Meio milhão por um tapinha

Impossível não falar sobre História d’O e Sacher-Masoch sem lembrar do grande sucesso do nosso cancioneiro popular, Um tapinha não dói.

Já estava para finalizar o texto sobre Masoch quando vejo a notícia: Produtora da música “Um Tapinha Não Dói” é multada. Quinhentos mil foi o preço do tapinha. A Justiça Federal de Porto Alegre entendeu “que a letra banaliza a violência e estimula a sociedade a inferiorizar a mulher”.

Aí eu pergunto: mas e se ela pediu para apanhar?

Salve, salve, São Nelson Rodrigues! Longe de mim achar que todas gostem e mereçam. Muito pelo contrário. Aqui em casa, agora que não sou mais o único macho do pedaço, até sou criticado (por psicólogos profissionais e diletantes) pela “atitude sexista e discriminatória” ao ensinar, mui cavalheirescamente, ao meu pequeno varão que deve maneirar nas brincadeiras com a mãe e com as coleguinhas.

– Filho, a mamãe é o quê?
– Menina.
– Então…?
– Então tem que ter cuidado.

Mas dentro de alguns anos, quando ele estiver dando seqüência à interrompida carreira donjuanesca de seu velho e aposentado pai, o conselho certamente será diferente.

– Filho, a garota pediu o quê?
– Um tapa.
– Então dê ou ela vai procurar outro que dê.

Já dizia o sábio Marcelo Nova: “Todo homem que sabe o que quer/ pega o pau pra bater na mulher…” E só togados e castrados podem não entender verdade tão antiga quanto a humanidade.

Escandalizar-se com preferências sexuais alheias é quase como tatuar na testa “Ai, que vontade! Pena que não tenho coragem de fazer também” ou, no mínimo, passar recibo por toda repressão que seus instintos sofreram.

Modalidades, aperfeiçoamentos, carinhos, preliminares e conversas pós-ato são coisas para a pequena burguesia, para a classe média. Classe média gosta de complicar as coisas. Por isso trepa cada vez menos e fica cada vez mais chata. Sexo verbal é coisa para não-praticantes.

Nas extremidades das camadas sociais – a mais rica e a mais pobre – trepa-se a valer. Não há diferença entre a madame que quer ser algemada e chicoteada até o sangue lavar sua fina e delicada pele branca e a cachorra funkeira, de quatro, trincando os dentes e pedindo a seu homem uma mãozada no rabo.

Quem gosta, gosta. Satisfaça-se sua vontade. Ponto.

Bater em uma mulher, violentá-la, agredi-la é uma coisa. Atender a um pedido que lhe dá prazer é outra completamente diferente. Longe de querer fazer a defesa da, por assim dizer, “música” em questão, mas vale lembrar que sua letra explicita a vontade: “se te bota maluquinha/ um tapinha eu vou te dar”. É condicional: SE.

Isso nem chega a ser masoquismo, sadismo ou ambos. Faz parte do instinto animal, do sexo como ele é, feito com vontade, sem frescura ou manual de instruções, sem “assim não, benzinho”. Ficar parado, meditando, esperando atingir o nirvana sem troca de fluídos corporais é lindo, mas é coisa pra monge. Que sejam felizes. Sexo, no dia-a-dia, desde que foi inventado, é igualzinho ao que você vê os cachorrinhos ou os gatos fazerem. O resto é tentativa vã de civilizar-se, é instinto reprimido.

Essa condenação – cheia de pressa, vinda sete anos depois – me parece uma grande demonstração de falso moralismo, de hipocrisia e de desconhecimento das delícias do vai-e-vem. Ou, em análise totalmente hipotética, uma opressão do tipo “só nós, a elite, podemos nos divertir”. Fechar hotéis, juntar putas para fazer de tudo e pagar com dinheiro público pode; tapinha, não.

Sexo é uma selva de epiléticos… sexo é animal”, já bradou Tia Rita. É carnaval e rock’n’roll. E para quem sabe o que quer – com carinho ou com tapinha – segue breve trilha sonora:

Abres essas pernas – Velhas Virgens
O que é que a gente quer? – Velhas Virgens
Sílvia – Marcelo Nova
Sexo – Ultraje a rigor
Puteiro em João Pessoa – Raimundos
Bulica – The Funk Fuckers

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2 respostas a Meio milhão por um tapinha

  1. wilson disse:

    É. Parece que “um tapinha” DÓI, e muito, no bolso de alguém.
    Não deviam fazer um “Te Deum” por causa dessa música. É uma música dedicada às funkeiras – queiram ou não , é só para elas. 😛

    Para as “caxorras” (com “x” mesmo, e não cachorra) espezinhadas pelos machões(?)… Para as “preparadas” que já vêm prontinhas para serem escarradeiras ou, em bom português, assumem que são meros objetos. São caixas de porra! E gostam, adoram… Uh! Uh-uh!… É só um Sado-Maso básico, funkando às claras por esse Brasil puto, metido a Santarrão.

    A verdade é que esse país não gosta da “verdade”. Ela incomoda. E, se incomoda, inventa-se algo para amenizar o estrago. Por exemplo: Processa-se para fintar uma Moral que não se tem e não se terá.

    Ainda vivemos o mito “Santa, só a minha mãe” e da puta de um homem só… Olha que esse tipo de putas exitem aos montes por todos esses Brasís. Quer coisa mais Sado-Maso que isso?

    E o que tem de mulher levando “porrada”, facada, tiro, etc., por aí… Calam-se. Não reclamam… Creio que gostam… Uh! Uh-uh!…

    Mais vivo, mais acredito nas putas: Afinal, pagando bem, que mal tem?… E tem preço para todo o tipo de desejo do freguês… 😉

    Abração tipo algemas… 🙂 🙂

  2. Sandro Fortunato disse:

    Tapas que incomodam.. na Folha de 29 de março
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u386993.shtml

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