Bibliofilia, essa obsessão

A série de textos que inicio hoje nasceu de várias perguntas que as pessoas me fazem sobre o tema Bibliofilia, principalmente por alunos de Comunicação Social após palestras/conversações sobre História do Jornalismo Brasileiro, que sempre descambam para minha coleção de periódicos, e também por quem tem a oportunidade de conhecer minha humilde porém decente biblioteca. Os textos pretendem ainda servir como uma introdução e resumo de uma nova palestra/conversação exclusivamente sobre esse assunto.

Comecemos pela fria e triste definição dada a bibliófilo pelo Mestre Aurélio:

S. m. Colecionador de livros.

Mas sua definição de bibliofilia desmente tanta simplicidade:

S. f. Arte de colecionar livros tendo em vista circunstâncias especiais ligadas à publicação deles.

Minha escolha por designar bibliofilia como obsessão é justamente para dar um sentido de que não se trata apenas de mania de colecionar. É mesmo uma idéia fixa, que domina o modo de viver e agir. Para alguns, de forma tão mórbida que pode ser encarado como doença. Foi há menos de dois anos, no Arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp, que vi tal manifestação pela primeira vez. Pouco tempo antes, José Mindlin, conhecido como o maior bibliófilo do Brasil, havia doado cerca de 25 mil volumes de sua coleção à USP. Numa conversa informal à entrada do Arquivo, surgiu o assunto e alguém disparou: “Ainda bem que doou. Isso de juntar um monte de livros só pode ser doença”. Se for, eu tenho. E não vejo a mais remota possibilidade de cura.

É praticamente impossível falar em bibliofilia e não citar Mindlin. No entanto, a idéia aqui é concentrar o papo em minhas próprias experiências. Vou utilizar Mindlin, por ora, somente para algumas comparações. Você sabe qual é a diferença entre o bibliófilo rico e o bibliófilo pobre? O primeiro é um excêntrico; o outro, um esquisito. E a diferença entre um bibliófilo de idade mais avançada, que já tem uma biblioteca com alguns milhares de volumes, e um bibliófilo jovem com uma biblioteca ainda modesta? O primeiro é um intelectual refinado; o segundo, um maluco que gosta de criar traça.

Em 80 anos de bibliofilia, Mindlin juntou mais de 50 mil volumes. Eu ainda estou indo para o segundo milhar e, pelo andar da carruagem, devo chegar aos 5 mil antes de completar 50 anos. Mas ser bibliófilo não é apenas juntar livros. Se fosse, todo sebista seria um grande bibliófilo e a coleção de Mindlin, no quesito quantidade, seria risível na frente de alguns acervos que conheço.

Ser bibliófilo é ter uma relação de amor com os livros, é ter uma história com cada um deles, um porquê de este ou aquele fazer parte de sua coleção. Mas como nasce essa mania, essa obsessão? O sujeito acorda um dia e resolve ser bibliófilo? Pode acontecer, mas esse é do tipo que, diante de qualquer outra mania adolescente, ouve dos pais: “Quando crescer, passa”. O sujeito é rico e começa a comprar livros para decorar uma sala, porque é chique ter uma biblioteca? Acontece também. Nesse caso, é onde mais encontramos livros recheados de fotos, afinal, nada vai ser lido mesmo. Bibliófilo de verdade, em geral, é um grande leitor que um dia percebeu que não estava só lendo, mas comprando, guardando e cuidando de seus livros.

Eu não nasci em uma casa com livros. Mas, por algum capricho do destino, a vontade de meus pais em comprar coisas para o filho único casou com a existência de vendedores ambulantes de coleções. Assim, li e reli todo o Sítio do Picapau Amarelo, as fábulas e os clássicos infanto-juvenis mais conhecidos. Lá pelos oito ou nove anos de idade, acompanhando meu avô a uma gravação do programa de Chico Anysio, fizemos uma escala no Shopping da Gávea e, pela primeira vez, lembro de ter entrado em uma livraria e escolhido um livro. Foi O Corcunda de Notre-Dame, que tenho até hoje. Lembro também da vendedora encantada com o menino que comprava um livro – algo raro naquela época em que não existiam esses parquinhos que temos hoje nas seções de infantis – perguntar o porquê daquela escolha. Inocentemente respondi que “gostava de histórias de terror”. Ela riu e disse que eu iria me surpreender. Realmente, foi a primeira de muitas surpresas que tive em relação a que um livro pode guardar em suas páginas.

Depois vieram os vendidos em bancas de revistas. Edições populares, geralmente em papel jornal, de best sellers que viraram filmes – Gente como a gente, Christiane F.,… Nas livrarias, os autores populares da época como Sidney Sheldon e Harold Robbins. Também freqüentava a biblioteca da escola e a Biblioteca Pública do Méier. Isso foi entre os 10 e 13 anos. Em seguida, me mudei para Natal. Numa cidade menor e já adolescente, ficava mais fácil sair, conhecer livrarias. Freqüentava duas: uma quase em frente à Catedral, na Avenida Deodoro, e outra perto de casa, no bairro de Lagoa Seca. Nessa, lembro de uma vez em que, já no caixa, descobri que o livro que estava comprando não estava cadastrado e, portanto, estava sem preço. O caixa pega o livro e grita para alguém no segundo andar: “Fulano, veja aí qual é o preço de Reflexões fisiológicas de Einstein”. Nunca esqueço os olhares das pessoas que, como eu, deveriam estar imaginando Einstein filosofando sentado no vaso sanitário.

De 15 para 16 anos, estava na faculdade e comprava basicamente quatro tipos de livro: a coleção Por ele mesmo, geralmente sobre os malucos que eu gostava (e continuo adorando) como Jim Morrison, Janis Joplin e outros; a coleção Primeiros Passos, obrigatória para qualquer calouro; os livros sobre teoria da comunicação e jornalismo em geral; e ainda os livros que figuravam entre os mais vendidos. Algum tempo depois, mais ou menos ali pelos 19 ou 20 anos, percebi que tinha algumas dezenas de livros e costumava guardá-los com certo cuidado. A partir daí, outros livros começaram a se tornar mais comuns em minha estante: os de autores locais (pois eu costumava cobrir eventos culturais e tinha muitos amigos escritores, músicos e atores); os clássicos brasileiros e estrangeiros; e biografias.

Nessa época, praticamente não freqüentava sebos. Eu só gostava de livros novos e que tivessem sido “só meus”. Jamais imaginei no que iria me transformar mais adiante e, claro, hoje rio disso. As dezenas de livros foram se transformando em centenas, mas até o ano 2000, eram apenas “os livros que eu comprava para ler”. Uma “biblioteca morta”, como costumo chamar (falarei sobre isso no próximo texto).

Em 2001, mudei-me para Brasília e vários fatores modificaram radicalmente a forma de me relacionar com os livros. E talvez estejam aí as raízes da obsessão no sentido de “preocupação com uma determinada idéia, que domina morbidamente o espírito”, podendo até ser resultante de sentimentos recalcados. Primeiro, fui morar sozinho. Tinha mais tempo para mim, não tinha amigos e meu hábito de leitura se intensificou. Passei a ter contato diário com bibliotecas maravilhosas, principalmente as do Senado e da Câmara Federal. Comecei a ler livros que não poderiam ser achados em livrarias. Comecei também a sentir falta de ter meus livros à mão. Iniciou-se, então, uma nova fase de compras de livros e de visitas a sebos em Brasília, Rio e São Paulo. Ao mesmo tempo, comecei a comprar mais e mais livros de um único autor (Nietzsche, outra de minhas obsessões, seria um deles – sobre coleções de um único autor, falarei em outro texto, na quinta). Minhas pesquisas e compras de periódicos antigos também se intensificaram durante esse período e começaram a puxar as buscas por livros relacionados aos temas de meu interesse.

Um dia percebi que não tinha mais uma “biblioteca morta” dentro de casa. Cada livro tinha uma história que se juntava à minha. Eu me sentia íntimo de alguns autores. Tinha vários títulos iguais, mas em edições diferentes. O livro não servia mais só para ler. Havia muitas diferenças e várias histórias em torno de um mesmo título. Uma tradução diferente, uma edição comemorativa, um exemplar mais agradável de manusear, uma encadernação que por si só era um objeto de arte. Não era mais um amontoado de livros. Cada volume tinha um monte de histórias para contar além daquela escrita nele. E eu me dei conta de que conhecia essas histórias, que fazia parte de algumas delas ou era “aquele a quem elas haviam sido confiadas”. Os livros estavam pulsando nas estantes. Todos eles. Estavam vivos. Cada um, um velho amigo. Pronto: eu estava irremediavelmente contaminado.

Comigo, aconteceu assim. Não me dei conta do processo. Não percebi que estava me tornando um bibliófilo. Nunca planejei ser um. Admito, sou do tipo que acredita que primeiro se compra livros, depois, se sobrar dinheiro, comida e roupa. Para Pietro, meu filho que já nasceu entre livros, se também for um, talvez venha a dizer que bibliófilos já nascem bibliófilos. Em seu caso, poderá se manifestar uma bibliofilia congênita. No meu, foi bibliofilia a vírus, adquirida por anos de leitura e convívio com os livros.

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5 respostas a Bibliofilia, essa obsessão

  1. wilson disse:

    Hoje em dia, poucos têm “phílos” pelos livros, ou memsmo livros.

    Um dia, alguém te dá um livro, e, aos poucos instala-se o “phílos”. Findo um livro, abre-se outro: Rei morto, rei posto! Um novo rei, reina e a lembraça do morto fica. Lembrança que o “phílos” não permite que desapareça…

    FILO (do grego Phílos) Amante, amigo.

    Bibliófilo (Blblio + Filo), Amante dos livros; aquele que ama os livros; amigo doslivros.

    E realmente o “phílos” causa uma endemia e por vezes provoca surtos epidêmicos, principalmente quando é potencializado pelo “ia”… Aí, dana-se tudo. E não há vacina eficáz!!!… Graças a Deus!;)

    Hoje poucos lêem um livro. Vai-se ” à Internet em busca do texto ou resumo. Fazem amor pela metade…

    Manda mais!

    Abração.

  2. Admiro a bibliofilia, mas não sou assim. Amo a leitura, mas não tenho muito apego aos livros, no sentido de querer colecioná-los.

    Ao contrário, acho que colecionar livros pode ser inversamente proporcional à leitura. Explico: Quando leio um livro, posso trocá-lo por outro, vender e comprar outro. Se eu simplesmente juntá-lo a minha coleção, não teria essa oportunidade de uma nova leitura.

    É claro que, confesso, não consigo me desfazer de alguns livros. Mas somente de alguns, que marcam mais.

  3. Sandro Fortunato disse:

    É por isso que eu adoro blogs! A gente pode conversar com os amigos à distância e eles podem tocar em pontos fundamentais e enriquecedores para a discussão. Esse em que THIAGO tocou é muito interessante e ainda bem que ele disse que “colecionar livros PODE SER inversamente proporcional à leitura”. Ou seja, NÃO NECESSARIAMENTE É. No ano passado, por exemplo, mais de 250 livros “passaram a morar comigo”, como costumo dizer. E nenhum foi fruto de troca. Isto é, eu me proporcionei bastante leitura (leio cerca de 10 livros por mês e um de meus maiores sonhos é poder ler um por dia) sem precisar me desfazer de nada.

    Mas quem disse que bibliófilo não se desfaz de livro? Se desfaz, sim. E aí no texto está o maior exemplo disso, que é o Mindlin. Se eu chegar aos 90 anos e tiver o tanto de livros que ele DEU de uma tacada só à USP, ficarei muito feliz! Eu mesmo me desfaço: de livros que não me interessam mais, de livros que serão úteis a outras pessoas (vou falar sobre tudo isso numa série sobre o prazer de ler daqui a alguns dias) e até negociando porque sei de gente que paga uma baba por determinado livro quando, para mim, o dinheiro dado por ele (seja total ou por comissão) se transformará em outros livros que ME interessam.

    Como disse no texto, um bibliófilo de verdade é, antes de tudo, um grande leitor. E essa mania, no caso, só faz com que ele aumente sua capacidade e necessidade de leitura. No meu caso, funciona assim.

  4. joão disse:

    Sandro.
    Acho que o grande bibliófilo não é apenas que guarda livros, mas ele meio que os salva de algum precipicio. Mindlin apenas salvou e organizou uma biblioteca, que repassou pra USP. De uma certa forma todo colecionador é um salvador. Muitas coiss se perdem, se não fosse a compulsão de colecionadores elas estariam perdidas irremediavelmente. Acho que o colecionador, seja de conchinhas do mar, quanto de livros, atende a uma ordem que não sei de onde vem. E vai colecionando tudo. Um dia aquilo vira um museu , uma biblioteca ou coisas parecida. A origem dos museus são as coleções particulares.
    No mais, colecionar é no fundo uma tentativa de orgasnizar o mundo. Também se aplica naturalmente aos livros.
    abraço
    joão

  5. Ramon disse:

    Boa Tarde, por um acaso esbarrei no seu blog.. numa das minhas muitas navegadas pela net.. me tornei assiduo leitor e estou aki postando para parabenizá-lo e aproveitar para dar uma dica que no nosso meio é sempre bem vinda, trabalho em uma livraria chamada Babel Livros no Rio de Janeiro e temos sempre em nosso acervo destinado a Leilões muitas obras raras que podem ser compradas por uma pechincha.. muitas vezes entre 40 a 100 Reais, muitas pessoas se assutam com o termo Leilão pensando que somente ricos podem comprar o q não é verdade, posteriormente se vc tiver mais duvidas entre em contato comigo.. ou dê uma espiada no site http://www.babellivros.com.br

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