As “anas” e os livros que são comprados pelas capas

Brasiliana é o termo pelo qual se designa uma coleção de livros, periódicos e estudos acerca de temas brasileiros. Da mesma forma, o sufixo é usado em nomes e sobrenomes para nomear coleções de determinado autor. Assim, Daltoniana se refere a Dalton Trevisan, Lobatiana a Monteiro Lobato, Machadiana a Machado de Assis e assim por diante.

Você pode agradecer à Editora Nova Aguilar a facilidade de ter em um único volume a obra completa de vários autores portugueses e brasileiros, mas as “anas”, para um bibliófilo, é algo bem diferente. Geralmente se começa colecionando os títulos. Digamos que tal autor escreveu vinte livros. O colecionador procurar adquirir esses vinte títulos. O próximo passo pode ser conseguir a primeira edição de cada um desses títulos. Se ainda não estiver satisfeito, pode aumentar a coleção buscando todas as edições de cada título. Sim, isso existe e é esse tipo de coleção que mais causa estranhamento aos não-bibliófilos. Imagine, ainda utilizando o exemplo proposto, uma coleção que parece completa com vinte livros transformar-se em, digamos, mais de 400 volumes. E tudo somente de um autor.

Vamos além. Imagine que o autor escolhido foi Câmara Cascudo e seus mais de 150 títulos. Alguns com várias edições, lançadas por diferentes editoras. Percebe onde isso pode parar? E há quem faça isso, Sandro? Há quem faça mais. Vicente Serejo, jornalista, bibliófilo e cascudófilo, não satisfeito em ter todas as edições de todos os livros de Cascudo, passou a colecionar teses acadêmicas que falassem dele. Sem falar em toda e qualquer coisa a respeito do homem.

Minhas “anas” são bem humildes. Oito autores brasileiros são os mais presentes em minhas estantes: Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Câmara Cascudo, Dalton Trevisan, David Nasser, Carlos Lacerda, Adelaide Carraro e Cassandra Rios. Nasser foi o primeiro a entrar no nível de buscar as primeiras e outras edições. Lima Barreto e Adelaide Carraro também já se insinuam nesse processo. E há duas grandes dificuldades adicionais em relação aos dois. A obra de Lima está em domínio público, o que quer dizer que qualquer um pode editá-las e sabe-se lá quantas vezes isso foi feito com cada uma delas. Da de Adelaide Carraro, autora publicada por várias editoras populares tendo alguns de seus títulos com dezenas de edições, mal se sabe a real quantidade de títulos escritos e não há registros catalográficos precisos a respeito de nenhum deles.

Cada editora pode ter seu próprio critério para considerar algo como reimpressão ou como nova edição. Em tese, reimpressão seria uma nova tiragem, dentro de uma mesma edição, exatamente igual a que já foi publicada. Uma nova edição deveria conter algum tipo de mudança, se não de texto – ainda que somente correção –, pelo menos de capa ou formato.

Além do interesse pela obra de cada um desses autores, tenho ainda outro, relacionado à arte das capas. Isso vai desde as diferenças por motivações comerciais de cada editora (que acham este ou aquele tipo de capa mais atraente) até a arte em si, principalmente quando se trata de ilustrações. Tenho um carinho especial pelas capas brasileiras das décadas de 50 e início de 60. Para exemplificar tudo isso, segue uma pequena mostra de capas com rápidas informações a respeito delas e/ou da edição do livro.

Além do já dito, há ainda capas que valem o livro, o qual pode, em se tratando de conteúdo, não interessar em absoluto ao colecionador. A importância fica por contra da ilustração de determinado artista, por um erro ou pela própria encadernação.

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7 respostas a As “anas” e os livros que são comprados pelas capas

  1. Jandiro disse:

    Vou te enviar as capas de alguns dos romances de C. Rios e Adelaide Carraro que acho bacanas, isso se ainda não tiveres…
    Também tenho mais de um volume do mesmo título, publicados por editoras diferentes e/ou reedições das mesmas editoras.
    O Eudemônia tem uma capa lindíssima (que eu não consegui encontrar ainda). Você pode ver na entrevista de Cassandra para a Revista TPM.
    Isso significa, também, que resolvi meu problema de falta de scanner. Em partes… Como se faz para fazer cópia de um tamanho maior, tipo jornal? Principinate dá nisso…
    Abraço.

  2. Jandiro disse:

    Acho que você iria gostar da capa de “A Vida na Pele”, de Vera Magot Mogilka. Certamente seria proibido pelo conteúdo, mas foi antes pela capa. Feita pelo famoso e falecido recentemente Rubem Gerschmann, levou o livro de Mogilka a ser vendido somente às escondidas.
    A autora ficou “louca”. Primeiro livro, sabe como é…

  3. Henderson disse:

    Bem, ainda não cheguei ao estado psicótico de bibliófilo, até porque acredito que minha mulher me abandonaria, alegando insanidade. Mas o caminho é este e estou seguindo com passos largos.

  4. Sandro Fortunato disse:

    JANDIRO, ainda hoje, vi uma capas (horrorosas, por sinal) que nunca tinha visto de alguns livros de Adelaide.

    HENDERSON, tudo é uma questão de “quem adestra quem”. Livro não é nada. E jornais e revistas que tenho pra lá de 8 mil? Atualmente. Aqui, quem sofre sou eu. A minha também é uma ávida leitora – e com uma vantagem enorme em relação a mim, pois faz isso em vários idiomas -, mas, se bobear, é capaz de tratar uma primeira edição autografada de Machado de Assis com o mesmo cuidado que um adolescente costuma ter com as apostilas impressas pelo próprio colégio. Mas eu tô adestrando! 😉

  5. Jandiro disse:

    As capas horrorosas devem ser da L. Oren. As capas de mulheres seminuas poderiam ter sido melhor elaboradas… Aliás, poucas capas de L. Oren causam algum impacto. Impacto positivo, pois susto de decepção é frequente.

  6. Jandiro disse:

    PS: Falo das capas de L. Oren pós anos 70. As primeiras são bacanas.

  7. wilson disse:

    Há décadas isso vem acontecendo: Capas “Best-sellers” , o livro não.

    Capas passaram de “um convite à letura” – aqueles que somente traziam o nome do autor, da obra e da Editora – e tornaram-se mais elaboradas – não um convite, mas a porta de entrada para a história ou estória a ser lida.

    Livros e Capas em simbiose, cúmplices: em piceladas, rabiscos, fotos davam uma idéia do cenário a ser percorrido.

    E o velho ditado: “Não compre o livro pela capa”, continua em vigor. Amantes da Arte gráfica não contam.

    Mas, uma biblioteca tem que ter de tudo – não seria bilbioteca se assim não fosse.

    Nela a gente encontra um péssimo enredo, uma estorinha trivial, maquiado pelo requinte e beleza de uma capa-chamariz; Encontra-se também grandes estórias, timidamente escondidas atrás de capas medíocres.

    Mas, com falam das rosas: Um livro é um livro. É um livro. É um livro…

    Abs.

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