Orgulho e preconceito

– Ficcionista de merda que você é! Típico escritor frustrado que resolve ser jornalista para compensar a falta de talento literário. Olhe ao redor. Músico frustrado, poeta frustrado… Jornalista de verdade, três ou quatro. Que saibam escrever, uns dois.

Silvino escutou calado. Assim como toda a redação. Klaus era um descendente de alemão que mais parecia um armário que um jornalista. Incluía-se nos “uns dois” que havia dito saber escrever. Quando algum desavisado perguntava onde havia se formado, respondia: “Na vida”. E o diploma? “Papel muito grosso. Serve nem pra limpar a bunda”.

Era bom no que fazia e não aliviava para ninguém. Quando Silvino veio perguntar a ele se não poderia ter sido menos ácido na crítica que fizera ao seu livro de estréia – “livro de um colega de redação” –, Klaus foi logo mandando que enfiasse o corporativismo no rabo e “colega de cu é rola, que eu não sou colega de analfabeto, muito menos de viado”. As bichinhas da redação sumiram atrás dos computadores.

Diplomacia passava longe. Silvino deveria ter pensado nisso antes de deixar um exemplar de Te encontro em Paris na mesa do não-colega. Brisa fresca na literatura era a chamada sobre as cinco linhas cuspidas pelo alemão.

Dentre tanto lixo despejado pelas editoras nas livrarias, surge Te encontro em Paris, de Silvino Neto. Escritor fresco – é seu primeiro título –, o autor sai das páginas do jornalismo para aventurar-se no desconhecido terreno da ficção. Contribui para o grande aterro com deslumbres caboclos e português desprovido de preconceitos. Há todo tipo de escritor e todo tipo de leitor. Hão de encontrar-se. De preferência, em Paris.

Duplamente humilhado, Silvino vai para casa e chora. Senta ao computador. “Aquele filho da puta vai ver quem é o ficcionista de merda”. O esbregue serviu como inspiração.

Também em casa, Klaus finaliza o oitavo de seus romances. Todos inéditos. Ao sentir a mão em seu ombro, pergunta:
– O que achou, amor?
– Tudo que você escreve é perfeito – respondeu Carlão, antes de puxá-lo para a cama.

* * * * *

O contículo acima deverá estar, em breve, junto a outros dentro daquele negócio antigo chamado livro. Aguardem!

* * * * *

Aproveitando a temática, não posso deixar de indicar o blog De bunda pra lua, um sarro em cima do Big Brother e do blog De cara pra lua, que quase faz com que eu me arrependa por não ter acompanhado o programa. As gozações (ops!) em cima do médico-psicopata são ótimas! Destaque para o ensaio de “Marceleza” para o site “Paparrabo”.

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Uma resposta a Orgulho e preconceito

  1. wilson disse:

    Mas que “Mona” mais filhadaputa esse Klaus!
    Ele é um caso clássico de “A Raposa E As Uvas”, de Esopo. 🙂

    A Moral desse conto, com certeza, deve ser:

    Não importa o que digam ou pensem. Persegue o teu Sonho até torná-lo realidade. Perseverança é tudo.

    Ou, então: No âmago de cada crítico literário existe uma bichona nervosa, insegura, frustrada, com pretensões literárias…:P

    Antes que me processem: É claro que há muitas excessões – Graças a Deus! 🙂

    Aos escritores eu aviso:

    Cuidado. Milhares de pessoas vão fazer com que vocês subam cada vez mais alto. Por que os amam? Não! É por que elas têm uma obsessão patológia por quedas quedas espetaculares… Pensem!…

    Abração…

    Ps: Blz de conto. 🙂

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