Krig-ha, Bandolo!

Cuidado, aí vem o inimigo, esse tal de carnaval! Diferente de outras épocas de folia, desta vez não fiz uma programação de filmes e livros. Fiquei meio como se estivesse em Olinda – e não estava? Oh, Linda, minha cama! – e fui sendo levado sem nem saber para onde.

Na noite de quinta, finalmente assisti a O homem que desafiou o diabo, primeiro filme sobre o qual falei sem ver. Não cheguei a errar em meu julgamento, mas, agora que vi, faço algumas considerações. O homem… é uma sessão da tarde que não pode passar na Sessão da Tarde por causa dos peitinhos e do palavrório. E há algo de muito interessante neste ponto. Rapariga, xibiu, priquito, feladaputa e outros chamamentos pode falar à vontade, mas buceta não pode. Opa, peraí, caceta! Por que não? Primeiro, buceta (com “u” porque esse negócio de boceta com “o” é coisa de lexicógrafo que não entende nada do tema em questão), repito, buceta é a palavra mais linda da língua portuguesa. Enche a boca. Fale cada sílaba demoradamente: BU – CE – TA. Gostoso, não? Experimente. Pois bem, há pudores cada vez que a dita é lembrada e acaba sem ser dita. Rapariga, xibiu, priquito, feladaputa pode parecer engraçadinho pra sulista. Fale essas coisas aqui no Nordeste pra você ver o tamanho do problema. Faça um teste, você que está aí pra baixo da Bahia. Bata na porta da sua vizinha e, quando ela abrir, pergunte gentilmente: E aí, piranha, já deu essa buceta pra algum filho da puta hoje? É a mais perfeita tradução de Sua rapariga vá dar esse priquito pra algum feladaputa! Mas vamos em frente… Inventei de ver o filme lá pelas 11h da noite. Quando acabou, tinha visto tanta gente conhecida que fiquei doido! Quis ver de novo. Fui passando, voltando, acelerando, voltando outra vez. Tudo pesado, até gostei. É divertido. Mas o livro – As pelejas de Ojuara – é muito mais. Aliás, achei ótimo o momento Hitchcock de Nei Leandro de Castro. Visto, volto a dizer: As pelejas… era para ter sido uma mini-série dirigida por Guel Arraes. Adaptação séria; não suco de livro liquidificado.

Sexta. Resolvi assistir a O signo do caos, de Rogério Sganzerla. Fico imaginando a raiva de um desavisado, desses que chegam na locadora e pedem um filme “com princípio, meio e fim”, “que tenha história”, e pegam O signo. Sganzerla é cinema para quem gosta de cinema, de história do cinema, para quem gosta de pensar, apreciar, admirar, acompanhar diretores, entender o conjunto da obra. O que me espanta em Sganzerla é sua coerência, a eterna rebeldia, sua esculhambação descarada. Com O signo do caos, ele desafia o espectador, o tempo todo, a não ver o filme. Pelo discurso, pela montagem, pela provocação. Não é para relaxar, não é divertido, não serve como entretenimento, você nunca não vai ver na Globo. Resumindo: é genial!

No sábado, desentoquei um pouco. Pela primeira vez, em 17 anos de existência do Encontro da Nova Consciência, que acontece sempre durante o carnaval, resolvi aparecer por lá para rever Ricardo Kelmer. Combinamos vários desencontros nos últimos nove anos: vou ao Rio, não conseguimos nos falar; ele se muda para São Paulo, vou lá, ele está viajando; ele vai à Brasília, me mudei… finalmente nos vimos aqui em Campina Grande. Mais difícil ainda foi achar um lugar que tivesse uma cerveja que prestasse para acompanhar o papo sobre escritores independentes. Ainda no Encontro, outro reencontro: Rômulo Tavares, que não via também há quase uma década. E uma surpresa: fui a uma mesa redonda da qual Kelmer era um dos convidados; outro deles era Luis Pellegrini, o homem da revista Planeta, sempre cheio de histórias para contar. Quantas pessoas você conhece que esteve com o Dalai Lama várias vezes? E conversou com ele? E num tempo em que o mundo ocidental mal sabia o que era Budismo e o Dalai Lama ainda não tinha ido uma única vez à Europa? E quantas pessoas você conhece que foi a um aniversário – só unzinho – de Pierre Verger? Dá raiva uma criatura dessas, não? Dá não. É uma delícia ouvi-lo.

De volta à toca, filminho. King Kong, o de 1933. O “meu” King Kong, claro, é o de 1976, com Jessica Lange, que vi na TV, já mais crescidinho, nos anos 80. Aliás, quem só viu esse, deve ter levado um susto enorme (engraçadinho!) com a versão mais recente, de 2005, quando outros monstros aparecem. Tenho uma predileção pelo Kong de 1933. Os efeitos, que hoje parecem extremamente toscos, devem ter causado sensação nas salas de cinema. E para mim, nem Jessica Lange, nem Naomi Watts batem a beleza e o charme ingênuo de Fay Wray. Ainda assim, vendo as expressões do gorilão daquela época segurando a loira, me vem à cabeça a dúvida cantada pela Gang 90: Será que o King Kong é macaca?

Leituras prejudicadas, ainda estou às voltas com outra biografia de Janis – a escrita por Alice Echols. Até a quarta de cinzas, quando o Brasil deve reabrir, tem ainda um Dalton Trevisan e Carnavais, malandros e heróis, de Roberto da Matta, antevendo o tom sério dos trabalhos de produção dos textos para a biografia de Carlos Estevão, os quais, após “esses dias de folia”, passam a ser minha prioridade.

E segue o trio. Tira o pé do chããããããão, galera!!!

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Uma resposta a Krig-ha, Bandolo!

  1. wilson disse:

    Putz! O meu é esse de 33! 🙂 O Original King-Kong continuou passando, nos cinemas de bairro até a chegada do segundo – “in collor” – nos anos 70.

    A primeira vez que o ví, “borrei-me” todo. Foi nos anos 60 e início dos 70, quando os filmes “B” infestavam as matinês. “O Escorpião Negro”, “Tarântula” , “O Perigo Vem Do Espaço”, “O Monstro Da Lagoa Negra”, Vampiros De Almas”, etc. Todos muito aterradores – para a época e idade – frutos do perigo iminente de uma guerra nuclear. Gritávamos, “cagávamos nas calças”, jurávamos nunca mais assistir “essas merdas”, e, na semana seguinte, corríamos ao cinema parra assistir “Frankestein”, “A Múmia”, “A Coisa”, “A Bolha Assassina”… … …

    Abração!

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