Bibliotecas, confrarias, antiquários e sebos

Para mim, ler é algo tão prazeroso que faço isso quase somente na cama. Só leio recostado e muito bem acomodado. Também exijo silêncio total e evito que qualquer coisa, um simples movimenta que seja, tire minha atenção do livro. Meus principais horários de leitura coincidem com aqueles em que a casa e a vizinhança estão dormindo. Por esses motivos, nunca fui muito chegado a ler em biblioteca.

No entanto, algumas bibliotecas nos oferecem a oportunidade de ter em mãos um título esgotado, um exemplar raro ou mesmo os originais de um livro. Isso não é para todos, claro. Esse material não fica nas estantes e ao alcance que qualquer pessoa. O fato de normalmente ter acesso a eles não me deixa muito à vontade para dizer que isso está certo, que deve mesmo ser assim. Mas se livros comuns são depredados, riscados, rasgados e roubados, imagine o que aconteceria se esses pequenos tesouros ficassem expostos como banana na feira.

A primeira biblioteca que freqüentei foi a do Colégio Pequeno C.E.U., no bairro carioca do Engenho Novo. Depois a Biblioteca do Méier e, em meu último ano no Rio, 1985, a de outro colégio, o São Leopoldo. Ficava em uma espécie de porãozinho e eu fiz logo amizade com a pessoa que tomava conta dela. Em Natal, freqüentei inicialmente a do Salesiano, por muitos anos a Biblioteca Central Zila Mamede e outras de alguns departamentos da UFRN; eventualmente a do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande de Norte e, até hoje, à distância ou quando estou lá, a biblioteca particular de Câmara Cascudo. A freqüência às bibliotecas de Brasília coincidiu com intensos momentos de trabalho e foi das mais longas e proveitosas. As bibliotecas do Senado e da Câmara Federal foram as mais visitadas e as únicas nas quais eu realmente passava horas a ler livros inteiros. A seção de Obras Raras da Biblioteca Central da UnB também recebeu muitas visitas minhas.

As bibliotecas, museus e salas de exposições são os primeiros lugares que visito em qualquer cidade. E garanto que em cada uma que visitei encontrei algo diferente, único e muito interessante. Mesmo nas mais modestas.

E se há bibliotecas públicas permitindo o acesso de qualquer pessoa, há coleções particulares que guardam livros que dificilmente serão encontrados naquelas. Os livros editados por confrarias de bibliófilos já nascem raros, ficam entre seus membros/confrades e muito raramente chegam a fazer parte de um acervo público, a não ser por decisão do próprio grupo ou doação/venda pós-morte e, quase sempre, para alguma biblioteca de referência como a Biblioteca Nacional, no Rio, ou a Mário de Andrade, em São Paulo.

No Brasil, as mais conhecidas associações desse tipo são a Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, a Confraria dos Bibliófilos Brasileiros Cattleya Alba e a Confraria dos Bibliófilos do Brasil, sendo esta a única em atividade.

A Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil foi fundada em 1944, no Rio de Janeiro. Publicou 23 obras até 1969. Seus livros são muito procurados até hoje. Da Confraria dos Bibliófilos Brasileiros Cattleya Alba, sei muito pouco e só tive dois títulos em mãos. Um deles foi Lendas Brasileiras, de Câmara Cascudo, publicado em 1945 (veja na seção Livros do site Memória Viva de Câmara Cascudo). Cada lenda é acompanhada de um desenho a carvão, feito por Martha Pawlowna Schidrowitz. A Confraria dos Bibliófilos do Brasil nasceu em 1995, em Brasília, e publicou seu primeiro livro – O quinze, de Rachel de Queiroz – no ano seguinte. Em 2005, entrei para o quadro extra (máximo de cem pessoas) da Confraria. Segundo informações recentes, para fazer parte do quadro dos 350, preciso matar, digo, esperar morrer, isto é, “aguardar a desistência” de uns 40 confrades. Mas eu faço o sacrifício de não ter um número em meus exemplares. Vida longa a todos.

A Confraria dos Bibliófilos do Brasil edita três livros por ano. Dois são escolhidos em votação pelos membros. O terceiro, chamado de Livro do ano, é uma edição ligeiramente diferenciada, um pouco mais em conta, que pode ser adquirido por não-membros. Todos os livros são feitos de forma artesanal e, dispensável dizer, cada um é, por si só, uma obra de arte.

Algumas dessas publicações, às vezes, acabam parando em algum antiquário. A priori, antiquário é um local que comercializa antiguidades, mas há livrarias de usados tão especializadas e repletas de raridades que utilizam tal designação. Ainda há sebos, daqueles bem sebosos, como antigamente: livros empilhados, jogados, espalhados com pouco ou nenhum critério, empoeirados, preços dados “pela cara do cliente”. Mas a maioria evoluiu, se organizou e se transformou em livraria de usados.

Numa Livraria Antiquário, você está lidando com pessoas que conhecem os valores daquilo que está sendo comercializado. Não é local propício a pechinchas. É claro que aquilo que você procura e pelo que pagaria mil pode ser encontrado por cem. Sugiro que você não reclame. Mas geralmente acontece o contrário. Aquilo pelo que você pagaria cem, será encontrado por mil.

Freqüentar sebos não é uma questão apenas de “ir até o da esquina”. É preciso andar muito e conhecer o modus operandi de cada um. O valor de um livro é algo extremamente subjetivo e pode ter variações incríveis, mesmo hoje quando é possível pesquisar pela Internet em sebos do país inteiro e estabelecer uma média. Determinados autores podem ser supervalorizados em alguns lugares e desvalorizados em outros, assim como certos temas. Há sebistas que acham que qualquer livro amarelado vale uma fortuna e há outros que não percebem pequenas raridades em suas estantes. O negociante esperto dá o preço conforme a cara e a vontade que o comprador demonstra pelo livro; o honesto indica o valor e o coloca no próprio objeto; o inteligente conhece cada comprador e sabe onde encontrar aquilo que ele está procurando.

Eu poderia ainda contar as histórias que envolvem alguns livros que possuo, destrinchar os motivos de serem especiais, falar de descobertas surpreendentes, do que se acha dentro dos livros (esse é um tema que adoro), das anotações, mostrar alguns livros raríssimos que tive o prazer de ter em mãos mas que apenas fotografei (muitos não representavam grande coisa para mim, mas reconheço o valor de cada um), contar a história de pessoas que têm mais tempo de bibliofilia do que eu de vida, falar dos tesouros que conheci em certas bibliotecas públicas ou particulares,… há uma infinidade de temas em torno da arte de colecionar livros, mas o objetivo destes textos é fazer uma introdução à bibliofilia. Espero que tenha sido de alguma utilidade.

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9 respostas a Bibliotecas, confrarias, antiquários e sebos

  1. Diego disse:

    Sandro, que maldade! Seu comentário sobre o Nassif, a censura e a falta de reportagem ficou melhor do que meu post, pô! Assim ninguém vai querer me ler…

    Um abraço!

  2. Sandro Fortunato disse:

    Que exagero, DIEGO. 🙂 Quando muito, foi complementar. Mas eu ando falando muito, não? Olha o tamanho dos textos dessa semana.

    Aproveitando: quem estiver por aqui, conheça o Para ler sem olharhttp://paralersemolhar.blogspot.com

  3. wilson disse:

    Como diria Eça de Queiróz: TAMBÉM O DIGO!

    RECUSO-ME A FALAR SOBRE SEBOS. DOEM-SE-ME OS GAMBITOS AO SIMPLES FACTO DE COMENTÁ-LOS!!!

    E, SE A DOER ESTÃO ESTAS MINHAS PERNAS, TU ÉS O CULPADO! FIZESTE AS POBREZITAS PERCORRER QUILOMETROS E QUILOMETROS DE VIAS, EM BUSCA DE CULTURA PARA O SEDENTÁRIO CÉREBRO. TU ÉS UM CRUEL!

    NÃO! Ó INSANO INSENSÍVEL! a TI, POR MINHAS PERNITAS, NÃO DARTE-EI O PRAZER DE VER-ME A COMENTAR OS SEBOS DA VIDA!

    vADE RETRO!!! 🙂 🙂 🙂

  4. Marina disse:

    Acho que estou flertando com a possibilidade de levar uma vida, ahn.. bibliófila… tenho 23 anos e já li mais de 5.000 livros. Antes o prazer era a leitura mas agora, agora eu tenho de ter os livros… de 2 anos para cá não é só ter os livros, mas ter as edições mais bonitas, de capa dura, ilustradas, “mais duráveis”, é o que digo a mim mesa… e no último ano mandei uma primeira edição das poesias completas de Casimiro de Breu para ser reencapada num atelier de restauração: sinto que isso foi um marco… rsrsrsrs. Agora passo horas toda semana em livrarias e sebos.. prefiro os mais obscuros e desorganizados que é onde consigo encontrar o que eu quero com mais frequência e a um preço mais acessível. Hoje me fascinam as primeiras edições. Não é importante para mim ter todas as edições de um livro (ainda, pelo menos) mas é extremamente importante ter a primeira, na língua original, reencapada mas preservando a capa original. Sinto que isso tende a piorar pois encomendei um ex libris a um artista alagoano e já estou fazendo planos para instalar uma parafernália aqui para conservar meus livros… Me pergunto se isso é normal, não conheço outras pessoas que gostem de livros dessa forma. Depois de ver seus textos me sinto um pouco menos esquisita… Muito obrigada!

  5. Marina disse:

    Nossa, mil erros de gramática…. me perdoe!

  6. Sandro Fortunato disse:

    Não há nada a se perdoar, MARINA. Você se expressa muitíssimo bem. Já quanto a ser normal… 🙂 Particularmente, prefiro o consolo de achar que isso não é uma anormalidade. Você JÁ é uma bibliófila e é muito bom ter começado bem cedo. Parabéns! Volte e comente sempre.

  7. João Dias Rezende Filho disse:

    Sandro,

    Parabéns pelo belíssimo e inteligente site que somente hoje tive a ventura de conhecer. Antes tarde do que nunca!rs. Uma curiosidade: qual é a biblioteca da foto acima? É um sebo?

    Abraços
    João

  8. Sandro Fortunato disse:

    Olá, JOÃO, obrigado. Espero que se torne um habitué. A foto mostra uma mínima parte da entrada da Livraria Calil Antiquária, em São Paulo.

  9. Sérgio disse:

    Sandro, gostaria de conversar a respeito de preço de algumas obras…uma é a de Marques rebelo (vejo a lua no céu) e a outra é do Vinicius de Moraes (Poemas de muito amor). Conhece estas obras? Qual o valor dessas obras ou onde posso saber de preços? Onde achar para comprar ou vender?
    Seu blog está muito bom…parabéns!

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