Dilma e a atualização do passado

“Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desta forma, era possível demonstrar, com prova documental, a correção de todas as profecias do Partido; jamais continuava no arquivo uma notícia, artigo ou opinião que entrasse em conflito com as necessidades do momento. Toda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quanto fosse necessário”.
1984 – George Orwell

Começo todo texto com conteúdo político ou que assim pareça com um aviso: sou anarquista. Para ficar claro: não voto em ninguém. Para que ninguém tenha dúvidas: Hay gobierno, soy contra. Mas não faço disso uma bandeira. Trata-se de um posicionamento extremamente pessoal. EU sou contra, mas admito que se com alguns estalando chicotes o mundo está como está, imagine como não estaria sem isso! Sou tão anárquico que, em última instância, sou até mesmo contra a anarquia.

Portanto, aos que usam, desfaçam-se de suas viseiras político-partidárias e entendam que este texto pretende falar de revisionismo e manipulação de informação com o intuito maniqueísta de tocar o gado para outro pasto.

Há cinco anos, a panfletária revista Veja (que deveria retomar seu antigo slogan e acrescentar a ele um grande “não”: Veja e NÃO leia) apresentou uma pequena matéria intitulada O cérebro do roubo ao cofre, na qual se falava do “passado pouco conhecido” da então ministra das Minas e Energia, hoje Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Vana Rousseff. Desde então, a matéria – que tomei como meramente informativa – virou folheto eletrônico, estilo pps, que pretende mostrar “o passado e o presente de uma assaltante”. Com as histórias de uso indevido dos cartões corporativos, um dos mais recentes “escândalos” (só sendo idiota para não saber que essa bandalheira SEMPRE aconteceu) do atual governo, o panfleto eletrônico foi atualizado e ganhou nova força. Revestido de toda inocência que ainda me resta, acredito que a provável indicação do nome da ministra para concorrer ao Planalto não deve ter influenciado essa nova edição. Deve ter sido mera coincidência.

De forma jocosa, a mensagem intitulada Trajetória criminosa faz uma introdução à história do roubo do cofre do governador paulista Adhemar de Barros, em 1969. Em menos de meia hora, 2,5 milhões de dólares mudaram de mãos. A companheira Stella – codinome de Dilma – era o tal cérebro por trás da ação.

Interlúdio para curiosos. Se, nos dias de hoje, o governador de São Paulo cumprir dois mandatos consecutivos – oito anos – e juntar todos os seus salários, sem gastar um centavo, incluindo férias e décimo terceiro, e colocar em um cofre na casa de sua amante no Rio de Janeiro (desculpem, eu havia esquecido de dizer que o tal cofre roubado estava no Rio na casa de uma amante do governador), ele deverá conseguir juntar algo perto de um milhão de dólares. Mas, claro, tendo sido ganho honestamente pelo administrador de um estado que tem como capital uma das maiores cidades do mundo, esse dinheiro estaria rendendo em algum bom investimento no setor bancário, imobiliário, agropecuário ou outro ário. Fim do interlúdio.

Em resumo: depois da introdução e da reprodução da matéria de Veja – negritada em várias passagens – o panfleto diz que temos uma criminosa, uma ladra como ministra.

Eu, SINCERAMENTE, acredito no amor e na devoção às ideologias. No caso do período de governo militar no Brasil, CREIO que muitos militares acreditavam estar defendendo o país de uma grave ameaça e que deveriam FAZER QUALQUER COISA para detê-la, inclusive matar. Também CREIO que os chamados “terroristas” e “subversivos” acreditavam estar defendendo a liberdade e que deveriam FAZER QUALQUER COISA para restituí-la, inclusive roubar e matar. E eu ATÉ ACREDITO que EM ALGUNS INSTANTES, ALGUNS militares e alguns “subversivos” eram apenas pessoas com idéias diferentes. Tudo muito legítimo.

Eu acho que a REVOLUÇÃO MILITAR pode ter sido honesta e legítima. Acho que muita gente acreditava mesmo estar combatendo a “ameaça comunista” e que ela deveria ser varrida a todo custo para que a democracia fosse restabelecida. Os militares diziam isso, a imprensa fez coro, o povo adorou. Só que na hora em que se passa por cima daquilo que se diz defender, aí está decretado o fim da legitimidade de uma ação. A democracia não veio e o que era revolução mostrou-se GOLPE, mera tomada de poder à força.

Outro interlúdio.Agora, caçaremos os comunistas por todos os lados do país. Mandaremos mais de 2.000 agentes comunistas – numa verdadeira Arca de Noé – para uma viagem de turismo à Rússia. Mas uma viagem que não terá volta. Que falem em democracia, agora, na Rússia”. Palavras de Adhemar de Barros em sua primeira entrevista após o golpe, deixando claro que democracia não era bem a palavra de ordem ao combater a “ameaça comunista”. Fim do outro interlúdio.

Em política não há santos ou inocentes. É tal e qual uma guerra: você entra para matar ou morrer. Mas isso tem que valer para os dois – ou todos – os lados. Revogados os princípios morais, vale tudo. As prometidas eleições não vieram, instaurou-se a censura e o governo podia prender, torturar e matar quem fosse contra suas idéias. Estava instituído o vale-tudo.

Os papéis se inverteram: quem era mocinho virou bandido e vice-versa. Havia uma nova revolução pregando a liberdade que os antigos revolucionários diziam defender. O resto é História e o que me preocupa é justamente isso: o desconhecimento e a revisão da História.

Dilma – ou Stella, como preferir – roubou e participou de atos terroristas, isto é, de ações violentas contra as instituições vigentes? Sim. Ela poderia ser (e foi) condenada judicialmente por isso? Sim. E moralmente? Creio que não.

Como dito na própria matéria, Dilma “não teve participação física na ação. ‘Se tivesse tido, não teria nenhum problema em admitir’, diz a ministra, com orgulho de seu passado de combatente”. Verdadeira. Honesta. Coerente. Não pretende, agora no poder, fazer qualquer revisão histórica e fazer esquecer qualquer ato que tenha praticado. Honestíssima e de caráter invejável.

É comum aos governos totalitários a tentativa de reescrever a História. Dilma Rousseff não faz parte de um. Aliás, as fichas dos arquivos militares nas quais suas atividades “criminosas” estão registradas podem ser consultadas e até publicadas nos meios de comunicação justamente por isso: porque hoje vivemos numa democracia.

Parece fácil tocar os novilhos – as gerações mais novas – para qualquer lugar e fazê-los acreditar em versões que invertam os valores e se aproveitem de sua ignorância (no sentido mais literal, de desconhecimento dos fatos) e falta de vivência em relação a uns dos períodos mais sombrios de nossa História.

Assim como Dilma foi de guerrilheira à ministra, eu poderia um dia deixar de ser anarquista e fazer uso do meu título de eleitor. Poderia até deixar minha iconoclastia de lado e votar numa pessoa pelo simples fato de ela ser quem ela é, independente de seu partido e das idéias que ele defende. Na possibilidade de Dilma Rousseff ser candidata à presidência, há em mim um forte impulso em promover tal mudança.

Na vida política, essas reservas de coerência e moral são raras. A essa mulher, que foi presa, torturada, sobreviveu e venceu, juntam-se outras de menor evidência mas não de menor importância. Um dia antes deste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, sete outras tiveram indenizações estipuladas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Uma delas é Clara Charf, companheira de Carlos Marighella, uma octogenária que agora tem direito a uma indenização mensal vitalícia de irrisórios R$ 2.520, valor do qual poderia, mas não irá recorrer. Suas palavras resumem o que pretendi dizer com este longo texto sobre o descabido ataque virtual a Dilma: “O Estado jamais vai poder pagar as vidas das pessoas. O que a gente tem que pedir é que isso não se repita no Brasil. O mais importante não é o dinheiro, mas o valor dessa comissão para tornar público o que aconteceu”.

E você? Você que viveu os tempos da ditadura ainda tem medo de tornar pública sua opinião? E você, mais jovem, que não viveu, tem dentro de si um medo do qual desconhece o motivo? Clique aí nos comentários e exercite sua liberdade. O que eu tinha a dizer está dito. Publique-se.

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7 respostas a Dilma e a atualização do passado

  1. Anahi de Castro disse:

    Pela primeira vez, temos idéias parecidas sobre uma pessoa pública. Dificilmente saio em defesa de alguém quando se trata de assuntos políticos, mas eu seria capaz de inaugurar esse meu lado em favor da Ministra Dilma. É verdade que tenho incrustado em mim o gene brasileiro da descrença nas atividades “políticas”, mas é extremamente necessário que isso seja revisto em prol de uma sociedade que requeira maior participação e exiga a prestação de contas dos nossos funcionários (políticos profissionais eleitos). O governo por definição é uma instituição ineficiente, mas necessária para a sociedade. Não há Estado sem governo. Devemos ser realistas e trabalhar com as instituições vigentes para que o melhor seja realizado. E é acreditando sempre em um futuro melhor pro meu país (sim, sou patriota, não sou ufanista, mas acredito no meu país. Como não acreditar em uma terra que se fez chão para eu nascer?) que, segundo as minhas crenças e valores, desejo que o Brasil tenha a sua primeira presidenta. Estamos em uma democracia, talvez as minhas idéias não sejam as da maioria, mas tenho a certeza de que um forum político plural é muito importante para o amadurecimento político do nosso país.

  2. wilson disse:

    A Vitória é somente uma alegoria.

    Numa guerra ou revolução, não existem vitoriosos, todos são perdedores. Todos choram e enterram os seus mortos. Não há Paz – ela também é uma alegoria. Mas fica o Ódio reciproco. Revoluções ou guerras não terminam. Tornam-se um grande armistício que podem durar meses, décadas… Penso nisso e lembro uns fragmentos de versos de Seara Vermelha, de Jorge Amado: “Cresce cresce Seara Vermelha. Cresce cresce vingança feróz…”

    No “post” sobre Fidel eu te disse que neste país haviam três loucos: Você por postar e dois por comentar. Loucura? Ou coragem!…

    Viví a ditadura do começo ao fim e a guerrilha também. Perdí o respeito por ambas, por que no fundo visavam o mesmo objetivo: O TOTALITARISMO
    de esquerda ou de direita, mas totalitarismo.

    Tanto uma quanto a outra se outorgavam a badeira libertária e usavam-na como desculpa por tudo aquilo que cometiam. A Igreja, a América, a Rússia e a China de Mao davam as cartas. As primeiras, favoráveis à “gloriosa” revolução de março, as últimas apoiavam as guerrilhas.

    Tempos difíceis e incômodos, onde Dilma, Lamarca, Marighella, etc. e os sustentáculos da ditadura viviam as suas verdades… Pena que a VERDADE seja uma alegoria também.

    Nesse período todos são vítimas e réus; culpados e inocentes e, com certeza, perdedores.

    Desse tempo ficou, em pleno século XXI, o medo, a impotência e muito da lavagem cerebral feita por ambas as partes.

    Pessoas que se aterrorizam ao ouvir mencionarem “Ditadura”, ou então, esquecendo décadas de censura, afirmam que no tempo dos militares tudo era melhor… não havia tantos crimes…CENSURA, gente, CENSURA!

    Vez em quando, paro na rua ou praça e fico olhando para os mais velhos, os meus coetâneos e penso se eles lembram daqueles tempos ou apagaram qualquer lembrança, como uma forma de exorcizar as próprias culpas; as minhas culpas… Todos somos culpados pelo menos por indiferença e omissão.

    Aqui, eu lembro do diálogo de Hannibal com a agente do FBI, no “Silêncio dos Inocentes”, que na verdade é “O Silêncio dos Carneiros”: Hannibal exige honestidade e sinceridade na resposta. E a agente conta a ele sobre o silêncio dos carneiros… A honestidade e a sinceridade a salvaram.

    Penso que um dia as pessoas, a História falarão sobre a ditadura com honestidade, deixando de lado meias-histórias.

    Fui marcado por dois acontecimentos desse período. O sangue do Marighella lá na Alamenda Casa Branca com a Lorena e um Cabo da PM morto dentro de uma viatura policial, fotos que o NP estampou na primeira página… Foi-se o séculoXX, foi-se o NP e eu ainda vejo as fotos. Nem ganhadores, nem perdedores…

  3. joão disse:

    Sandro.
    Quando instalou-se a ditadura no Brasil eu tinha oito anos de idade. Quando ela acabou eu tinha quase trinta. Portanto ela teve sobre mim um peso enorme, basa dizer que minha geração foi travada pela falta de liberdade. Durante os anos mais duros do regime, não tinha consciencia exata sobre o que estava ocorrendo, coisa que só foi ocorrer no final dos anos 1970. Finda a ditadura, considero os ano “democraticos” do FHC anos de forte ditadura do neo liberalismo, de uma certa forma pra mim foram anos muito opressores. Sou de esquerda, do PT, e não acho que estejamos vivendo agora anos que me oprimam. Claro que nem tudo é perfeito… mas nunca vi um presidente e uma ministtra subir o morro e levar cicilização pras favelas. Como fizeram neste final de semana o Lula e a Dilma. Isto pra mim é simbólicoco.
    Voto na Dilma de olhos fechados.
    abraço
    joão

  4. joão disse:

    Sandro.
    O que mais me irrita atualmente, e isto também ocorreu durante a crise do mensalão, é que ninguém mais quer ser de esquerda. Parece que as crises da esquerda desobrigaram a luta pela igualdade e assiim poder que assumir suas posições conservadoras. Explico melhor. Durante a ditadura a intelectualidade tinha que se mostrar de esquerda, agora não precisa mais. No meu entender esquerda e direita não são apenas rótulos. São polos . Certo errado, negativo positito, enfim, tudo na vida é assim. Não é possivel ser a favor de distribulção de renda sendo capitalista, não combinam…
    ab
    joão antonio

  5. Sandro Fortunato disse:

    No plenário do Senado, Dilma chora ao lembrar de prisão
    http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/03/11/ult23u1437.jhtm

  6. Xnaps Alanbeek disse:

    Que tem acesso a esses dados reservados deveria estar sendo investigado, junto com a o processo da escuta do Gilmar.
    E também deveria públicar o caso do Puma, o do Herzog. Deveria tambémdeveriam fazerum processo para ivestigar a origem do material explosivo, era Público deuso exclusivo das FA, do EB??????.
    Ela não se omitiu. Outros usaram e abusaram de sua função no Estado.

    XNAPS

  7. Jacqueline disse:

    Houve excessos dos dois lados
    Claro que não há ninguém de bom senso que poderia apoiar o governo militar que rasgou a Constituição e fez o que fez.
    Mas a esquerda também cometeu muitos erros. E hoje podemos afirmar com certeza com base nos acontecimentos históricos e ao insucesso retumbante dos regimes comunistas e seus crimes que o totalitarismo de esquerda se tivesse triunfado no Brasil, as coisas atualmente estariam muito piores.
    abç
    Jacqueline

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