Gibi, Grilo e outros bichos

No meio dos jornais e revistas de “gente grande” insinuam-se pequenas coleções – às vezes inteiras – de quadrinhos, principalmente das década de 1970.

Gibi, da RGE, sempre me chamou atenção por estar ligada aos quadrinhos que lia n’ O Globo. O formato tablóide, o papel jornal, os mesmos personagens… O que realmente acho interessante é o nome que, para nós, virou sinônimo de revista em quadrinhos. Isso começou muito antes, quase no tempo de (meu) vovô menino, em 1939, quando Gibi foi lançada (as que tenho são da década de 70). HQ, tudo bem, História em Quadrinhos. Comics vem lá dos States. Bédé ou B.D. (bande déssinée), na França. Acostumado a uma cultura servil, quando moleque, ficava me perguntando o porquê de “gibi”. Seria uma abrasileiramento de G.B.? E se fosse, o que seria G.B.? HQ em inglês? Desfeita minha ignorância, tomei consciência do poder de Roberto Marinho e fiquei sabendo que seu Gibi era tão popular que acabou designando tudo quanto eram quadrinhos por aqui. Alguém, ainda hoje, utiliza esse termo? Minha geração chamava de “revista em quadrinhos” e “revistinha”, o que era bem apropriado em relação ao tamanho que pegamos a partir do final dos anos 70 e que vemos ainda hoje nas revistas infantis. É o chamado formato brasileiro ou formatinho.

Na época em que a nova Gibi estava rolando, todo mundo queria lançar seus próprios títulos. A maioria capitaneada pelos quadrinhos americanos. Nas páginas do estavam, dentre outros, GriloTom K. Tyan (Tumbleweeds, para nós, depois, Kid Farofa), Reg Smithe (Andy Capp/Zé do Boné), Jules Feiffer, Wolinski, Brant Parker & Johnny Hart (O Mago de Id e B.C., somente Hart), Mell Lazarus (Miss Peach), Walt Kelly (Pogo), muito Schulz (Peanuts) e meus (e de muitos) favoritíssimos Robert Crumb e Guido Crepax (com sua Valentina). Eu era feto e recém-nascido quando o Grilo circulou em 1971 e 1972. Ainda bem que só chegaram às minhas mãos eu já adulto. Vez por outra, as tiro de seus plásticos e me delicio. Além de espirrar muito.

Grilo começou naquele formato de tablóide dobrado, como a Rolling Stone brasileira da época. Capa em papel branco, vinha em formato revista mas era preciso desdobrar para ler. Daí virava um tablóide com uma segunda capa maior. Depois ficou mesmo em formato revista e foi assim que, depois de desaparecer, surgiu Patota, apresentando basicamente os mesmos desenhistas. Quem também estava nessa patota era Mafalda, de Quino.

Há dois anos, fui presenteado por Wilson (comentador oficial do Sempre Algo a Dizer e meu Assessor Especial para Assuntos sobre São Paulo e Temas dos Anos 60) com uma coleção original da baixinha. Junto a essa, tenho especial predileção por outras duas coleções que possuo. Elas fazem parte do que chamo de “o contra-ataque”: Fradim, de Henfil, e O Bicho, editado por Fortuna, ambos lançados em 1975. Foi também naquele ano que pintava por aqui a MAD. Essa eu colecionaria já em sua fase dos anos 80.

Para escrever essas poucas linhas, fui mexer nos arquivos e agora estou quase sem voz e com uma coriza das boas. Mas eu adoro isso.

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