Os autografados e os que jamais serão lidos

Nunca fui um caçador de autógrafos. E olha que teria uma coleção considerável, sem muito esforço, se tivesse me limitado a pedir somente os jamegões de quem entrevistei. Mas até por isso, por ser jornalista, me acostumei a não tratar as pessoas como ídolos. Em relação aos livros, sessões de autógrafos também não me animam, a menos que seja para prestigiar algum amigo. Os livros autografados de minha biblioteca são, em sua maioria, de conhecidos e amigos meus.

Mas há, basicamente, dois tipos de livros autografados que me interessam. Os de autores que admiro e os de autores já falecidos, pois não podem gerar novos autógrafos e já passam a ser raros por isso. Ambos me proporcionam um grande prazer: o de descobrir exemplares autografados em sebos.

O que realmente gosto é de saber que o autor segurou aquele exemplar e deixou uma marca personalíssima nele. A assinatura irregular de David Nasser, por exemplo, já me é familiar. Sim, aqui vai um aviso: um rabisco com o nome do autor não é exatamente um autógrafo. Entre o alto clero bibliófilo – coisa rara no Brasil, mas relativamente comum na Europa e nos Estados Unidos – um livro autografado só tem seu valor definido se o autógrafo for reconhecido por alguém ou alguma forma de ilibada competência: parente próximo do autor, estudioso de sua vida e obra, reconhecimento em cartório, etc. Os livros chegam a ser acompanhados por um atestado de autenticidade. É algo próximo ao comércio de grandes obras de arte.

Catar livros em sebos e, de repente, deparar-se com um exemplar autografado – de alguém que você nem estava procurando – é uma experiência quase mediúnica. Imediatamente sinto o momento do autógrafo. Imagino as linhas sendo desenhadas na página, o autor fechando o livro e entregando-o a um admirador. Pergunto-me o que o fez sair das mãos de quem o recebeu, por onde andou até chegar à estante daquele sebo e sinto-me na obrigação de resgatá-lo, como se estivesse devolvendo ao autor o carinho que ele teve. “Olha, vou tirar este exemplar deste sebo empoeirado e colocá-lo junto à minha coleção, ok?” E então ele vem morar comigo.

Assim, nos últimos tempos, resgatei Mezzamaro, Flores e Cassis, autobiografia de Cassandra Rios; Palmas pra que te quero, de Dina Sfat (em parceria com Mara Caballero); O ABC das relações humanas, de Pierre Weil; e Vito Grandam, de Ziraldo, para citar apenas alguns. Uma curiosidade: já havia estado com Ziraldo, entrevistando-o, e sequer pedi um autógrafo.

Exemplares autografados, aliados a outras peculiaridades, podem fazer o valor de um livro multiplicar-se muitas vezes. Um exemplar autografado de O quinze, de Rachel de Queiroz, editado pela Confraria dos Bibliófilos do Brasil, em 1996, ou de A Polaquinha, de Dalton Trevisan, também da Confraria, editado em 2002, quando aparecem, não costumam sair por menos de 3 mil reais. Uma primeira edição autografada de O quinze ou de Novelas nada exemplares, de Dalton, dificilmente muda de mãos por menos de 4,5 mil reais. Mas, é claro, você pode se deparar com um desses pequenos tesouros perdido e por um valor bem mais acessível em algum sebo. Se isso acontecer, é de fundamental importância que você lembre do que vou dizer agora: eu aceito doações.

Numa negociação dessas ou por outro motivo que se enquadre nos objetivos de sua coleção é possível que sejam comprados livros que nunca serão lidos. No ano passado, adquiri cerca de vinte livros sobre história política com a desculpa de que poderiam interessar à minha esposa, formada em Relações Internacionais. Além das encadernações clássicas de excelente qualidade, quase todos estavam autografados. Apesar de boa parte deles apresentar temas bem interessantes até para mim, é provável que eu venha a ler somente dois ou três. Há uma infinidade de outros livros de meu interesse que estarão em melhor lugar na fila de leitura. Mas há um deles que chama atenção por ser completamente diferente de qualquer outro que eu possua em se tratando de temática. Moderno sistema penitenciário, de 1963, é um livro que apresenta, em parte, uma visão extremamente pessoal e religiosa, e, na maioria de suas páginas, uma exposição técnica. E por que eu o comprei? Porque estava autografado pelo autor e dedicado ao então Presidente da República, Sr. João Goulart. Não me pergunte os caminhos pelos quais andou esse exemplar. Eu imagino que ele tenha sido confiado, no Rio de Janeiro, a um deputado federal (ele fazia parte de vários livros que comprei da biblioteca de um falecido deputado) para que fosse entregue ao presidente em Brasília. Provavelmente, nunca chegou às mãos de Jango, mas, 44 anos depois, chegou às minhas. Não tente entender as razões e manias de um bibliófilo.

Em minha coleção há livros que provavelmente (digo sempre “provavelmente” porque os interesses mudam com o tempo e porque também sou viciado em leitura; numa crise de abstinência, até bula de remédio vale) também não serão lidos por outros motivos. Seja porque se trata de uma edição diferente de um livro já lido, por ser um exemplar em estado tão delicado que é melhor não folheá-lo, porque foi comprado devido ao trabalho do ilustrador ou do capista ou ainda porque tinha uma bela encadernação (sobre estes dois últimos tipos, falarei no próximo texto).

Acredito que exista quem colecione livros somente por sua beleza ou para dizer que possui uma biblioteca bonita. A minha coleção nasceu do hábito de leitura. Esse tipo de colecionador, invariavelmente, passa a vida comprando mais livros do que conseguirá ler. E sofrerá por esse descompasso. Antes de me perceber bibliófilo, eu morria de vergonha disso, mesmo sabendo estar bem acima da média em se tratando de ler. Atualmente, leio, em média, 10 a 12 livros por mês, mas chego a comprar 20, 30 livros no mesmo período, às vezes mais. Espero que essa defasagem seja compensada pela realização do meu “sonho de aposentadoria”: ler um livro por dia.

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3 respostas a Os autografados e os que jamais serão lidos

  1. joão disse:

    Sandro.
    Na minha opinião o autógrafo não é só apenas fetiche. Ele também represente o autor, assim como uma foto ou uma caricatura. Mesmo se a assinatura for impressa, assim mesmo representa o autor. Se for um autógrafo original, a caneta, então mais ainda. Eu gosto de autógrafos em que o autor fala alguma coisa, comenta algo, discute com o pedinte do autógrafo, enfim, ajuda-nos a compreender o autor. A mesa assinatura é legal, mas eu prefiro que venha com algo mais.
    abraço
    joão antonio
    PS na ocasião que foi lançada a coleção dos bibliófilos, do José Sales, ele me mandou uma cartinha preu participar. Mas eu não tinha dinheiro suficiente pra nenhuma das edições. Fazer o que…
    abraço
    joão

  2. wilson disse:

    Crimes e delitos.
    O amante dos livros, quando ortodoxo, grita: “Heresia! Sacrilégio!” quando os vê.
    E, no entanto, esses pequenos “assassinatos” revelam muita coisa de um mundo antigo ou próximo passado.

    São as dedicatórias, por vezes longas e explicativas, por vezes curtas. Um mimo, um presente “de” “Para…”

    São as notas de roda-pé explicativas, feitas à mão, com lápis ou mesmo canetas, comlementando o texo.

    E, também no roda-pé, um comentários escritos . Comentários que variam de acordo com o interesse ou emoção do leitor.

    Tive em mãos livros anotados e comentados por várias gerações de leitores.

    E tem, também, os livros grifados, onde de acordo com a preferência do leitor, frases, parágrafos inteiros são grifados.

    Livros – que nunca foram baratos – trazem ao se abrir, a frase sentencial e definitiva: “Este livro pertence a…” Acrescido da data e do valor monetário do livro.

    Alguns, traziam também V. V. Os “V”, indicavam que, se emprestado, deveria ir e voltar. “VAI e VOLTA!”.

    Uma primeira edição é importantissima para o colecionador, como documento, como história. Mas igualmente à primeira edição está a Centésima, que mostra a preferência pelo autor. Pois há muitos escritores de uma única edição e de um único milheiro.

    Livros,livros, livros… Mundos ao alcance dos olhos e da imaginação do leitor. E os que são vítimas do leitor, revelam muito das gerações passadas.

    Como exemplo eu lembro a você o livro que te dei, a Bio do James Dean, onde a emoção e paixão da leitora pelo biografado, fez com que ela gravasse corações no livro. Estragou o Livro? Rasurou? Não! Serviu sim, a enfatizar a importância de Dean para aquela geração…

    Abração!

  3. antonio barbosa filho disse:

    Sandro,
    Identifiquei-me com vc quando descreve a sensação de encontrar um autógrafo num livro que desencavamos num sebo. Já ocorreu comigo muitas vezes e nunca resisti à compra – é o resgate de que vc fala. Quando comecei no jornalismo, muito jovem, pedia autógrafos a entrevistados, geralmente artistas e políticos, mas também cientistas como Werner von Braun (deve ser raro no Brasil), astronautas, o então diretor dos Museus do Vaticano, o brasileiro Deoclécio Redig de Campos (que restaurou a Pietá de Michelangelo) etc. Em sebos encontrei um livro autografado do Lioncoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil em 1964! Em Paris, um da primeira astronauta francesa. E aqui mesmo em Taubaté, o que mais valorizo: “El Libro del Tango”, do compositor Horácio Ferrer, com vários autógrafos além do autor, músicos importantes e Amelita Baltar, a mulher do Piazzolla!
    Sei que este prazer eu perseguirei até o fim da vida – ah! e o de ler também…

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