História de O

Só muito recentemente aprendi a ler. Aos três anos já estava praticamente alfabetizado, mas demoraria quase três décadas para aprender a ler. Sempre devorei livros, mas só chegando aos trinta, comecei a perceber que, apesar de lidos, muitos não haviam ficado em mim. Alguns porque não li no momento certo, outros porque não li de forma adequada. Quando percebi isso, comecei a ler vários deles outra vez. Agora com a devida atenção.

História de O foi um deles. O que um menino de 17 ou 18 anos pode tirar desse livro? Os couros, as correntes e toda a história podem atrair pela fantasia de dominação, de mandar em vez de ser mandado, de bater em vez de levar umas palmadas, mas o que alguém que está saindo dos cueiros pode realmente saber sobre desejos inconfessáveis, sobre taras e manias que, mais tarde descobrirá, são “quase todas quase normais”?

Reli, melhor, li História de O com a sensação de estar ouvindo a confissão de uma jovem que se acha pervertida para ao final poder dizer a ela: “Relaxe. Isso é só sexo”.

A submissão de O, para muitos, pode soar apenas como uma alteração mórbida, falta de amor próprio, de auto-estima, de objetificação da mulher (a começar pelo nome da personagem, a letra “O”, de objet/objeto, de orifice/orifício, mais que isso, a representação gráfica de um buraco). Mas não consigo ver assim. Nada é forçado. O tem donos, mas a todo instante é perguntada se deseja prosseguir. E ela sempre quer. Porque, no seu caso, a total submissão é a forma de sentir prazer. É sempre uma troca. Ao ser usada por tantos, ela usa cada um para se satisfazer. Por outro lado, só experimenta realmente o êxtase em uma relação sexual quando se aprendeu que é mais importante dar prazer ao outro. E O, aparentemente escrava, é mestra nisso. Mesmo estando acompanhado, pensar primeiro em seu próprio prazer não é mais que uma variação de sexo solitário. Isso sim é bizarro.

Outra de minhas manias recentes é (re)ler um livro e assistir à degeneração, digo, adaptação cinematográfica. Pode parecer sadismo, porque provavelmente vou falar mal, mas é masoquismo, porque vou sofrer durante e depois do ato, digo, da sessão. Histoire d’O, o filme, também é francês, o que já deixa menos perigoso assisti-lo. Mas como mostrar as sensações descritas por O no livro? A maneira mais óbvia, talvez a única, seria colocá-la como narradora. Feito isso, como narrar tudo em uma hora e meia ou duas? Não há como. Sem falar que a versão cinematográfica, no quesito chibata, teve o cuidado de não escandalizar os mais sensíveis, o que resulta em suave brincadeirinha sadomasô provavelmente já superada por qualquer um que esteja lendo isso.

O filme é de 1975 e foi dirigido por Just Jaeckin. Há carinhos demais, sorrisos demais, rebeldia demais e chicote de menos. Vale pela beleza de Corinne Clery, na flor de seus 21 aninhos (completando 58 neste domingo de Páscoa). A francesa depois fez carreira na Itália. Não tem filmes muito conhecidos. Além de História de O, para nós, há sua participação como bond girl em 007 contra o foguete da morte, nos tempos de Roger Moore, sempre citado como um dos mais fracos da série. Por aqui, sempre lembramos dele por conta daquela cena tosca no bondinho do Pão de Açúcar.

No início dos anos 1990, foi feita uma série para TV com atores brasileiros da qual sei quase nada. Vi trechos e sei que existe em DVD fora do Brasil. A produção é pobre, mas a história parece ser contada de forma mais completa. O erotismo também é à brasileira, mais explícito. O diretor da série, Eric Rochat, foi produtor do filme de 1975.

Há também uma versão desenhada por Guido Crepax e editada em três volumes. Diria que é a mais recomendável e a primeira que deve ser conferida após a leitura do livro. Não tive o prazer (nos mais variados sentidos) de degustá-la por completo, mas Crepax é Crepax.

Interesse reavivado por O, coloquei Masoch na fila de leitura (santíssima a minha semana). Falo a respeito no próximo texto.

Esta entrada foi publicada em Cinema, Desenho, Erotismo, Literatura, Livros, Quadrinhos. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

6 respostas a História de O

  1. wilson disse:

    Putz! Já ví que a sua Semana Santa foi muito movimentada…
    Fico só imaginandoa cena, nesse seu surto Crepax: Pilatos, de cuecão de couro, comandando a Dominatrix que açoita Jesus… 😛

    O livro é bastante perturbador a princípio. Depois – penso que por puro masoquismo. ousadismo, sei lá 😛 – a gente vai se acostumando e viajando nas sensações da narrativa.

    Piração de um mundo que está por aí e muita gente faz-de-conta que não existe. Mas está aí,e dentro de nós, esperando algo que rompa as barreiras e asperamente nos pergunte: “O que é você?! Sadista ou Masoquista…” Aí o bicho vai pegar.

    Veio à minha lembrança uma charge que vi na Internet. Branca-de-Neve vestida em justíssimo couro preto, tendo a seus pés o Principe encantado, peladinho, preso a uma coleira a beijar-lhe as botas de bico fino e salto altíssimo.
    Enquanto ele faz isso, Branca-de-Neve, com seu chicote, arraza as bundinhas, já bastante vermelhas, dos 7 anões que gemem e gritam, masturbando-se frenéticamente… Ao fundo da masmorra, na obscuridade, a Rainha malvada masturba-se com frenesí, dizendo para si mesma: “Esta é a minha menina…” 🙂

    Abração.

  2. Ana disse:

    Oba! Sacanagem em domingo de Páscoa, adorei!

  3. Eu simplesmente a-do-ro esse livro! Tem momentos absolutamente geniais de poesia pura e é um banho de estilo. Conheço também a versão de Guido Crepax e para o cinema há uma versão brasileira esquisitíssma com… adivinhe: Carla Camuratti no papel de “O”, quando ela ainda muito novinha e lidinha não era famosa. O filme é um lixo. Mas há uma versão francesa disponível que baixei um dia desses para o meu notebook e nao pude assistir pois nao consegui transformar a porra do arquivo, que era .mkv para .avi… Baixei um monte de programas esquisitos, futriquei daqui, dali e nao consegui. Uma pena.

  4. Sandro Fortunato disse:

    Vixi! Carlinha Camurati (olha a intimidade!) como O? Eu acharia o máximo! Mas desconheço esse filme. E olha que acho que já vi todos que ela fez, incluindo O Olho Mágico do Amor, o primeirão dela. Essa versão não é a que eu falei? Nela, quem faz O é Claudia Cepeda.

    Esse filme francês que você fala é o de 75. É possível visualizar arquivos mkv com vários programas. O mais simples deles é o VLC Media Player. Baixe, relaxe e o resto você já sabe. 😉

  5. Renata Silveira disse:

    Antes que degoles a minha cabecinha…
    Sei que prometo e não cumpro… no tempo certo. Mas o que é devido está guardado 🙂
    Ando percorrendo alfarrábios como penitência pós-carnaval…

    Coisa triste, triste mesmo, foi eu ter perdido (por ter emprestado e não me terem devolvido – e já não lembro-me a quem…)a minha edição da História de O, ilustrada pelo Guido Crepax. Penso que foi um dos quadrinhos mais marcantes, dos que li aos meus 18 anos.
    Se aquele que ficou com meu livro estiver porventura a ler estas linhas, saiba que até hoje não me recuperei da perda e ainda é tempo de fazer uma amiga feliz… Meus livros (todos) tem o meu nome em alguma das suas páginas internas… Ninguém fica com eles de consciência tranquila! E este, em particular, deve estar ansioso por voltar para casa.

    Há dois anos li uma tradução portuguesa do livro…

  6. Jandiro Adriano Koch disse:

    Já tive esse livro em mãos algumas vezes, mas nunca comprei. Não tenho idéia do que me impediu de levá-lo para casa. Não que desconhecesse a fama do livro. Não que não me interesse por esse tipo de literatura. Coisas da vida.
    Acho que depois que descobri Anais Nin restringi meu interesse. Acho que é insuperável. Isso falando de literatura nesse foco feita por autores estrangeiros.
    No entanto, depois do texto e da avaliação do feita por vocês, abocanho o próximo exemplar de História de O . Abraços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *