Masoch

Sangue e porrada na madrugada. Quando ainda era um rapaz ingênuo, muito antes de ter a mente deflorada por Anaïs Nin, Anne Desclos (Pauline Réage) e outras francesas que não só sabiam o que é bom, mas sabiam descrever tudo deliciosamente, eu acreditava que para existir um masoquista necessariamente deveria existir um sádico ou vice-versa. Assim tudo ficava muito bem, obrigado, quem fosse de apanhar que apanhasse, quem fosse de bater que batesse. Mas eis que a verdade me foi revelada e não!, não era bem assim. Pobre criança tola, esse Sandro.

Donatien Alphonse François (1740-1814), o conde que passou para a história como Marquês de Sade, passou 27 anos de sua vida vendo o sol nascer quadrado justamente para desmentir que se alguém quer bater necessariamente outro alguém quer apanhar. Ainda muito jovem, casado com uma rica burguesa, procurou profissionais do sexo (adoro esse termo!) para dar vazão a seus instintos. No entanto, naquele tempo (século 18), as profissionais não estavam assim tão especializadas e desconheciam o que, por conta dele, no futuro se chamaria sadismo. Um tapinha ainda ia, mas amarrar de bruços na cama, surrar com vara e chicote, ferir à faca e estancar o sangue com cera derretida de vela estava além do que o Sindiputa recomendava às suas associadas. Resultado: primeiro ano de cana.

No século seguinte, para mostrar que nem só a França era boa de sacanagem, o austríaco/polonês/tcheco/esloveno ou, como ele preferia, alemão Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895) colocava em evidência o outro lado da moeda. Já perto do final da vida (não chegou aos 60 anos), escreveu que “o amor não permite igualdade entre os parceiros. Se eu tivesse de escolher entre dominar e ser dominado, eu acharia sem dúvida a mais deliciosa escolha ser o escravo de uma bela mulher”. Até aí, fecho com você, Masô!

É claro que nem Donatien foi o primeiro sádico nem tampouco Masoch o primeiro masoquista. O termo masoquismo foi cunhado pelo psiquiatra vienense Krafft-Ebing e define “a tendência compulsiva a buscar ou experimentar prazer sexual no próprio sofrimento, físico ou moral”. O interessante é que, segundo alguns psicanalistas, “certo grau de masoquismo é inerente à feminilidade” e, na maioria das histórias, a mulher apareça como a figura submissa. Em todos os contos que li de Masoch, as mulheres são protagonistas. Como se sabe, muito do que ele escreveu é autobiográfico, portanto, é de se esperar que os homens também apareçam como figuras submissas. Há aí algo a observar: a diferença entre o masoquismo feminino e o masculino. É que os maus tratos típicos do masoquismo parecem ser uma preferência masculina. Daí a popularização da figura da dómina ou dominatrix.

Tenta-se explicar o masoquismo através da relação do masoquista com sua mãe (ou outra figura) dominadora e a disciplina escolar (que em muitos lugares inclui castigo físico). “O desejo de ser protegido por figuras poderosas, como pais e professores, talvez exija, no castigo, uma prova de capacidade de punir, pois tal capacidade é que afirma e caracteriza o poder delas”.

Sobre Sacher-Masoch, conta-se que tal necessidade revelou-se

“… ainda durante a infância, quando se apaixonou por uma tia. Certa vez, escondido entre os casacos de pele de um armário, ele a viu copular com um amante. O casal o descobriu e o resultado foi uma surra a que parece ter associado para sempre em sua personalidade uma confusa mistura de excitação sexual, sofrimento físico, humilhação e as sensações eróticas das peles durante a parte mais prazerosa do episódio. A partir daí (…) nunca mais perderia suas tendências ao masoquismo e ao fetichismo das peles”.
(Dicionário da vida sexual, volume 2)

 Aos interessados, há em português uma ótima biografia sobre Sacher-Masoch, escrita por Bernard Michel e editada pela Rocco.

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4 respostas a Masoch

  1. wilson disse:

    Como ninguém comentou, eu não vou comentar. Deixo, no entanto, uma historinha antiga (bem antiga mesmo! 🙂 ).

    Saímos do Teatro Maria Della Costa, eu, Eduardo e Regininha, e caminhamos pela Rua Paim, em direção ao Edifício Caravelle. Subimos para o apartamento, todos afim de “jogar conversa fora” até o “cú da madrugada”.
    Lá pelas tantas, nossa conversa foi interrompida por fortes pancadas na porta e insistentes toques na campainha.
    “Pára, caralho! Já vou abrir, pôrra!!!…
    Seria “os homi”? A ROTA, a RONI, a RUDI?… A Federal? Ou, então o Fleury?… Sim, porque no Caravelle acontecia de tudo e tudo poderia acontecer lá…
    Não. Era Cleidona (da cor do azeviche, da jabutica)- “muito loca”, cheia de hematomas, que inrompeu na sala, antes que a porta fosse totalmente aberta.
    Gritava: Me ajuda! O Léo vai me mandar para o espaço! Deixa eu ficar “mocosada” aqui, por uns tempos… Ele vai me matar!…
    Eduardo, meio de saco-cheio, mas cavalheiro, acomodou Cleidona no sofá; Regininha fazendo o tipo “chá e simpatia”, abraçou a amiga e quis saber de tudo.
    “O que te aconteceu, maninha? Você tá toda fodida… Fala, meu?
    E Cleidona, entre soluços começou a contar:
    “Seguinte: Tava numas de sair pelas a aí, e dar um tempo do Leo. O negão filhadaputa só pensa em encher o cú de cerveja, lá no Redondo e “cheirar farinha” lá nas quebradas da Ipiranga. Batí de frente com um pessoal, lá na 14Bis e fomos dar um “rolê” pelos botecos da Augusta. Putzgrila! A coisa foi esquentado. Uma cachaça daqui, um conhacão de lá, uns “pega” num “jero bão”, da Bahia; uns amassos e a coisa virou suruba.
    Depois da zona, um branquinho tesão paca veio comigo até a porta de casa. Na porta mesmo, rolou uns apertos, umas prensas, uns encoxa mela-cueca. E nesse bem-bom, chega o Léo. Meu, foi um barraco só. O branquinho queimou o chão e sobrou prá mim. Caralho! Vi que tava fodida!”
    O negão me empurrou prá dentro de casa e foi dizendo “um monte” – só não me chamou de santa! Foi dizendo enquanto me “baixava o pau” : “É pica que você quer, piranha? Pois vais levar pica até morrer, vagabunda!”…
    “Mana, faz uma semana que eu estou levando porrada e pirocada. O puto já me arregaçou de quatro – eu com a cara na privada, na lata de lixo, no tanque e, de frango assado, em cima da pia. Rê, tô arrombada, prejudicada. Tô sentado de ladinho… Nem sinal de pregas no rabo eu tenho mais. A perereca tá mais vermelha que gringo, quando toma sol na praia…E olha que eu sô criola!
    Regininha abraçou a amiga e conversavam. Eduardo preparou-nos algo forte para beber e continuamos o trabalho de confortar a Cleidona – que a essa altura estava no quarto uísque.
    Mais, calma, Cleidona, lamentava-se com Regininha: “Tô toda marcada. Olha só as mordidas e os chupões que ele me deu nas têtas. Filho da Puta, vou ficar com os peitos caídos!”… Olha a coxas, amiga. Veja como tão… Uma semana de porrada e pirocada… Porrada e pirocada…Só hoje consegui escapar. O puto chegou trebado e desabou na cama… Peguei a chave e tô aqui…” Suspirou. Suspirou de novo e, derrepente, começou a agitar-se. Estava exatamente igual, quando da sua chegada.
    “Calma, Clei. calma!” – pediu Eduardo.
    “Calma, o cacête!” disse Cleidona, levantando-se. “Preciso voltar, correndinho, antes que ele acorde.”
    “Mas, se ele já acordou, Clei?” – perguntou Regininha.
    Encaminhando-se para a porta, Cleidona virou-se para Rê e disse: “Se acordou, vai ser porrada e pirocada…Eu morro de tesão por aquele maluco “filhadaputa”.
    Sorriu e, sem um boa-noite ou um obrigado, abriu a porta e correu pela escada.
    Tesão é tesão. Não espera nada, nem mesmo o elevador…
    Naquele “cú de madrugada” Cleidona deixou algo de sí no partamento. Um calor, uma ansiedade estranha… E desejo… Uma vontade de sexo e devassidão… Ficamos mudos, olhares distantes, mas cheios de um fogo desconhecido…
    Não fui convidado a ficar para dormir, como sempre acontecia após altas noitadas. Sentí uma sensação de estar sendo “chutado prá rua”, mas não dei a mínima.
    Sentia um fogo interno que me obrigava a procurar algo – não a procurar a minha turma. Algo quente e sexual. Do tipo que fazem o “trotoir” nas calçadas da Nove de Julho…
    Não estava nem um pouco afim de “fazer trabalhos manuais”…
    Segunda, pela manhã, Edu liga perguntando: “Cê entendeu o que aconteceu com a gente, na sexta?” Cê foi embora e eu e Rê entramos numa de sexo louco, com direito a “comida” na área de serviço e na escada do prédio. Rê me chamou de pica-mole, e eu a chamei de cu largo! Pode? Nos estapeamos, nos mordemos… Cê entendeu o que aconteceu aqui?…
    Talvez a puta com quem estive não tenha entendido. Mas eu entendi.
    Ficou apenas uma dúvida: Foi o nosso lado sado-masoquista que veio à tona, ou então, tudo quanto era Pombagira vieram com a Cleidona e resolveram deitar e rolar nos nossos desejos sexuais mais secretos…
    Rí e respondí ao Eduardo. “Se entendemos ou não, não importa.” E com um toque safado na voz, eu disse: “O que importa é… Foi bom, meu bem?…”
    Uma sonora gargalhada veio do outro lado da linha, junto com a resposta do Edu: “Foi óóótimo!!! 😉

    Abração..

  2. Sandro Fortunato disse:

    Este foi o melhor não-comentário nestes três anos e meio de blog. 🙂 Essa é a idéia: somar ao dividir as experiências. 😉

  3. Bela disse:

    Algumas coisas eu não sabia.. Outas me diverti muito.
    Gostei daqui e vou voltar.
    Dá uma passada no meu Clube Sm…
    http://www.clubedominna.com
    Abraços

  4. Excelente, bem narrado, sem pretensões.
    Boa utilização do vocabulário local e gíria.
    Estes climas internos carregados de nuvens de violência e sexo contagiam.
    Fiquei com inveja – queria estar ali – e sentir a sensação do esgoto quando desentope.

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