O doentio e adorável Michael Moore

Na última terça, o humorístico Jornal Nacional exibiu algumas reportagens sobre a epidemia de dengue no Rio. Para agradar a seus espectadores-homers, mostrou como a vida é maravilhosa nos Estados Unidos, mesmo que os céus estejam contra eles. A matéria dizia que os EUA enfrentaram recentemente um problema parecido e deram cabo da mosquitada de forma muito eficiente. É patética, inútil e deveria servir pelo menos para duas coisas: mostrar como é simples evitar e combater algo desse tipo e como o poder público brasileiro não consegue fazer nem isso.

Já chegando ao fim, a repórter diz: “mas o sistema americano também recebe críticas”. Acendeu uma luzinha de aviso e pensei: “vai falar de como praticamente não existe serviço público de saúde nos Estados Unidos”. Ingenuidade minha. Só fez lembrar do inferno passado pelos moradores de New Orleans, em 2005, após a passagem do Katrina, quando cerca de 1.600 pessoas morreram. A última frase da matéria, que quis apenas enfatizar a idéia de que o americano tem a cultura de precaver-se, foi (aparente e provavelmente sem querer) a única inteligente. Dizia que o resultado só não foi pior porque “20 milhões de pessoas procuraram informações médicas para não adoecer”.

Elas fizeram isso por um motivo muito simples: porque sabiam que se adoecessem, morreriam.

É isso que Sicko, o mais recente filme de Michael Moore mostra: a falta de uma política de saúde pública nos Estados Unidos e, pior que isso, o engodo dos planos de saúde americanos.

Moore está cada vez melhor. Em minha opinião, ele é o grande revolucionário de nossos tempos. Sem conflito armado, usa sua inteligência e todo seu adorável cinismo para desmistificar as maravilhas do império americano. Roteiriza, dirige, documenta, atua e monta seus filmes. É uma estrela de primeira grandeza. Com Sicko, quase começo a pensar que tanto brilho pode ofuscar a real função de seus filmes. Eu, por exemplo, ri quase o tempo todo, principalmente quando ele passa por vários países da Europa e mostra como funcionam seus sistemas de saúde. São hilárias as reações das pessoas, acostumadas a ter um atendimento exemplar sem ter que pagar nada (além de seus próprios impostos) por isso, diante da “surpresa” e insistência de Moore em tentar descobrir como algo assim pode ser possível. E quando ele leva pessoas que desenvolveram doenças por terem atuado nos trabalhos de resgate do World Trade Center, pessoas que tiveram atendimento de saúde negado… bem, veja o filme. Não vou estragar.

Eu, fã do cinismo de Moore, ri todo o tempo. Minha esposa chorou durante o filme inteiro e ainda chora cada vez que se fala nele. A situação mostrada é realmente terrível. Você que está aí sentadinho na frente do seu computador, você que é um “inserido digital”, você que provavelmente tem um plano de saúde, mesmo que nunca tenha entrado em um hospital público, certamente já viu suas mazelas pela tevê. Acredite, nosso sistema público de saúde é muito melhor que o americano.

Eu poderia fazer um discurso de oito horas e muitos megabites sobre a relação governo X saúde pública, dar bons e maus exemplos, nos Brasis e no exterior, mas vou preferir dar a dica do filme e deixar que você tire suas próprias conclusões.

Termino apontando alguns detalhes sarcásticos para os quais pouca gente irá atentar. Em um dos cartazes do filme, Michael Moore aparece sentado entre esqueletos em uma sala de espera. Um deles segura um jornal no qual a manchete noticia a chegada do homem à Lua (julho de 1969). Logo abaixo se lê: Astronautas dizem “Águia pousou”. Lugar de águia (símbolo americano) não é no chão. Outro esqueleto tem sobre a perna um exemplar de Trópico de Câncer, de Henry Miller. A escolha do título obviamente não foi acaso. O primeiro romance de Miller (autobiográfico, diga-se) fala de um americano que abandona seu trabalho e casamento (representando aí instituições falidas) para viver maravilhosamente bem e feliz em Paris. A conexão é direta e imediata. Mas há ainda outro detalhe. O livro foi publicado em 1934, mas proibido em quase todos os países de língua inglesa. Nos Estados Unidos, só seria publicado nos anos 60. É outra alfinetada quanto ao atraso cultural americano e à eterna tentativa de maquiar isso.

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5 respostas a O doentio e adorável Michael Moore

  1. Jandiro disse:

    Nunca assisti um filme do Michael Moore, portanto sou a pessoa ideal para fazer um comentário.
    Claro que já me deparei com reportagens sobre ele e seu ativismo, mas confesso não ter dado muita bola.
    Mas, um dia, assistindo um DVD com um show absolutamente deslumbrante (gay isso, não?) de Madonna (mais gay ainda) vi que ela o homenageava durante o espetáculo (nesse momento ouvem-se algumas vaias).
    Michael Moore dançava durante o show, além de deixar uma declaração de admiração pela coragem de Madonna em se posicionar ao seu favor no palco.
    Pronto, sou fã de Michael Moore por tabela, sem nem de longe saber quais são exatamente suas lutas.
    Abraços.

  2. Bem… como também deixei “nossa” américa e agora vivo nas terras dos que vieram no passado nos sugar (acho que para dar o troco, talvez), vou escusar-me de fazer comparações, até porque não são válidas comparações entre grandezas diferentes. Mas gostaria de comentar é o nosso estúpido costume de tomar como referência, sempre, os EUA. Vá lá que somos todos americanos e ex-colônias européias. Mas as semelhanças acabam aí. O nosso sistema de saúde pública funciona mal porque o país é imenso e administrativamente complexo. Mas é mesmo em muito superior ao norte-americano. Uma das vantagens de viver desse lado do atlântico (não, não é pagar 2 euros por consulta médica sem fila!) é não ouvir notícias dos EUA como se fossem referência para alguma coisa. São apenas um país muito poderoso, mas é só. Aliás, segundo o Courrier Internacional desta semana, os EUA já deixaram de ser “o império”. Os novos donos do mundo agora estarão na China(!).

  3. François Vincent disse:

    Também gosto do Moore, mas ele também tem que ser visto com certo cuidado. Ele é estado-unidense, tem uma queda por sensacionalismos e exageros. Normalmente, pelo primeiro a gente chora e, pelo segundo, a gente ri. O problema é quando ele pega um caso e faz dele regra. Penso na parte em que ele mostra um casal parisiense. Ora, ter um apartamento daqueles em Paris, está na cara que não é a regra, é um casal que não tem nenhuma dificuldade financeira. E outra coisa, na França não é tudo de graça, como ele diz. Se você não tiver um seguro complementar (não é caro, mas também não é de graça), o governo não reembolsa tudo. Se você for hospitalizado, sai caro, e muito. Inté! 🙂

  4. Renata Silveira disse:

    Em Portugal – um país na cauda da Europa – o SNS (Sistema Nacional de Saúde), que está longe de ser perfeito, funciona bem. E por quê? Porque é público mas não é “de graça”.

    As consultas, cirurgias, internamentos e todo tipo de exame são pagos pelos “utentes” do Sistema (uma consulta custa 3,90€). Há alguns casos de isenção. Crianças até aos 12 e grávidas são duas delas.

    Engravidei, tive acompanhamento médico, exames, aulas de preparação para o parto (nas quais o pai pode participar), internamento e cirurgia – cesariana – sem desembolsar um cêntimo.

    Mas não se pode comparar o Brasil com os “pequenos” países da Europa… Talvez por isso que a nossa “referência” americana distorcida seja sempre o “gigante” do hemisfério Norte.

    Portugal é um país do tamanho do Estado de Pernambuco e com 10 milhões de habitantes. O Brasil é um continente desgovernado…

    Entendo que o problema da saúde (educação, habitação, segurança…) no Brasil está na desvalorização dos serviços, na corrupção e no aproveitamento político da miséria, que já é humana. São décadas de descaso e abandono.

    Por causa da dengue, na semana passada os aeroportos de Lisboa e Porto iniciaram um programa de esclarecimento, prevenção e acolhimento de viajantes provenientes do Rio de Janeiro suspeitos de terem a doença.

    Como diria o Moore, shame… shame…

  5. wilson disse:

    Como todo mundo já disse tudo aquilo que eu também falaria, resumo o meu “comments” em uma frase:

    EM SE TRATANDO DE SAÚDE, A AMÉRICA TAMBEM É UMA MERDA.

    Ps:- Moore é fora de série! Ele tinha, ou tem ainda, um programa que era exibido pela TV a Cabo. Louco, divertido e as-sus-ta-dor… 🙂

    Abração.

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