fellini não merecia uma assistência sonâmbula, além do que a superdosagem viria com muito menos. E veio.

Procurei então estabelecer uma metodologia e aproveitar ao máximo. Decidi seguir a cronologia dos filmes, começando por Lo Sceicco Bianco (Abismo de um sonho, de 1952), sua estréia solo na direção, seguido de I Vitelloni (Os Boas-Vidas, 1953), La Strada (A estrada da vida, 1954), Il Bidone (A trapaça, 1955), Le notti di Cabiria (As noites de Cabiria, 1957) e La Dolce Vita (A doce vida, 1959).

Eu já havia passado por uma experiência parecida, sendo que havia começado por La Dolce Vita e vendo apenas um filme por dia, quando da exposição Circo Fellini, que passou por Brasília em 2005. A idéia agora era seguir a trajetória, o desenvolvimento do pensamento e do estilo de Fellini.

Não é preciso ir além do segundo filme para perceber os elementos que sempre estarão presentes em seus filmes: o mar, os loucos, o casamento, a traição ou o desejo de trair, o arrependimento, a expiação, o circo, os clowns, os atores, a estrada, o partir, a Igreja (padres, freiras, anjos, santos…), a praça (e a solidão)… Fellini conta a mesma história em todos os filmes.

Minhas fitas não se orientam pela lógica de um roteiro, mas numa dimensão de amor. (…) Lo Sceicco Bianco, I Vitelloni, La Strada, Il Bidone, Le notti di Cabiria nasceram de uma só paternidade. Nesse sentido são todas iguais e todas diversas.

Aí está a marca do gênio. Ousar sonhar e realizar seus sonhos. Fellini nunca foi apenas um grande diretor. Foi um realizador. Imaginava, escrevia, produzia, dirigia. Realizava seus sonhos. Como só um rei pode fazer. La regia é uma função que lhe cai muito bem. E como aqueles que têm coragem de ser para o que nasceram, não se inventou ou decidiu seguir tal caminho. Disse certa vez: “um dia notei que era diretor”.

Como um deus brincando com os personagens que criou, ele não os rotula como bons ou maus, trágicos ou cômicos. São todos humanos. E assim são suas histórias. Impossível de serem rotuladas com um gênero.

Creio que não existem temas humorísticos e não-humorísticos. O humor, como o dramático, o trágico e o imaginário, é a colocação da realidade em um clima determinado.

Em outra ocasião, diria:

Nada é mais triste do que o riso; nada mais lindo, magnífico, estimulante e enriquecedor que o terror do desespero profundo.

Lo Sceicco Bianco parece ser o que mais se aproxima de uma comédia, mas sem deixar de ser uma história trágica. Também parece ser a única história dona de um recorte preciso, com início-meio-fim. Há um rápido diálogo, ali pelos dez minutos de filme, que resume perfeitamente o mundo de Fellini que o resto da humanidade iria ver nas décadas seguintes:

– La vera vita è quella di sogno.
– Oh, si! Io sogno sempre.

Sim, a vida real é a vida dos sonhos. É preciso estar sempre sonhando para viver plenamente. Seus personagens vivem assim. Em I Vitelloni, isso é deixado bem claro. Os boas-vidas parecem não querer outra coisa além de diversão, parecem não ter compromisso com “o mundo real”, com obrigações. Mas aos poucos vão mostrando suas tragédias pessoais, seus desejos escondidos, seus verdadeiros sonhos, às vezes muito próximos de viver nesse “mundo real”. O sonho pode ser levar uma “vida normal”. Assim como parece ter sido a de Fellini, casado e apaixonado pela mesma mulher, vivendo em um apartamento pequeno. Os sonhos cabem em qualquer lugar.

Quando se chega a La Strada, que ganhou o primeiro Oscar de Filme de Língua Estrangeira (entre 1947 e 1955 foram concedidas menções honrosas ou prêmios especiais; só em 1956 a categoria passa a existir e ter filmes em disputa), o mundo de Fellini está estabelecido. Nele estão todos os elementos que fazem parte de seu universo, incluindo Giuletta Masina, a desimportância dos diálogos e o abandono da história deste ou daquele personagem a qualquer momento.

Foi a essa altura da maratona que me vi completamente hipnotizado. A partir dali, poderia ficar sem comer ou dormir até o último filme. Estava visualizando o “Código Fellini” e não mais tentando entender racionalmente um elemento isolado ou a soma de vários. Havia sido transportado para aquele universo, estava entendendo sua linguagem. Estavam abertas as portas da percepção para além de qualquer compreensão intelectual. Ao final, eu pensava em rodar os interiores dos Brasis exibindo La Strada. Queria ver o povo se emocionando com Gelsomina sem precisar entender uma palavra em italiano. Sentimentos e sonhos são assim: desconhecem barreiras de linguagem.

Em Ii Bidone, Fellini começa a deixar claro um ponto que abordaria anos depois em um artigo intitulado A amarga vida do dinheiro (Films and Filming, Londres, janeiro de 1961). O tema é um dos pontos centrais do filme seguinte, Le notti di Cabiria, a prostituta que sonha em levar “uma vida normal” e que, diferente de sua primeira aparição em Lo Sceicco Bianco, quando parece saber tudo sobre as tragédias alheias, mostra-se totalmente cega em relação aos seus próprios dramas.

A relação Fellini-Masina, todas as vezes em que ele “traiu a esposa” em seus filmes, todas as vezes em que ele a liberou e a prostituiu através de personagens para diminuir sua culpa, os olhos de Giulietta, a capacidade de ser bela mesmo não sendo, de fazer rir e chorar com sua “cara de alcachofra” são capítulos de um livro somente a respeito dela. Melhor deixar que Fellini fale:

Giulietta é um caso à parte. Não só é a atriz de alguns de meus filmes, como também, e num sentido muito sutil, a inspiradora. E isto é muito compreensível, visto que é a companheira de minha vida. Giulietta, repito, não é o rosto que escolhi, mas uma verdadeira alma dentro do filme.

Em carta aberta a um jesuíta que lhe pedia apontamentos sobre a concepção espiritual de seu mundo cinematográfico, Fellini diz, em 1957, ano em que arrebatou seu segundo Oscar com Le notti di Cabiria:

Cabiria, minha última figura. Ainda frágil, desditosa e terna, depois de tantas desventuras e do fracasso do seu ingênuo sonho de amor, continua a crer no amor e na vida. (…) porque, apesar de tudo, Cabiria leva no coração o segredo de uma graça descoberta. E não se trata de buscar definir a natureza dessa graça. É mas amável deixar a Cabiria a felicidade de nos dizer se essa graça é o encontro de Deus.

Em Fellini por Fellini – onde estão as citações aqui feitas; compilação de textos aqui editada pela L&PM no início dos anos 80 –, no já mencionado artigo A amarga vida do dinheiro, uma revelação que leva ao último filme desse período – década de 1950 – escolhido para a primeira parte da maratona e que nos faz perceber que nunca desistir dos sonhos é mesmo a única maneira de realizá-los:

Tive de falar com quinze produtores antes de achar um que quisesse fazer La Strada. Após Le notti di Cabiria e de um segundo Oscar, tive ainda grande dificuldade para encontrar um produtor para La Dolce Vita.

E sobre La Dolce Vita nada falo pois tudo já se disse e nunca será o bastante.

 

* * *

Textos anteriores sobre Fellini:
La Dolce Vita – 11 de junho de 2005
As loucas de Fellini e os outros eus – 26 de janeiro de 2006
Marcello, il dolce – 25 de outubro de 2006
Eles gostam de aparecer por aqui – 19 de março de 2008

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6 respostas a Maratona Fellini – Anos 50

  1. dorisesouza disse:

    Oi Sandro,
    Fiquei me roendo de inveja. Se tem algo que compartilhamos além do Carlos Estevão é claro, esse algo é Fellini.
    Qualquer coisa, mesmo o quanto se fale, mesmo que seja com o amor que vc fala, é pouco, é sempre pouco.Vou imitar vc, com os poucos que tenho, Amarcord, poesia pura, Noites de Cabíria, Entrevista, sei que é muito pouco, mas tenho um amigo,lembra, que me prometeu mais alguns…
    Mas vc tem razão, seus personagens são reais e ao mesmo tempo mágicos.
    Foi uma época de ouro do cinema italiano, europeu.Era sempre um festival de filmes maravilhosos.
    E eu, sempre aguardando o “novo de Fellini”.
    Por isso fiquei com inveja, vc consegue rever com o mesmo encanto da primeira vez que viu.
    Sabia que são raras as pessoas que teêm esse privilégio?
    bjs
    Doris

  2. Sandro Fortunato disse:

    DORIS, acho que você acaba de explicar algo que eu nunca consegui. Isso sobre o “rever com o mesmo encanto da primeira vez”. É isso mesmo! Eu sou assim. O filme sempre é novo para mim, mesmo que eu já o tenha visto várias vezes. E tem um outro lado. Eu dou um distanciamento de tempo necessário “para não enjoar”, talvez para esquecer. E aí vai que bate uma louca que me faz correr pra ele. Coisa de amante! 😉

    Não esqueci a promessa e, como você se manifestou, torno público que, graças à sua generosidade, tenho de novo um exemplar de Fellini visionário.

  3. Tião disse:

    As figuras dos filmes de Fellini me lembram um pouco os doidinhos do Seridó clássico, que por sua vez me lembra o sul da Itália em filmes passados nos anos 50. Mas eu queria falar sobre a postagem anterior: interessante o paralelo entre o Edson Luiz “clássico” dos protestos de 68 com os Edson Luiz de todo dia no 2008 da dengue. Sobretudo porque, como lembra Elio Gaspari no segundo volume daquela série de ensaios sobre a ditadura, o Edson Luiz original nem era um “ativista” como tantos da época. Comia no Calabouço por uma simples questão de economia – como ademais o próprio Gaspari, a se acreditar no seu relato. Não tinha dinheiro, como tantos brasileiros de então. Agora, nos atos que relembram o fato, tenta-se envolver o estudante numa aura falsa, como se ele fosse, na época, uma das lideranças estudantis. Não era, e isso não reduz em nada seu papel – sua entrada na História. Mas glamourizar demais não ajuda na reconstituição da verdade histórica. Lembrei disso lendo seu paralelo 68-2008, dando o mesmo nome do brasileiro assassinado a outros que morrem de picada de mosquito. É isso mesmo: ninguém se lembra dos anônimos, só dos líderes.

  4. wilson disse:

    Meu mais apaixonante triângulo amoroso! Cinema, Federico e La Masina. E eu entro com tudo nesse triângulo e o trnsformo em quarteto.
    O cinema, a ilusão; Fellini, a realidade e o sonho; Giulietta, um mistério tão bom que a gente não tem a menor vontade de saber onde termina a pessoa e onde começa a atriz. “Bella” sem o ser. Tão grande que fez tremer a estupenda Anna Magnani.
    Massina, Federico e Cinema – foram feitos um para o outro. Desfeito o trio, eu formo o quarteto: Sou o expectador.
    Sangue não é água. E eu não degenero. E Fellini mostra o que eu sou. O que somos como italianos ou “oriundi”. A tal “cosa nostra”; o nosso fatalismo e esperança que por vezes é comico, outras é drama puro. Mas, como não nos contentamos, em relação à vida, com extremos, transformamos tudo em tragicomédia.
    Fellini não se repete. Retrata a rotina da vida.
    É porisso que o Mágico Federico vai continuar encantado a todos.
    É porisso também que Giulietta – a cúplice de Fellini vai continuar sendo Gelsomina, Cabíria e, em especial, a MINHA “Giulietta Degli Spiriti”.
    Federico se ne è andato. La Masina lo insegue pocchi mesi dopo. Terminou o quarteto. Ficou apenas o Dueto – O cinema e eu…

    Abração.

  5. Claudia Freire disse:

    Adorei o post!

    Já que estamos falando da arte de sonhar, dêem uma olhada neste video do youtube http://www.youtube.com/watch?v=hyaX3JgPLVk, ou acesse o site http://www.meus3desejos.com.br. Tenho certeza que vocês irão gostar.

    Abs.

  6. PedroCSN disse:

    Oi Sandro,
    Excelente o seu post. Compartilho com voce essa paixão por Fellini, tanto que tenho toda a filmografia dele, com exceção de “Il Bidone”.
    Já procurei baixar esse filme na internet mas só consigo com legendas fixas em ingles. Apesar de dominar bem esse idioma eu gostaria de ter o filme com legendas em portugues. Por isso se voce souber de algum site/blog onde eu possa conseguir esse filme (com as legendas em portugues ou mesmo sem legendas)eu ficarei muito agradecido.

    Abraços,

    Pedro.

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