As manias de cada um e o que faz de um livro uma raridade

Há várias diferenças entre amontoado de livros, biblioteca e biblioteca de bibliófilo.

Amontoado de livros, você já viu alguns, garanto. É comum entre acadêmicos. A pessoa vai juntando livros acadêmicos e afins. Por também gostar de ler, vai somando livros de literatura ou de outros temas de seu interesse. Vai juntando, juntando, juntando e deixando em algum cômodo. Naquele amontoado, você encontrará livros que não são tocados há anos, livros pelos quais o dono não tem mais o mínimo interesse, livros ganhos e nunca lidos. É o que chamo de “biblioteca morta”. A maioria dos livros está esquecida. Eles estão como em um depósito. Não há necessidade de grande organização ou cuidados. Alguns, que um dia foram colocados em pé, hoje estão completamente tortos, tronchos. Os livros não cumprem sua função. São como arquivos mortos, esperando que alguém um dia precise deles.

Já a biblioteca tem, a princípio, uma organização. Seu dono separa os livros como melhor lhe convém. Costuma consultá-los. Tem seus preferidos, relê alguns. As bibliotecas podem ser simples, pequenas. Podem acompanhar o ritmo de leitura e do bolso de seus donos. Podem ser modestas, com duas ou três dúzias de um determinado tipo de literatura ou de um só autor. Só Agatha Christie, por exemplo (nunca li um livro seu, autora muito popular entre os adolescentes de minha geração). Também pode ser uma biblioteca gigantesca, de alguém que leia compulsivamente (só se lê realmente assim). Os livros cumprem sua função e o dono também, cuidando, organizando, lendo, mantendo a coleção viva e ativa, interagindo com ela.

Biblioteca de bibliófilo já é um outro papo, a começar pelas manias básicas de todo colecionador: organização, limpeza, conhecimento de cada item, seus porquês, seus históricos. A partir daí, dependendo dos interesses de cada um, outras manias e cuidados vão surgindo e fazendo esse tipo de biblioteca ser muito diferente dos outros já citados.

Começando pelos hábitos comuns, irei desenvolvendo e falando um pouco de minhas próprias manias e tipos de coleção que formam minha biblioteca.

A primeira coisa que chama atenção na biblioteca de um biblófilo é a posição dos livros. Eles ficam deitados. Por que? Sempre me perguntam isso. Respondo: porque livro foi feito para ficar deitado. Lembro sempre de Dr. Marcos Fulco, oftalmologista, me dizendo que praticamente todo mundo que lê muito usa óculos e explicando o porquê. “Olho foi feito para ver árvore, cavalo, montanha… Usar os olhos para ficar lendo essas letrinhas acaba com eles”. E é claro que ninguém vai deixar de ler por isso! Da mesma forma, cada um faz o que quiser com seus livros, mas deixando-os em pé, você acelera o processo de envelhecimento e destruição deles. E também do seu pescoço. Todos já tivemos, inúmeras vezes, a terrível e incômoda experiência de torcer o pescoço para ler o título na lombada e, procurando determinado livro, continuar torcendo o pescoço de um lado pro outro, já que a escrita não segue um padrão e, com o livro em pé, tanto pode estar de cima para baixo como o contrário. Aí você se cansa de ficar imitando a dancinha do Chicó (quando Selton Mello “ressuscita” após João Grilo tocar a gaita abençoada no Auto da Compadecida), ajeita o pescoço e começa a passar os livros para ler o título nas capas (como se fazia com os LPs). Com isso, você acaba manuseando excessiva e desnecessariamente o livro, ajudando a entortá-los ainda mais do que eles já ficam por estarem em posição vertical.

Enfileirados, os livros ainda recebem uma camada maior de poeira na parte de cima das páginas e, no caso de terem encadernações duras, isso é ainda pior. É mais difícil limpar essas partes. Livros em pé, só em pouquíssimos casos. Se forem calhamaços compactos – mais de 300 páginas, tamanho padrão ou aproximado, capa seguindo o corte do miolo – ou livros com encadernações especiais, muito resistentes e, preferencialmente, de tamanho próximo ao do miolo. Ainda assim, eles não devem “atravessar longas distâncias”, isto é, nada de enfileirar de ponta a ponta em uma prateleira. Menos de dois palmos e sempre bem apoiados nas laterais.

Quem freqüenta livrarias – as comuns mesmo – há muitos anos deve ter percebido que a partir da década de 90 elas aprenderam a se utilizar desses cuidados. Tornaram-se mais comuns as mesas nas quais os livros ficam empilhados. É uma forma de facilitar a visualização, chamando a atenção e o reconhecimento pela capa e de não entortar os livros antes que sejam vendidos.

Há ainda outros motivos para que fiquem deitados. Como já foi dito, apesar de não haver um padrão para a grafia de título e autor nas lombadas, você elimina “a dança do Chicó”. Você vai ler normalmente as informações da lombada de boa parte dos livros e, para as que estiverem de cabeça para baixo, não será preciso plantar bananeira para ler. Deitados, a capa do livro que ficar em cima vai receber a maior carga de poeira. É mais fácil limpar uma capa. Além disso, você pode cobrir cada pilha com uma lâmina de papel, plástico, feltro ou qualquer outro material assim ou simplesmente dar preferência a colocar no alto livros de pouco valor, de edições mais simples e baratas.

As pilhas devem ter, preferencialmente, no máximo, um palmo de altura. Mais que isso, os livros que estiverem mais embaixo poderão receber um peso não recomendável. A altura de um palmo também facilita o manuseio. Ao tirar um livro de uma pilha, você ainda poderá deixar os que estavam em cima levemente deslocados. Assim você visualiza mais rápido de onde ele foi tirado e poderá devolvê-lo ao lugar certo. Em pé, cada vez que você tira um livro, a fileira se entroncha mais e vários livros são danificados.

Quantas coisas e somente sobre a posição dos livros na estante, hein? E esse tema ainda poderia ser alongado, mas a idéia aqui é fazer uma introdução, um resumo. Então, vamos seguir com minhas manias.

Os maiores fetiches do bibliófilo, seus livros mais queridos, seus tesouros e troféus NÃO ficam expostos. Isso mesmo. NÃO ficam expostos à poeira, ao calor, à luz excessiva e muito menos aos olhos de “simples mortais não-iniciados”. Antes o ciúme que a vaidade besta. Assim como a mulher guarda aquela lingerie maravilhosa para um momento especial, assim como você só usa determinada roupa fina em uma ocasião específica, aquele seu pequeno tesouro fica guardado para determinadas situações. Assim como você só apresenta um grande amigo a outro grande amigo, fala muito bem de cada um para o outro, e sabe que eles se reconhecerão como indivíduos acima do comum, você também só apresenta certos livros a determinadas pessoas e em momentos propícios.

São livros raros? Você deve estar se perguntando. Sim, raro para o colecionador. O que faz um livro ser considerado raro? Há vários motivos para isso: a antiguidade, a baixa tiragem, ter tido uma única edição, ter feito muito sucesso ou ter provocado comoção quando de seu lançamento, estar autografado, ter um erro, ter sido feito para um determinado grupo ou para comemorar uma data, ter pertencido e/ou estar dedicado a alguém conhecido… Quando alguns destes motivos se concentram em um único título ou em determinado exemplar, ele se torna mais e mais raro. Mas este ainda é um conceito extremamente subjetivo. Um livro pode ser raro só para você. O motivo ou os motivos devem ser importantes para você. E esse é o livro que estará na “seção de obras raras” de sua biblioteca.

Quais são os livros raros que eu tenho? Bem, primeiro é preciso saber quais tipos de livros me interessam. Eu me interesso por exemplares autografados, por títulos de edição única, livros e autores brasileiros que tenham sido muito populares, títulos lançados por várias editoras, exemplares de edição limitada a determinados grupos e também por edições refinadas que fazem do volume em si uma obra de arte (falarei mais detidamente sobre essas preferências nos próximos textos).

Dentre os meus queridinhos está Trágico Black-out, de Luz del Fuego. Passei quase dez anos procurando esse livro. Nunca vi em biblioteca alguma. Nunca conheci alguém que tivesse um exemplar. O que ele tem de especial? Para responder, preciso contar uma pequena história. Luz del Fuego – A bailarina do povo, de Cristina Agostinho, foi a primeira biografia sobre um personagem brasileiro que li e me marcou. Isso foi há uns quinze anos, numa edição do Círculo do Livro. Em 1998, crivei um site sobre Luz del Fuego. Ele foi comentado em várias revistas sobre Internet e logo daria origem ao Memória Viva, que completará dez anos em abril próximo, e tem uma carreira cheia de prêmios e dezenas de reportagens em jornais e revistas de todo o país. Luz lançou dois livros. Um álbum sobre nudismo, contendo várias fotos suas, intitulado A verdade nua. Teve duas edições. A primeira, recolhida pela polícia; a segunda, vendida apenas via correio. Foi seu segundo livro. O primeiro foi Trágico Black-out, em 1947, que teve apenas uma edição. É um romance com pinceladas autobiográficas que fez com que um de seus irmãos, senador, comprasse mais da metade dos mil exemplares impressos e desse fim a eles. Dos que escaparam do fogo, quantos você acha que chegaram aos dias de hoje? Um, eu garanto que chegou.

Outro personagem que me fascinou e cruza minha história e a do Memória Viva é o jornalista David Nasser. Tenho quase todos os seus livros, alguns em várias edições, alguns autografados. Também já falei aqui sobre os livros recolhidos por Roberto Carlos. Tenho todos. A recente biografia, Roberto Carlos em detalhes, de Paulo César de Araújo; Eu sou o Rei (1984), de Adelaide Carraro; e O Rei e Eu – Minha vida com Roberto Carlos (1977), confiscadíssimo, escrito por seu ex-mordomo, Nichollas Mariano. Tenho um livro dedicado pelo autor ao então presidente João Goulart; a primeira edição de quando se reuniu pela primeira vez a Poesia completa de Drummond, editada pela Nova Aguilar sob patrocínio da Bradesco Seguros e que não foi comercializada (foi presenteada a “amigos e clientes” da empresa); várias edições antigas (entre primeira e quinta edição) de autores como Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Menotti Del Picchia; uma edição de Éramos Seis ainda assinada pela Sra. Leandro Dupré, já que “não era de bom tom uma senhora de sociedade ser escritora” e, portanto, assinava com o nome do marido (a autora é Maria José Dupré); as maravilhosas edições da Confraria dos Bibliófilos do Brasil (todas desde 2005), que já nascem raras; e por aí vai…

Certamente deixei de citar algum livro que tenho e faria você babar, mas é provável que, para mim, ele não tenha grande importância. Ou talvez um deles apareça nos próximos textos, quando eu contar as histórias de como consegui este ou aquele volume ou ainda sobre os detalhes e surpresas que alguns me revelaram.

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4 respostas a As manias de cada um e o que faz de um livro uma raridade

  1. wilson disse:

    MEU DEUS!!! Como vou longe ao ver o livro de Maria José Dupré! “Éramos Seis” da Srª Leandro Dupré, não pseudonimo, mas homenagem ao marido… E o saboroso prefácio do Monteiro Lobato? Parece que está inteirinho dentro da minha cabeça…

    Certamente

  2. wilson disse:

    Coisa estranha!Internet lenta,difícil de receber e enviar. Estava escrevendo no seu comments e “craw”, fiquei sem energia elétrica!
    E mais estranho ainda, foi esse início do meu comments postado sem que eu o tenha enviado… Mistério…

    Mas, vamos lá.

    Lendo sobre a sua vida de Bibliófilo, bibliotecário, lembrei de alguns personagens muito interessantes que, por incrível que possa parecer, também são bibliófilos.

    O primeiro era um indigente que circulava pelo Jardim da Luz. Nada o diferenciava dos outros que por lá esmolavam. A diferença estava dentro de uma pequena mala que carregava. Dentro dela, alguns livros, embrulhados em papel-pardo. Seu Maior tesouro, como ele mesmo dizia.
    E o tesouro era revelado quando sentava-se em um banco, escolhia um livro. retirava-o da mala, cuidadosamente desembrulhava-o e iniciava a leitura.

    Alguns títulos que eu recordo dessa biblioteca-circulante de um sócio só: “Seara Vermelha”, “O Homem que Calculava”, “Diva” e uma incrível edição da ” Ilíada “!… Livros sem orelhas de marcação de página. Pasmem!

    O segundo, era o “signor” Nello, bibliófilo, dono de uma grande biblioteca que não era sua. “Dono” da Biblioteca Circulante de Mooca.

    Bibliófilo, Bibliotecário, passava a manhã na sala de leitura. Comunicativo, indicava livros aos freqüentadores; sabia onde estavam, penso, todos os livros que procuravam.

    Costumava, antes de ir embora, percorrer os longos corredores das estantes e,se fora de lugar, arrumar os livros… Afinal era a “sua” bilbioteca.

    Por quê dessas duas historinhas? Para mostrar que Bibliófilos podem ter um livro, alguns livros; uma biblioteca grande/pequena que pode ser sua ou não. Do indigente do Jardim da Luz, ou o “Seu” Nello ao grande MINDLIN existe algo que os nivela: o phílo. O grande amor e cuidado pelos livros.

    Se bem que, não sei se existem hoje em dia, há, ou havia, uma espécie degenerativa de bibliófilos… Os que compravam livros encadernados a metro para complementar a decoração de um espaço… Metros de livros com a encadernação na cor exata para se harmonizar com o ambiente…

    E conheço um bibliófilo-aberração: Ele tem um grande número de fichas, resumos de livros, comentários de “orelha”, etc. Neste caso, o phílo é pecuniário… Um grande amor pelo dinheiro que uma cópia de resumo lhe render…

    Abração.

  3. Jandiro disse:

    Posso, talvez, estar muito longe de ser enquadrado como bibliófilo, mas sei o que é “babar” por uma edição ou um título de um livro a ponto de não pensar em mais nada até consegui-lo.
    Jamais conseguiria me desfazer de “Mezzamaro Flores e Cassis”, de Cassandra Rios, por exemplo. Mesmo sendo uma edição mais recente, a tiragem única e reduzida concede a este livro um sabor todo especial. É uma pena que eu não possa literalmente devorá-lo e a tantos outros que cultuo em minhas prateleiras com maior frequência.
    Me identifiquei demais com teus textos sobre os livros. Abraços.

  4. Sandro Fortunato disse:

    JANDIRO, sinto (ou tenho prazer de) informá-lo que você tem o vírus da bibliofilia. Talvez numa versão mais branda, mas tem. Você se enquandra bem naquele tipo de colecionador de determinados autores. Inclusive (você sabe disso), graças a você minha busca pelos livros de Adelaide Carraro e Cassandra Rios foram muito facilitadas.

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