A miopia de Drummond

 

Olha. Os óculos da estátua? Que óculos e que estátua? Que piada mais sem graça! Estão metendo os dedos até nos olhos do poeta.

Copacabana é um mundo e Drummond não é rima ou solução. Em épocas de festas – e são muitas – o mundinho Copa superlota. Em outubro do ano passado, Parada Gay, somem os óculos de Carlos. Acharam, recolocaram. Uma vaca enorme ao lado, tomando conta. Carnaval, somem os óculos de novo. Carlos não pode ver os desfiles, as garotas no calçadão, não pode ver a banda passar.

À disposição dos turistas, dos bêbados, dos notívagos, sempre ali, sentado esperando. Não pode fazer nada. Não pode defender-se. Para que alguém iria querer aqueles óculos? Ao menos fossem verdadeiros, legítimos. Ah, Drummond, quem mandou ser míope?

Assim não vê o descaso com o qual cuidamos de nossa História. Sem óculos, não deve ter lido sobre o incêndio do Prédio Classes Laboriosas, em São Paulo. Cem anos, Drummond, cem anos tinha o prédio. Você não leu, mas eu conto. A cobertura dos grandes sites paulistanos dizia apenas que “um prédio na região da Sé pegou fogo”. Não sabiam qual era. Não conheciam sua história. Daí do Rio, neste Rio que o maltrata e rouba seus apetrechos, um jornal lembrou de pesquisar na Internet e mandou um tesoura press, copiando e colando o que estava lá no site da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas.

Eu fiquei lembrando minha máxima, tantas vezes repetidas, de que foto é como foda: adiou, perdeu. Quando em outubro de 2006 passei em frente a ele, Wilson avisou: “Fotografa”. Já quase sem memória na máquina, deixei para a próxima. Não tem próxima. Não teve. Em nenhuma das vezes que voltei lá depois disso. E agora, Carlos? Prédio não há mais. O fogo queimou, o povo sumiu, a água esfriou. E agora, Carlos? Mais um dos incêndios de fevereiro em São Paulo.

Fique com sua miopia. Nessa hora, talvez seja uma benção. O povo está em festa, em ilusão, esquecido de tudo. Acredite, melhor não ver. Querendo, empresto os meus. Fico eu a ver tudo embaçado. Não me importo.

Na tarde de quarta, país reaberto, a gente conversa de novo. Vamos ver as cinzas que sobraram.

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6 respostas a A miopia de Drummond

  1. joão disse:

    Sandro.
    Você é um grande cronista. Leio suas cronicas aqui no “Sempre” e me divirto, como curtias as do velho Braga ou de Sabino e Cia. Mas chega um dia que você não tem assunto e deita a falar mal do carnaval. Concordo que atualmente o carnaval tá muito ruim, péssimo, como o império absuloto da Axé, que é a coisa mais chata que já surgiu. Não consigo entender como alguém pode se entusiasmar com Axé e pior, agora, como Funk. Tudo bem, falar mal do carnaval atual eu também falo, mas não acho que seja uma festa idiota. Pelo contrário. Houve muita inteligencia em torno desta festa. Mas os tempos atuais, eu concordo, é melhor pegar um bom livro e deitar a ler.]
    tanto riso…
    abraço
    joão

  2. joão disse:

    Sandro.
    Faço minhas as palavras do Wilson. Minha senha não entra mais, aliás nem tenho mais senha pois ela apagou e não sei como entrar mais lá. Tens tanto a dizer, digo maldizer, sobre o carnaval que esqueces de dizer algo sobre o Estevão.
    tanto riso…
    abraço
    joão

  3. Sandro Fortunato disse:

    Ômi, assunto tem e muito, só não os acho muito interessantes para colocá-los aqui, muito menos em dias de Internet às moscas. E não falei mal do carnaval senão por algumas linhas. Falei do meu carnaval, de outros carnavais, da minha amada “Oh, linda!”… De resto, só meia linha de constatação: barulho, suor, tumulto, mau cheiro, confusão.

    E sobre Estevão… estamos de caso, você sabe. Não esqueço nem um um instante. Mas esse papo é para outro bar. Notícias em breve.

  4. wilson disse:

    Deixem que roubem-lhe os óculos! Coisa de despeitados, de gente invejosa que nada criou.

    Pensam que com isso toda a sua poesia desaparece.

    Até que é bom: Ele não terá de ver “às claras” o carioca que sái e não sabe se volta, se pega um lotação ou se uma bala perdida pega o carioca.

    Embora eu não goste de vacas – trauma causado pelas inúmeras Composições sobre ela no elementar – fiquei apaixonado por esta, “meio-macha”, de pernas cruzadas a ler o seu livro.

    E junto ao poeta!

    Poeta que, pensativo, deve dizer a si mesmo: “Pelo menos elas lêem… Será que lêem meus poemas?”…

    Ainda não fui ver o que restou das Classes Laboriosas, se ficaram-lhe as paredes o se dela restam os escombros somente. Mas vou lá ver.

    Quanto ao País das Maravilhas, Alice manda avisar que volta somente depois da Páscoa… Em caso de emergência, alugue o DVD do Padre Marcelo ou, se preferir espere a Bispa sair do xilindró. Relaxe, tome um trem suburbano ou então, vá de Rolex até a Praça da Sé. Aproveite! Curta a vida! ;)…

  5. joão disse:

    Sandro .
    Só agora me toquei que a fotomontagem do Drummond com a vaca é sua. Eu na hora achei que algum engraçadinho tinha levado uma vaca feita em algum tipo de plástico e colocado lá do lado do poeta. Veja que inocencia. Não tinha interpretado que era uma fotomontagem (assim que se chama montagem feita no computador?), de sua autoria. Portanto, um tanto atrazado, fica aqui meus parabéns pela bela fotomontagem. Sabes que eu era louco , como ainda sou, por fotomontagens? Vivia com uma tesoura e um montre de revistas velhas a picotar.
    tanto riso ó quanta alegria
    abraço
    joão

  6. Sandro Fortunato disse:

    Não é montagem, JOÃO. Essa era a “vaca leitora” ou “Vaca do Drummond”, da Cow Parade 2007, no Rio. As vacas ficaram expostas durante o mês de outubro e novembro. Essa aí foi uma das que chamou mais atenção. Outra foto que fiz na mesma noite pode ser vista aqui: http://www.flickr.com/photos/sandrofortunato/1938137779

    Todas as vacas da Cow Parade Rio 2007 podem ser vistas em http://rio.cowparade.com/cow/gallery e a do Drummond em http://rio.cowparade.com/cow/detail/46032

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