De outros carnavais

Os carnavais de minha infância, na década de 70, no Rio, foram nas ruas. Crianças fantasiadas, cornetas, confetes, serpentinas e grupos de bate-bolas. Vez ou outra ia ao Clube Caeté, próximo à minha casa, ou ao Clube da Light. Em casa, sempre os LPs dos sambas-enredos do ano e a indefectível transmissão dos desfiles das Escolas de Samba. Dois anos após a inauguração do sambódromo, que aconteceu em 1984, me mudei para Natal. Mesmo depois disso, em vários carnavais passados no Rio, nunca tive a mínima vontade de ir até lá. Mesmo quando me deram os ingressos, declinei do convite.

Na adolescência, em Natal, nos primeiros anos, carnaval era sinônimo de veraneio. A cidade ficava vazia e todos corriam para suas casas ou de amigos e parentes em outras praias. Assim passei carnavais em Muriú, Jacumã e outros locais do litoral potiguar em um tempo no qual essas praias eram semi-selvagens e o carnaval ainda podia ser considerado algo “bem família”. No início dos 90, o carnaval nas praias tentava achar um formato e o escolhido foi o baiano, com trios elétricos, camarotes com “celebridades” e coisas do gênero. Naquela época, cobri alguns carnavais para revistas ou jornais onde trabalhava. Em 94, em Pirangi, acompanhei os vips, dentre eles Selton Mello e sua então namorada Danielle Winits, todos nós mal entrados na casa dos vinte anos.

Em meados de 90, desobriguei-me de aturar a barulhada fosse qual fosse o motivo e meus carnavais passaram a ser de muitos filmes e livros ou de uma superprodução em relação ao trabalho que eu estivesse fazendo.

Em 2001, mudei-me para Brasília e cada carnaval era uma incógnita. Estive no Rio, acompanhando a Banda de Ipanema e vendo a diversidade e liberalidade sexual do carnaval da Zona Sul carioca; vi os blocos nordestinos e cariocas organizados pelos moradores de Brasília na tentativa de trazer para perto um pouco de seus costumes; descansei em Natal ou Campina Grande.

Carioca atípico, não sou chegado a carnaval, futebol, praia ou churrasco. Juntou mais de três pessoas, para mim já é tumulto. Adoro cidades que, durante os dias de folia, parecem ter sido atingidas por bombas atômicas: desertas, em total silêncio.

Há poucas provas de minha participação ou mesmo de minha existência em 35 carnavais. Nos próximos 35, se houver alguma será por interesse antropológico. Se.

De volta para a cama. Amanhã, conto como tem sido este carnaval.

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2 respostas a De outros carnavais

  1. wilson disse:

    Antes era assim: Uma máscara do Zorro, boné multicolor com aba de celulóide verde-transparente(meio que Ray-Ban de pobre) camisa havaiana estampada em coqueiros vistosos,colar havaiano, calça-curta branca e uma maldita sandália de camurça.

    Em cada pulso um par de algemas pai-e-mãe; algumas vezes as algemas afrouxavam e eu podía fazer uso do Lança-perfume, das serpentinas e confetes que trazia em um saco de filó. Tinha um apito, mas não usava.

    Ao fundo a Candelária, em cuja frente, no alto de uma escada magirus, dentro de um arremedo de gôndola, Linda Batista fazia a cobertura do desfile para a TV TUPI RIO.

    Assistíamos da calçada da avenida, em pé ou sentados no meio-fio.

    Depois, já na Sapucaí – ou Sapucay, como esteve escrito por muito tempo – os desfiles que ainda podíamos ver da calçada, começaram a evoluir e nós – a plebe rude, perdemos o direito: Só pagando. Só entrando naquela barricada grotesca, chamada de arquibancada… Merda! E a merda evouiu para Sambódromo… Fodeu de vez!!!

    Entre arquibancada e sambódromo, sem querer gastar “uma grana preta” o bom era putear um pouco pelo Bola Preta, ver as idas e vindas dos vips e da high-life, lá da calçada do Copacabana Palace; ver entradas de fantasias do Hotel Glória, do Monte Líbano… Ver a viadagem do São José, ou a frescura do Municipal.

    Sem saco prá bater essa perna toda? Simples: Era entrar na Barca e se mandar para o apartamento de uns amigos, lá na Amaral Peixoto, em Niterói e ver do alto o desfile das Escolas de Samba.

    Atualmente: Lá fui eu para Petrópolis – querendo distância do Carná. Tempo feio da porra.

    No terminal rodoviário de Sampa, uma vozinha interior,estranha, disse-me: “Vai não! Se você for, você “dança”! E eu, como não tenho vocação nenhuma para Chacrete ou Faustete,voltei prá casa e resolví ir para a casa de campo de um amigo, na periferia de S.Paulo e esquecer que o mundo existe. Voltei ontem, na madrugada com uma puta chuva…

    Um carnaval e tanto esse meu. Meio século de carnaval enche o saco de qualquer cristão…

    Vou parando por aqui. Senão vão me enforcar com metros e metros de serpentinas, encher a minha boca de confete e, pior, introduzir um lança-perfume Rhodocilíndrico no meu hemorroidal orifício…

    Abração! 🙂

  2. wilson disse:

    Ps: Errei sim… A irmãs sempre foram o meu caso seríssimo de amor. Mas, quem vivia perigosamente pendurada nas alturas era a Dircinha Batista. Um misto de cantora-apresentadora-repórtera, etc. da Tupi-Rio. O tempo passa e passa o apagador… Será a Tia Escle, ou o Tio Alz? Ou será que “me dedei” deixando entrever que a minha paixão pela Linda era maior?… 😉

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