Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores

Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores
Uma paróquia sem paroquianos

Irmãos, os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus” (Rom 8, 8). Sete minutos além das oito da manhã. É domingo e as palavras da Epístola de São Paulo aos Romanos foram ditas no início da missa na Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores. Para quem vivia dizendo que sua primeira e única comunhão havia acontecido na quarta série primária, a ocasião é no mínimo insólita. Mais ainda se eu tivesse vindo de uma noitada logo ali na Rua Chile e feito uma escala na Quinze de Novembro antes de chegar à igreja.

Parece que as palavras querem chegar aos ouvidos daqueles que atravessaram a noite, mas a esta hora não há mais boêmios ou notívagos na Ribeira. Todos têm direito ao descanso, a um bom sono. Justo ou não.

A leitura anterior havia sido tirada de Ezequiel. Fala de um povo que pensa estar vivo, mas não está. Serão assim os que atravessam a noite na Ribeira? No sermão, o padre José Mário fala de um seio que fora achado no lixão da cidade e teria servido de alimento a indigentes. Esta é uma manhã de domingo definitivamente insólita.

De repente percebo que a imagem de Jesus crucificado olha em minha direção. Por que Ele estaria olhando logo para mim? Se eu tivesse me sentado em outro lugar, Ele teria a mesma atitude? Estaria me repreendendo por eu estar escrevendo em vez de prestar atenção ao sermão do padre? Pouco antes do início da missa fotografei-O do mesmo lugar e não lembro que Ele estivesse olhando para mim.

Nos avisos finais, após a liturgia, falando da procissão da Sexta-feira Santa, o padre José Mário diz que ela será à tarde, como de costume. “Deus me livre de ser à noite. A Ribeira é esquisita”.

A Ribeira parece ser esquisita para ter uma igreja. Um bairro tipicamente boêmio comporta uma igreja totalmente atípica. A paróquia de Bom Jesus das Dores da Ribeira não tem paroquianos. Explica-se: quase não há moradores na Ribeira. O bairro é comercial e os fiéis que acolhem à igreja vêm de todas as partes de Natal. “A paróquia da Ribeira não é uma paróquia de território, mas de pessoas”, revela padre Mário.

Mas nem sempre foi assim e para entender a atual situação da Igreja de Bom Jesus das Dores é preciso conhecer um pouco de sua história. Ela foi a quarta igreja a ser construída em Natal, a última no século XVIII. Câmara Cascudo – que lá foi batizado pelo Padre João Maria -, no capítulo Igrejas e Vigários de seu livro História da Cidade do Natal, diz que o mais antigo documento que ele havia encontrado era “um registro de óbito de Manuel Gomes da Silveira, falecido a 8 de agosto de 1774, por onde se constata ter tido o defunto sepultura na Capela do Senhor Bom Jesus das Dores”. Cascudo ainda esclarece que “apesar da Ribeira ser um bairro residencial e com o maior comércio a Capela foi sempre modesta, sem esplendores e seduções materiais”.

De 1915 a 1918, com a construção das torres pelo frade franciscano Frei André, a igreja tomava o aspecto que conserva até hoje. Nesta época de reformas aconteceu também uma história que não pode deixar de ser lembrada. Conta Cascudo em uma de suas Actas Diurnas que, em 1915, Henrique Castriciano trouxe para Natal os ossos do poeta Ferreira Itajubá, que morrera no Rio de Janeiro, a 30 de julho de 1912. Depois de alguns meses em cima de uma prateleira, Henrique Castriciano resolveu levar os ossos de Itajubá para a Igreja do Bom Jesus da Dores, para alívio de seu criado Ambrósio que, ignorando o conteúdo do caixãozinho, reclamava com o patrão que “não podia dormir com as cantarolas e versalhadas daquele freguês que estava dentro do caixão. Ambrósio afirmava que ouvia alguém cantarolar e dizer versos, horas seguidas”.

Pois bem. O caixão foi deixado, em depósito, com o Frei André. “Tempos depois, lembrando-se de promover o jazigo para Itajubá, foram amigos ao Bom Jesus (…). O padre explicou que, numa reforma, não sabendo o que fazer de tanto osso sem dono e sem sepulcro, mandara abrir uma fossa na Igreja e a todos enterrara, com orações rituais. Não sabia indicar onde”. Portanto, um dos maiores poetas do Rio Grande do Norte, que nasceu e morou na Ribeira, está enterrado na Igreja de Bom Jesus das Dores, só não se sabe exatamente onde.

A Freguesia do Senhor Bom Jesus das Dores foi criada no dia 9 de janeiro de 1932, pelo bispo Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas. Oitenta anos antes, no dia 21 de fevereiro de 1852, o deputado Leocádio Cabral Raposo da Câmara apresentara na Assembléia Legislativa seu projeto de criação da Freguesia mas, apesar do parecer favorável das comissões, o projeto não vingou.

O primeiro vigário foi o padre Frederico Pastors (1932-1934), missionário da Sagrada Família. A ele seguiram-se os padres Francisco Scholz (1935), Agostinho Hanneken (1936-1939), José Winterhalter (1940 a 1962), Guilherme Wirlenbrink (1963-1965) e Antônio Schulte Wrede (1966-1969). Alemães, holandeses, poloneses e franceses, os seis primeiros “padres da Ribeira” eram todos missionários da Sagrada Família. Ficaram na Igreja de Bom Jesus das Dores a partir de 1915. Depois construíram a Igreja de Santo Antônio do Alecrim.

O sétimo vigário da Ribeira foi o Monsenhor Manuel Pereira da Costa (1970-1972), seguido dos padres Talvaci Salustino Soares (1973-1974) e Oswaldo Honório de Freitas, que ficou de 1975 a 10 de outubro de 1997, quando morreu. Então assumiu a paróquia o padre Diocesano José Mário de Medeiros, a 9 de novembro de 1997.

O padre José Mário é natural de Caicó e acumula outras funções como professor do Seminário São Pedro, capelão da capela do Campus da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e diretor de uma creche que atende mais de 600 crianças em Mangabeira, no município de Macaíba.

Ele conta que se tornar vigário da Igreja de Bom Jesus das Dores da Ribeira foi um desafio muito grande. Os fiéis que freqüentavam a Igreja estavam acostumados com o padre Oswaldo, que foi o vigário por mais de duas décadas. Padre Mário diz que hoje em dia as pessoas não freqüentam mais a igreja do seu bairro, mas sim aquela na qual se identificam com o pároco e sua pregação. Seria uma espécie de “devoção pessoal”. “Hoje, quem freqüenta a Igreja da Ribeira são pessoas de vários lugares da cidade que me conhecem há 25 anos”, diz o padre. Ele explica que o orago, isto é, o santo que dá nome ao templo, é também um ponto importante que atrai os fiéis. “No caso da Ribeira, o orago é o próprio Jesus e as pessoas têm um grande afeto, um grande carinho pela figura do Jesus sofredor, crucificado”, e arremata dizendo que as pessoas podem mudar, mas sempre haverá gente na igreja, afinal “Jesus é Jesus”.

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5 respostas a Igreja do Senhor Bom Jesus das Dores

  1. Daliana Cascudo disse:

    Sandro:
    Estou adorando os seus artigos sobre a Ribeira, Velha de Guerra. Depois do Beco da Quarentena, o artigo sobre a Igreja do Bom Jesus das Dores, está maravilhoso…
    Valeu!!!

  2. wilson disse:

    O Mundo das Deduções: Todos conhecem a história desse templo. Não conhecem a história e nem querem conhecer. Ou, simplesmente, não ligam a mínima…
    Hoje em dia, modernizar significa destruir, arrazar, ou, mesmo sem os ideais de modernização, apenas ignorar o que é história. Ignora-se porque é velho. E o conceito de velho, neste país, significa que “tudo o que é velho deve ser ignorado”, descartável. Fazer o quê. A doença da falta de cultura, tornou-se cronica neste país…
    Esse templo realmente está cumprindo a sua função: Urbe et Orbis (para a cidade e o mundo). Deixou de ser paroquiana para ser de quem vier, quem necessitar. É um templo de portas abertas.
    Mais que outros, cumpre a sua função: salvar os pecadores. Um oásis em meio ao vício, prostituição e miséria.
    Tenho a impressão que Natal deseja entrar no século XXI quase aplicando uma política de “terra arrazada”. Vai perder muito com isso. Fazer turismo para ver prédios, só se for para a cidade de New York…
    A Natureza sempre se renova. Mas não na velocidade em que é destruída.
    Tem muita coisa da Velha Natal que poderia ser preservada. Para que não se veja a Cidade somente no século XXI. É preciso ver a Natal Colonial, Imperial e Republicana. É preciso ver o todo e não uma Cidade Amputada.
    Pena que esse bairro, com um mar de hístorias, vá se diluindo e se perdendo no esquecimento.

  3. Jorimar Gomes disse:

    Caro Sandro,

    Estou fazendo uma pesquisa sobre o terço dos Homens na Igreja do Senhor do Bom Jesus das Dores, se você ainda tiver alguma coisa sobre essa reportagem e poder me enviar, desde já agradeço.

    Grande Abraço,

    Jorimar Gomes

    Aluno do Curso de Ciências da Religião na UERN

  4. Rita Medeiros disse:

    Nunca morei em Natal,
    mas minha irmã morava em Natal e trabalhava na Ribeira
    em um linda casa de material de construção
    linda porque lá só era vendido material fino
    para ornamentar belas construções.
    Não lembro o nome-mas tenho saudade
    daquele tempo.
    Rita

  5. Renato Wanderley disse:

    Sou cearense e moro em Fortaleza. Tenho alguns amigos em Natal e sempre que visito a capital potiguar assisto uma missa na Igreja de Bom Jesus das Dores, na Ribeira. Neste local fui abençoado.

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