Nunca te vi… sempre te amei
Março 3, 2008 – 6:08 pm
Alguns livros e filmes são verdadeiramente importantes em nossas vidas. São como tatuagens nas costas: às vezes nem nos damos conta de que estão ali, mas fazem parte de nós. E há ainda aqueles que marcam uma época, uma geração, várias gerações, que passam para o imaginário popular, para o inconsciente coletivo, que gravam uma sentença nas almas até dos que nunca souberam de sua existência.
Quem nunca escutou a frase Nunca te vi… sempre te amei? De todos os títulos loucos dados a filmes no Brasil, este foi um dos mais felizes, pelo menos no que diz respeito à fácil memorização e ao apelo que faz ao imaginário. Quando exibido aqui no Brasil, no primeiro semestre de 1988, eu era um garoto com 16 anos incompletos e com duas novidades em minha vida: a faculdade e um vídeo-cassete. Lembro do pôster nas revistas de cinema da época, mas só fui ver o filme muitos anos depois. Ele reúne várias coisas que adoro: troca de correspondências (ô, saudade!), bibliofilia e, claro, cinema bem feito.
Para quem não sabe, o filme é baseado no livro 84 Charing Cross Road, que reúne a correspondência trocada, durante vinte anos, entre a escritora Helene Hanff e os empregados da Marks & Co, livraria antiquário que ficava em Londres no endereço que dá título ao livro e ao filme. Sempre achei o título brasileiro uma forçada de barra que dá a entender que existia um romance entre Helene e Frank Doel, seu principal correspondente. É verdade, eles nunca se viram. É verdade, é uma história de amor (mas não personificado). É verdade, a chamada americana para o filme pode levar a entender isso (Um grande caso de amor que começou em uma pequena livraria). É verdade, em alguns momentos o filme sugere a existência de um amor platônico, mas é algo MUITO platônico, um amor mais fraternal, de simpatia entre humores e afinidades. Nunca uma paixão arrebatadora, um amor homem-mulher.
O filme virou um cult. Os personagens principais vividos por dois monstros: Anne Bancroft e Anthony Hopkins. A saudosa Anne foi duplamente responsável não só pela defesa carismática de sua personagem mas pela própria realização do filme. Foi ela quem convenceu Mel Brooks, seu marido, a produzi-lo.
84 Charing Cross Road – prefiro o título original – foi uma dessas histórias que me fizeram percorrer o “caminho contrário” de ver o filme e só depois ler o livro. Até onde saiba, no Brasil, o livro acompanhou o sucesso do filme. Teve duas edições – tiradas no mesmo mês – em junho de 1988 e sumiu. Há uns quatro meses, dei de cara com um exemplar numa estante promocional (3 livros por 10 reais) logo na entrada da Baratos da Ribeiro, livraria de usados em Copacabana. Neste fim de semana, li-o e revi o filme. Que vontade de conhecer Londres! E que saudades de quando trocava cartas com meio mundo! Os envelopes, os selos, as surpresas (fotos? postais? panfletos?), os papéis diferentes… A tecnologia matou todo esse romantismo. Adoraria receber cartas outra vez.
Voltando à história de Helene Hanff, devo dizer que alguns pontos de seu relacionamento com os livros divergem do meu, mas ainda assim, o livro e o filme são uma ode à bibliofilia. Divido com vocês e comento alguns de meus trechos preferidos.
* * * * *
Os livros chegaram direitinho. O Stevenson é tão bonito que está encabulando minhas estantes de caixotes de laranjas. Quase que tenho medo de mexer num velino tão macio e nas pesadas páginas de cor creme. (…) Jamais pensei que tocar num livro pudesse dar tamanha alegria.
(Abrindo o texto, a cena com Bancroft que mostra esta passagem)
No dia em que Hazlitt chegou, abriu-se em “odeio ler livros novos”, e eu bradei “Camarada!” a quem quer que o tenha possuído antes de mim.
(Com raras exceções, não gosto de livros marcados, mas essa sensação de o livro abrir-se em uma página muito lida anteriormente é extraordinária. É como se o leitor anterior estivesse tentando se comunicar com você! Há um trecho de outra carta que fala bem sobre isso. É o seguinte…)
Sua aparência é tão nova e tão docemente antiga a ponto de não se acreditar que alguém o tenha lido antes; mas leram. Vota e meia ele se abre nos passos mais deliciosos, como se o fantasma do antigo dono me ficasse indicando coisas que nunca lera anteriormente.
Newman chegou há quase uma semana e agora é que estou começando a recuperar-me. Deixo-o sobre a mesa o dia inteiro, volta e meia paro de bater à máquina e estendo a mão para tocá-lo. Não é porque seja uma primeira edição; é que nunca vi livro tão bonito. Sinto-me vagamente culpada por ser dona dele. (…) ele pede para ser lido à beira do fogo na poltrona de um cavalheiro - não num divã de segunda mão, numa toca de um só cômodo, no térreo de um sobradão em ruínas.
(Acontece a mesma coisa comigo. Os livros que chegaram mais recentemente ficam ao alcance de minha mão, próximo ao computador. Vez por outra paro de escrever e pego um. Abro, avalio, aprecio, leio um trecho. É um namoro. Até que “nos casemos”, eu o conheça por inteiro e arranje seu lugar nas estantes. No filme, o final deste trecho é transformado em diálogo com uma amiga de Helene e é um dos momentos mais tocantes. Quando ela diz como e onde o livro merecia ser lido, a amiga retruca: “Se eu fosse este livro, iria querer viver aqui”. Lindo, não? É exatamente assim que acontece. Os livros procuram quem cuide deles.)
Meus amigos são gozados a respeito dos livros. Lêem tudo que é best seller e o fazem tão depressa quanto possível, desconfio que passam por alto de muita coisa. E NUNCA lêem nada pela segunda vez, de forma que um ano mais tarde não recordam de uma só palavra.
(Toda essa carta é interessantíssima, mas este trecho me chama mais atenção. Eu me imponho uma cota razoável de leitura– 9 a 12 livros por mês – mas há livros os quais não tenho a mínima pressa de largar. Passo semanas e até meses lendo-os, enquanto outros vão sendo devorados. Outro ponto importante é esse de ler várias vezes certos livros. Tenho dezenas de livros aguardando sua primeira leitura e eles são preteridos por outros que já li várias vezes e que lerei muitas outras até o fim dos meus dias.)


4 Responses to “Nunca te vi… sempre te amei”
Sabe o que acho interessante nesse filme/livro? É que, hoje em dia, esse tipo de situação é bastante comum. Muitos já se apaixonaram à distância, por pessoas que conheceram em salas de bate-papo pela internet, em fóruns e blogs. E, para a época, apesar de também ser algo comum, mesmo sem a internet, a estória narrou tudo de uma maneira tão bonita, que deixou muitos querendo poder viver um amor assim, sendo que é algo tão presente em nossas vidas.
By Tato on Mar 3, 2008
Ah! Sandro…
Taí uma coisa que o “pogresso” levou embora indevidamente: a troca de correspondências, com tudo que uma carta enviada e recebida tinha direito…expectativa, surpresa, emoção, cheiro, textura, dedicação, alegria, tristeza, ensinamentos, despedidads, encontros, revelações…tudo! Vou correndo pra uma locadora pra rever o filme e depois quem sabe te escrevo uma longa carta contando a respeito…
Beijos,
Zi
By Izilda Bichara on Mar 4, 2008
ZI, eu adoraria isso. Já estou mandando o endereço.
A TODOS: Sintam-se à vontade para fazer o mesmo.
By Sandro Fortunato on Mar 4, 2008
A minha maior tristeza é perceber que mesmo os livros que eu já li, reli e reli e reli ainda ficam borrados na memória. Bom, tenha lá as suas vantagens: eu vou reler e reler e reler novamente e muitas coisas ainda serão novidades….
By Paula on Mar 14, 2008