Águas de março

Sobre o que falar neste primeiro de março? Como todos sabem, vivo no presente, mas viajo ao passado todos os dias. Falar do Rio em seu aniversário de 443 anos? Do Rio onde nasci? Do Rio antigo, que não conheci? Do Rio de Janeuras, que não suporto? Poderia falar de uma edição de Chronicas, de Charles J. Dunlop, que acabo de comprar, e mostra fotos, fatos, gente e cousas da História daquela que um dia foi a Cidade Maravilhosa. Desde ontem, para mim, essa definição ficou mesmo enterrada no passado. Em dia de extrema violência, até o meu outrora pacato bairro de Todos os Santos viu residências invadidas, tiroteio e mortes em suas ruas. O Rio de Janeiro continua lindo… nas lembranças.

E nelas me refugio. Lembro de outras efemérides deste dia primeiro: nascimento de Jango, há 90 anos; falecimento de Ruy Barbosa, há 85 anos… bem à mão, as revistas Realidade do final da década de 60. O que estaria mostrando a edição de março de 1968? Na capa, um vietcong condenado à morte. Em duas matérias, a Igreja dos Comunistas – sobre a Igreja na Rússia – e os Comunistas da Igreja – sobre os sacerdotes russos que, apesar das várias proibições à religião, apoiavam o regime. Em um exemplo da perspicácia do jornalismo da época, uma matéria que se chamaria Garrincha morreu transformou-se em tributo. Obrigado, Garrincha, escrita por Roberto Freire, lembrava os altos e baixos da polêmica vida de Mané. Sobre o triste fim, uma informação que parece piada nos dias atuais: “O Corinthians, dizem, dá até de graça o seu passe”. Hoje, quanto pagaria por ele?

Foi em um março que The Beatles lançaram seu primeiro álbum (1963). Naquele mesmíssimo, nascia Mônica, a baixinha dentuça. Cinco anos depois, a morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, durante confronto com a polícia, no restaurante Calabouço, no Rio, colocava fogo nos anos de chumbo e anunciava que aquele 1968 não terminaria tão cedo. Foi também em março, há dez anos, que o cínico, digo, o síndico Tim Maia encantava-se.

Quantas histórias cabem em março! Que venham as águas, fechem o verão e nos tragam mais que promessas.

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Uma resposta a Águas de março

  1. wilson disse:

    Tens razão, Sandro.
    O Rio de Janeiro continua lindo. Só não continua sendo aquele Rio de Janeiro/fevereiro e Março… Alô, alô, Realengo! Muitos balaços?…
    Alôuuuu, torcida e time do Flamengo! Táis um bagaço!…
    Uma Cidade Maravilhosa habitada por um povo que já não se maravilha. Lindos lugares para se ir e não se vai…
    Os Fados fizeram-na nascer em Março. E os marços do Rio de Janeiro são repletos de história – muitas são tristes. O Rio, como o Brasil, segue um ciclo que começa nos Marços e se conclui em Agostos nesfastos e perturbadores.

    Mas, Março sempre foi inquietante… Uma ou outra coisa boa acontece: O 31 de Março, por exemplo… 😉 🙁 …

    Marços têm seus mistérios. Quem quiser saber mais sobre eles, pergunte ao César, não o Maia, ou o Ladeira, mas, o Augusto – aquele dos Idos de Março…

    Parabéns Meu Riosão de Janeiro, que continua lindo! Volte a SER novamente!!!

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