Eles gostam de aparecer por aqui

O desenho de Hermes na Caros Amigos deste mês era o que estava faltando para me fazer escrever. Nos últimos dias tenho estado tão envolvido em meus projetos pessoais que acabei boicotando toda tentativa de texto. Achei que seriam (mais) chatos (que o normal). Mas, afinal, este não é um blog dos mais comuns. Nada de Ctrl+C/Ctrl+V de poeminhas e textículos, quase nunca uma opinião sobre algum tema quente.

Vivo com meus fantasmas, como o Fred Balcão, personagem de Hermes. E hoje, quando abri a revista, o desenho de Fellini pulou antes mesmo de eu perceber que página era aquela. Fellini é um dos meus queridos fantasmas. Estava para falar mais uma vez sobre ele esta semana. Comprei recentemente uma edição da revista Realidade (faltam poucos números para completar a coleção) que trazia uma matéria que poderia ser boba, mas me pareceu interessante: Um dia na vida de Fellini.

O texto introdutório me surpreendeu pois dizia ser ele “um homem que não gostaria de deixar sinais de sua presença no mundo, ‘para não ser jamais julgado pelas coisas que fiz”. Sim, a matéria era sobre o Fellini que você pensou, o Federico. Só mesmo um gênio para pensar e brincar com essa impossibilidade.

Àquela altura, agosto de 1973, Fellini já havia dirigido três filmes ganhadores do Oscar de Filme Estrangeiro (língua não-inglesa) e estava prestes a ganhar outro com Amarcord, filme que nem coloco em minha lista de melhores de todos os tempos, pois acho uma covardia compará-lo com qualquer outro.

Essa mesma edição trazia Hitler na capa. Dentro, 16 páginas com trechos de uma série de dez artigos escritos por Werner Maser para a revista alemã Der Spiegel e adquiridos com exclusividade, por Realidade, para reprodução no Brasil. E ainda: 73 de 135 fotos escolhidas pela Associated Press como as melhores que haviam passados pela agência até então e um resumo do livro, à época ainda inédito no Brasil, The Hindenburg, de Michael Mooney, sobre o incêndio do dirigível nazista. Que revista era Realidade, hein? E essa edição estava longe de seus melhores momentos.

Tenho estado imerso nas páginas de Realidade, mas precisamente em seus primeiro anos – 1966 a 1969 – por que estou dando os toques finais na primeira parte do meu acervo que ficará disponível para consulta no Memória Viva a partir do próximo mês. Não se trata de digitalização e reprodução das páginas, como muita gente pensou e divulgou quando falei desse trabalho em relação a’ O Pasquim (as primeiras edições do jornal também estarão disponíveis para consulta nessa primeira fase). É uma catalogação. Falarei mais a respeito na próxima semana.

Esses primeiros anos de Realidade são os que têm Paulo Patarra, um de seus fundadores, como redator-chefe. Patarra morreu em janeiro deste ano. A Caros Amigos de fevereiro traz sua “última conversa gravada”. É nessa edição que tem também uma imperdível entrevista com Marcos Bagno, lingüista, professor da UnB, autor do livro Preconceito lingüístico – o que é, como se faz (em 49ª edição), fundamental para qualquer escrevedor de brasileiro. De forma sábia, a revista admite que “certamente por ignorância, a gente ‘descobriu’ só agora um representante do grupo de lingüistas que está virando de cabeça pra baixo o português que todos aprendemos na escola”. É impossível ter contato com o pensamento de Bagno e se manter o mesmo. Concordando ou discordando. Desde que comprei o livro citado na Livraria Universidade, próxima ao Restaurante Universitário da UnB, há alguns anos, me vi livre dessas bobajadas (uau!) sobre “escrever português corretamente”. Sobre a necessidade de saber se expressar e sobre a imbecilidade dos caçadores de erros alheios, escrevi aqui, em novembro de 2006, nos textos Comunicação, expressão e a falência das normas e Eu se amarrei no sugerimento do Dunga. Valem uma relida.

Bagno, na edição deste mês, estréia sua coluna Falar brasileiro. Bola dentro. Se você tinha medo do Pasquale e congêneres, liberte-se com a leitura de Marcos Bagno. Também nessa edição, entrevista com Luis Nassif. Ponto principal: o pau com a Veja. Leia.

Estou de volta à revista que trouxe o desenho que abriu este texto e com a impressão denunciada pelo personagem que chamou minha atenção. Nele, o cineasta italiano, assim como eu, percebe “minha vida passou tão rápido. Ela me parece um longo filme de Fellini, sem cortes”. É assim que tenho vivido. Ainda bem!

Volto depois que for embora o “coelhinho da Paz”, como diz Pietro na sabedoria de seus quase três anos. Boa Paz a todos.

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5 respostas a Eles gostam de aparecer por aqui

  1. Diego Viana disse:

    Vivam os fantasmas! Sem eles, eu não viveria… (E vejo que você sabe o que isso significa!)

  2. Sandro,
    Sobre “um homem que não gostaria de deixar sinais de sua presença no mundo”, recordo que li um conto numa coletânea de terror que também aborda o assunto. (não me lembro do autor. Era um livro velho, sem capa, emprestado por alguém). O conto trazia a história de um criminoso que cometia seus crimes unicamente pelo prazer de não ser descoberto. Com o tempo, a paranóia dele foi aumentando e ele desenvolveu um desejo de não ser visto por ninguém, passando o resto da vida isolado do mundo. O contrário desses tempos de big brother.

    Sobre preconceito lingüístico, lembro de um artigo (também não me lembro o autor), que dizia que quando o erro é cometido pela elite, é incorporado na norma e deixa de ser erro. É o caso da palavra branco, cuja grafia certa seria blanco. Mas quando o erro é dos pobres aí vira erro eterno mesmo.

  3. Sandro Fortunato disse:

    THIAGO, provavelmente você leu algo do próprio Bagno ou de alguém que segue sua linha. Ele fala sobre isso em seu livro – Preconceito lingüístico – e também na entrevista, conforme reproduzo: “… algumas formas lingüísticas gozam de prestígio na sociedade e outras sofrem estigma. As que gozam de prestígio são aquelas usadas pelas camadas dominantes da sociedade. Quando há uma inversão desses papéis sociais – como aconteceu na França do século 18 com a Revolução Francesa –, quando uma classe social assume o poder, evidentemente a sua maneira de falar vai passar a ser considerada a mais bonita, a mais correta, aquela que deve ser imitada”. Na seqüência, perguntado se no caso do Lula se daria a mesma coisa, Bagno dá um show. Ele é um puta professor! Tipo do cara totalmente seguro e embasado, que só fala a respeito do que domina. Sobre Lula, em resumo, diz que “ele não representa uma revolução lingüística, porque é um indivíduo, e as revoluções se fazem de maneira coletiva”.

    Quanto ao rotacismo, ele explica: “Quando estudamos a história da língua portuguesa percebemos que muitas palavras que hoje têm um encontro consonantal com r, como por exemplo branco, escravo, igreja, prata, praia, na língua de origem, principalmente no latim, aparecia ali um l, então prata em espanhol é plata. Escravo era esclavo… Então o brasileiro que fala Cráudia, chicrete, Rede Grobo está seguindo simplesmente uma tendência milenar da língua portuguesa”. Em seguida, cita os Lusíadas, de Camões, onde encontramos ingrês, pubricar, frauta, froco de neve, frauta… Falei sobre isso no texto Eu se amarrei no sugerimento do Dunga.

    O que Bagno combate é O PRECONCEITO. Não a chamada norma culta, mas sua imposição em detrimento da história natural e da transformação da língua. E só tem preconceito, seja ele qual for, o ignorante da História.

  4. Tião disse:

    “Preconceito linguístico” é um pequeno grande livro. Pra mim também foi leitura que reverteu pontos de vista de maneira definitiva. O que eu não sabia era que o homem é professor da UnB, aqui pertinho da gente. Bom saber. A PROPÓSITO: no post mais recente do SOPÃO, cometi uma injustiça: esqueci de indicar o texto em destaque aqui no “Sempre algo”. Vou corrigir já.

  5. wilson disse:

    🙂 Fellini adorava “farsi bello per guadagnare confetti” (dar uma de bonzinho para ganhar confeitos (balinhas, docinhos)). 🙂 Era humilde sufucientemente para passar a impressão de uma insegurança que nunca teve. E, nessa conduta, está a diferença que o coloca entre os maiores do cinema mundial.

    Os meus fantamas são muitos e adoram ser reconhecidos. São lembranças e recordações. Mas, o diferencial está no fato dessas lembranças e recordações terem voz, sons de passos, risos, lágrimas, odores perfumados ou não. Diante deles tenho consciência do Concreto – seus volumes ocupam o espaço e o tempo. Ao contrário daquelas lembranças e recordações que “aparecem” sempre envolvidas por uma névoa de distanciamento e um tanto fragmentadas.
    Adoro os meus fantasmas. Eles se resumem no que fui e no que sou e, de muitas formas se refletem no que serei.
    Adoro esses assombramentos contínuos. A única dúvida que tenho é – o “X” do problema – Eles me assombram ou sou eu que os assombram?… Acho que não tem muita importância saber, pois nosso convívio e pacífico e produtivo.

    Uma Língua é sempre um problema. “Em Português nos comunicamos.” Será?… Vai lá em Moçambique, Angola; Vai lá no Timor; circule pelas regiões do Brasil… Uma Língua é normativa, artificial. Os Falares são outro caso. Falares são vivos, mutantes, evolutivos -positiva e negativamente. Esse Galegão a que chamamos Português, enquanto Falares, não pode ser estático. Senão acaba virando língua morta.

    Quanto ao preconceito:
    Foi um escândalo quando a apresentadora disse: “I” de Escola!
    Camões revirou-se na tumba. A ABL infartou; mandou buscar exorcistas no Vaticano… E, no entanto…
    No entanto, a apresentadora estava certa. Nos falares português, ninguém diz ESCOLA. Tooodos dizem ISCOLA, não é mesmo?… A letra “E” vai, paulatinamente desaparecendo dos falares do Brasil… I daí? Algum pobrema?…
    E quando se usa a Língua mistaurada aos falares, a “coisa” pega… Fica ridículo:
    Os casos do cu novo; cu dele; cu dela…
    Um comercial da Colgate. A apresentadora, no seu melhor português fala das maravilhas do creme-dental e fecha o comentario dessa forma:
    “… as cáries… Previna-as cu novo creme dental Colgate…”
    Outra pérolas existem… São os falares portugueses…
    E nada como um patuá caseiro para tornar a “cunversa” mais agradável. A “última “frô” do Lácio” que me desculpe eu… 😛

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