No Sítio é sempre assim: vão-se os anéis…

A coisa funciona da seguinte maneira: a televisão mostra uma coisa e o preço dessa coisa sobe. Monteiro Lobato andou esquecido na década de 90. A geração que conheceu a turma do Sítio pelos livros, no traço de Manoel Victor Filho, ou da mais marcante e insubstituível versão televisiva (1977-1986) estava crescendo. Nos anos 2000, essa geração (a minha) já era adulta (leia-se: seres que consomem e pagam por isso) tinha filhos. Para explorar o espírito saudosista, eis que surge uma nova versão televisiva do Sítio do Picapau Amarelo.

Não se engane. A preocupação não era dar às nossas crianças um programa de qualidade e combater o lixo americano ou japonês que há décadas domina os desenhos animados. Era somente vender um produto para trintões consumistas e saudosistas que desejavam mostrar aos seus filhos como a infância de seus contemporâneos havia sido maravilhosa.

Aguardei ansiosamente a estréia. Pé atrás, claro. Estreou. Dois pés fora. O novo sítio (minúscula, sim) tinha até Internet! Nada contra, estamos aqui, adoro. Mas no Sítio?! No Sítio do Picapau, aquele paraíso de sensações, alguém vai perder tempo na frente de um monitor? Não, minhas filhas, deixe-me papai mostrar os livros do Sítio para vocês…

Sítio na tevê, só o “original” (nem era, outras versões já haviam sido feitas), dos anos 70. Papa só o João Paulo II; Dona Benta só a Zilka Salaberry; Tia Nastácia só a Jacyra Sampaio e por aí vai. Até hoje, quando André Valli insiste em aparecer em alguma novela, pergunto: “O que é que o Visconde tá fazendo aí?”.

E a impermanência se manifestou. Foi-se o sítio (o minúsculo). Foram-se até as revistas em quadrinhos. Afora todos os produtos licenciados, outro fenômeno acontecia no mundo dos livros usados. As coleções do Sítio passaram a valer ouro. A minha, aquela linda em 12 volumes de capa dura da Editora Brasiliense, ilustrada por Manoel Victor Filho sobreviveu – não sem seqüelas – a um irmão mais novo. Vi dessas, em sebos, por mais de 400 reais. Deixei de comprar uma inteira, anos antes dessa inflação, por meros 12 reais. Sim. Perdida nas estantes de um sebo na Consolação, em São Paulo, cada livro estava sendo despachado por um mísero real.

Mas o que é bom permanece. Não foi dessa vez que uma versão para tevê apagou o brilho do Sítio dos anos 70. E, independente do talento de outros ilustradores, os desenhos de Manoel Victor Filho são eternos (também gosto dos de Leblanc, Belmonte e Doré).

No Sítio, que sempre nos ensinou as coisas boas da vida, vale o ditado: vão-se os anéis, aquilo que é substituível, que é de valor material; ficam os dedos; o que há de real e verdadeiramente humano. Vamos aos livros de Lobato. Estarão aqui quando quisermos ensinar algo a nossos netos e estes aos netos deles.

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7 respostas a No Sítio é sempre assim: vão-se os anéis…

  1. A cuca das antigas era um monstro aterrorizante. Esta de agora não mete medo em ninguém.

  2. Isso dá outro texto! A Cuca da primeira versão era feita por Dorinha Duval que, em 1980, durante uma discussão, matou o marido.

  3. wilson disse:

    Como sou bem mais novo que você, posso contar um mar de histórias sobre o Sítio do Picapau Amarelo:

    A “Colecção” que li, vinha dos tempos da mamma menina. Durante anos lí e relí, de cabo a rabo.

    Anos 60, no meu televisor Invictus, pela PRF3TV Tupi(canal 3), 17hs, via e ouvia o comercial:”Be-a-bá,Be-ê-bé, Be-i-bí-o-tonico Fontouraaaaa!!!”

    Logo em seguida, começava o Sítio do Picapau Amarelo.

    A coisa era assim: Aparecia o JÚLIO GOUVEIA – marido da TATIANA BERLINKY – que era a cara do Monteiro Lobato (com sobrancelhas grossas e tudo), com um livro na mão. Abria o dito e dizia: “Paramos quando…” e retomava a história que seria um novo episódio. “Fade-out” para o cenário do Sítio… Assim, de episódio em episódio, toda a coleção desfilou diante dos meus olhos, duas vezes por semana.E sempre, ao final do episódio cortava-se para o Júlio que, com um sorriso maroto dizia: “Isto é uma outra história que fica para uma outra vez…” Be-a-Bá, Be-e-bé…

    Naquele tempo, ainda não tínhamos VT. A coisa era feita na raça e às vezes nas coxas. Segunda e quarta era em S.Paulo. Terça e quinta a turma do Sítio estava, ao vivo e em preto-e-branco 😛 na Tupi do Rio.

    Efeitos especiais: fumaça de gelo-seco, pólvora, sonoplásticos e para as doses do famoso “pó de pirlim-pim-pim” usava-se um disco de papelão branco que tinha o desenho de uma espiral preta que girava-girava, causando também na gente um puta efeito hipinótico(Ou ânsia de vômito 🙂 ).

    E quando todos estavam muito exaustos das peripércias, Emília abria a sua canastra e oferecia a todos uma dose do delicioso BIOTONICO FONTOURA…Como?! Nessa época já tinha isso?! Pois é, tinha…

    A minha Emília, condessa das três estrelinhas, viscondessa de Rabicó (mui a contragosto) foi a LÚCIA LAMBERITNI.

    Totalmente diferente dos desenhos dos livros,mas, igualmente Emília, como nos livros.

    Nos anos 60, se você comprasse uma cesta de Natal Amaral, você ganharia de brinde uma Emília!

    E, para finalizar, ouví dos meus tios que no final dos anos 20, nos anos 30 e 40, Lobato tinha uma infinidade de leitores adultos, verdadeiros adoradores do Sítio. Tanto que saiam à noite procurando lugares afastados e confortáveis para brincar de “cheirar” o “pó” de Pirlim-pim-pim… ;P

  4. wilson disse:

    Errata: Marquesa de Rabicó 🙂

    Aviso: Sandro: Não adianta suspirar e nem virar os zóios. A Coleção d’O Picapau Amarelo foi doada à seção de livros antigos da Biblioteca da cidade natal da minha mamma. Porisso, nem vem que não tem! 🙂

  5. Chris Angelotti disse:

    AMEI!
    Eu, como você, sou da geração do Sítio antigo, o bom. Também tive exatamente as mesmas impressões do sítio novo e tudo mais.
    Ainda hoje lembro que eu e os meus vizinhos ficavamos tentando nos transportar para uma determinada história usando o tal pirlim pimpim. rsrsrs
    Engraçado é que, comecei a ler Lobato estimulada pelo Sítio da Tv, que era tão bom… e não parei mais! Esse sítio novo não estimula essa leitura,nem a nossa imaginação. O meu filho de 8 anos, que já ouvia e lia Lobato há um tempinho, não se interessou de jeito nenhum. Achei que tinha passado minhas impressões para ele.Consegui umas cópias em DVD do Sitio antigo, uma pirata sim( ah! mas pela minha saudade vale a pena), ele AMOU!
    O triste disso tudo é saber que um autor da categoria de Lobato fique limitado, submetido ao comercio.
    E depois que a familia dele ganhou a briga com a editora Brasiliense? a Globo vibrou! haja produtos. Os livros estão todos sendo reeditados, cheio d e ilustrações, coisa e tal.
    Enfim… no comments!

  6. Tarcísio disse:

    Muito legal a sua matéria!

    Sou ilustrador (iniciante rs) e estou numa busca pelos livros antigos da Brasiliense,
    que também marcou a minha infância -pré-adolescência- pelas ilustrações (fantásticas, diga-se de passagem) isso já no século XXI!
    Seria uma honra, como ilustrador, fazer uma releitura dessa obra, ao mesmo tempo que
    é um sacrilégio diante de tanta riqueza encontrada nos desenhos de André Leblanc e Manuel Vítor Filho.

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