O convertido

Eu vos anuncio minha conversão. Já estava passando da hora. Há muito venho fingindo não ouvir o chamado e eis que resolvo entregar-me de corpo e alma.

Nos últimos tempos, os avisos vêm se tornando mais intensos. Primeiro foi o encontro com aquela maldita Amsterdam Maximator, 11,6%. Tomei, sobrevivi, enxerguei uma luz no fim do túnel. Era um trem. Eu estava bêbado, mas acordei a tempo de me salvar.

Agora foi a gota d’água. Eu disse “água”, esse líquido que sempre reneguei. Alexandre Frota vira evangélico. O fim do mundo se aproxima. Arrependei-vos enquanto há tempo, se é que ainda há!

Confesso que há anos freqüento a Igreja Alcoólica do Último Gole, do Reverendo Paulão. Fiel devoto, já participei de celebrações etílicas em vários cantos desse país. Trata-se de agremiação religiosa moderna, liberal, que incentiva curras milagrosas.

Resolvi radicalizar depois do anúncio de aposentadoria do malandro Alexandre. Quem fará o próximo anúncio de conversão? Regininha Poltergeist? Rita Cadillac? Que tal transformar logo a Brasileirinhas em igreja? É só mudar a razão social. De resto, continua a mesma sacanagem: ajoelhou, tem que…

Gozações à parte, admito minha incapacidade em entender esse festival de conversões. Religiosidade é o que pode haver de mais íntimo, mais pessoal. Por que então essa necessidade de exposição, de repetição de chavões, de guerra contra o diferente (que até ontem era igual)? Pior: por que só fazem isso com “igrejas” picaretas? Tem algum detalhe que perdi e não me deixa entender o processo. Por que não vemos mudanças verdadeiras e declarações (não publicidade exagerada e encheção de saco) do tipo: “Estou mais centrado e me aproximei do Budismo” ou “Voltei às minhas raízes católicas” ou ainda (caso você esteja pensando que tenho alguma implicância com o Protestantismo), “Tenho freqüentado a Igreja Luterana (ou Anglicana)”. Só se vende “salvação” nas neo-pentelhostais?

E ninguém venha me dizer que “as religiões tradicionais são instituições falidas” ou que “precisa de uma linguagem renovada”. Quem tem fé ou necessidade de uma vivência espiritual sequer necessita de mediadores ou atravessadores. Entende-se direto com o cara lá de cima, o lá de baixo, os do “ao redor”, os que “habitam toda coisa viva”… Quem busca juntar-se a grupo de picaretas só pode ter fé picareta. Não vejo nada de mais nem de mau que uma pessoa procure e se afine com qualquer organização. Mas, por favor, não misturem as estações. Chame de clube, não chame de igreja. Chame de diversão, não de religião. Chame de balada, não de cerimônia religiosa. Ou faça o óbvio: chame de “minha droga particular”, “minha birita”, “meu consolo”, “meu substituto de parceiro sexual”…

Para mim, essas tentativas, que quase sempre têm prazo de validade, não passam de uma fuga rápida para quem não está em condições de viver no mundo real. É Neo escolhendo a pílula azul – o viagra, o consolo artificial – e se jogando de cabeça na total alienação.

Acho mais fácil uma mãe dizer aos seus filhos que um dia já foi puta do que uma alienada que fez parte da “Igreja Bolinha de Sabão”. Como diz minha sogra ao ver aquele adesivo de carro no qual se lê Propriedade de Jesus: “E Jesus quer uma bosta dessa?”. Ou ainda como dispara meu senhorio Edmar – grande fiel da Igreja do Gole Eterno e também sobrevivente da Amsterdam Maximator – diante de um carro zero que “foi Deus que me deu”: Que deus escroto é esse que te dá um carro zero enquanto tem um monte de gente passando fome?

Fecho com a sentença de Ricardo Kelmer, que diz não querer ir para o céu porque não vai encontrar ninguém conhecido por lá. Que assim seja. Barman! Digo, Amém!

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6 respostas a O convertido

  1. Sandro Fortunato disse:

    Divirta-se com os anúncios que o Google vai soltar lá em cima por conta deste texto. E pode clicar em algum deles para ajudar na cervejinha do pai das crianças. 😉

  2. Há diferença entre religião e religiosidade. Entre instituição e fé. A primeira pode ser usada como ilusão ou propaganda. Mas a fé é pessoal e, como você bem observou, pode prescindir de mediadores.

  3. Adelmo disse:

    Cacildes Sandro!

    Disse, dizeu, tá dizido!

    Falô, tá falado, tá falido!

    Mandou bem, mandou bomba!

    PS – Comentário meu bem curtinho mas apropriado. Falar mais o quê? Tu disseste tudo!

  4. wilson disse:

    Por isso que eu, cristamente, continuo acendendo uma vela para Deus e outra para o Diabo… Previnir é sempre melhor do que remediar. 🙂

    Abençoado seja meu Nonno – ateu e anarquista – que nunca impediu os netos de ter uma religião (Claro que era por medo da minha Nonna. Ela capava ele!)

    O Franciscanos ensinaram-me a amar ao próximo, ao irmão Sol e a irmã Lua para que eu ficasse em paz com Deus. Eu gostei disso!

    O Padres Bentos ensinaram-me a orar e trabalhar e confiar na Providência Divina… E ensinar o povo a pescar e não dar-lhes o peixe.

    Também gostei!

    Com ambos aprendí a interagir no sagrado e no profano e tirar o maior proveito.

    Tudo era tão simples como simples eram o Bentos e o Franciscanos.

    Caindo no mundo, descobrí Lutero, Kardec, Umbanda, Quimbanda, e outras bandas… Mesmo assim era tudo muito simples.

    Derrepente a indústria da Fé, como a Microsoft, inundou o mercado. Igreja da Graça, Da Desgraça, Universal de Deus, Pentecostal, Pentebundal; Deus é Amor – desde que você faça um polpudo chequinho para Jesus…

    Faço cara de intelectual e rebobino a mente para o tempo em que havia a Católica Romana e o Sincretismo Religioso. O trabalho silencioso dos Metodistas, Anglicanos, Batistas. Todos sempre se dirigiram a uma das “moradas da casa do Pai”. Tudo sem alarde.

    Hoje tudo o que Lutero condenou a Indústria da Fé pratica: Óleos Santos de Jerusalém, água do Jordão, pentelhos focilizados dos profetas, rituais de magia e Jesus… Um Jesus que cobra, exige e castiga. Deus – o Pai supremo – virou um mero coadjuvante… É nisso que dá ser “fantasma” no seu próprio ministério…

    De Lutero,várias correntes apareceram. E de uns tempos para cá, apareceu o sincretinismo religioso visando acumular tesouros na terra e não nos céus… Afinal com todo o aparato de segurança que existe, pra que esperar pelo Paraíso?…

    Ainda bem que tenho os Bentos e os Franciscanos.

    Se bem que gostaria de ser um adepto da Igreja do Paulão… Mas como sou Velha Deflorada – com muita honra e orgasmos múltiplos, seria barrado no primeiro dia.

    Afastai-vos dos falsos profetas… E quanto mais a gente reza, mais as assombrações aparece…

    Abração.

    Irmão Wilson (freqüentador da Igreja de Jesus de Pau Grande, na cidade do mesmo nome 🙂 🙂 🙂

  5. Alexandre Frota evangélico? Sério? Acho que vou vomitar…

  6. Henderson disse:

    Há tempos vinha procurando uma igreja para chamar de minha. Posso afirmar que já fui a tantas e de tantos credos diferentes que as vezes confundia o ritual. Queria o pão sagrado na igreja evangélica, criticava o Papa na católica e até quis falar com o Rabino que mandava na mesquita. Depois de tanta confusão resolvi não ir mais às igrejas. Mas parece que agora vou me encontrar, finalmente!! E diante do meu histórico eu já poderia entrar como Cardeal, nesta tal de Igreja Alcoólica do Último Gole!!!

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