Eles morrem antes

Impossível ouvir sobre a morte de Heath Ledger e não pensar imediatamente em James Dean. Jovens, loiros, atores de sucesso, morreram sem assistir a um trabalho consagrador. Dean foi o primeiro a receber uma indicação póstuma ao Oscar. Por tudo que andam dizendo, pode acontecer o mesmo com Ledger e seu Coringa.

Mas a lebre que quero levantar aqui é outra. Outras. São duas. A primeira é a da má informação e/ou da informação maldosa. Overdose. Diga-me: você escuta essa palavra e pensa em quê? Que o cara era um cheirador ou um viciado em heroína que finalmente deu uma a mais. Cai de imediato qualquer boa imagem que a pessoa tenha construído. O bom ator, o bonitão, o tal era “na verdade” uma criatura descontrolada, um fraco, um mentiroso que escondia suas fraquezas e seus vícios.

A (vamos à maldita…) suposta overdose da qual Ledger morreu teria sido causada por comprimidos para dormir. E aí eu lembro de outro jovem, morto aos 27 anos por esse mesmo motivo: Jimi Hendrix.

Com a palavra, Pedro Ferreti, em nota n’O Pasquim, edição 81, de outubro/novembro de 1970. É sobre música, mas serve para qualquer área da indústria de entretenimento:

Esse negócio de moda em música popular é fogo. Uma forma qualquer pega, e a indústria de discos a explora até o último bagaço, quando satura e todo mundo quer coisas novas. (…) Na insegurança em que trabalham, no meio que vivem, onde raramente o que reluz é ouro, nada mais compreensível que procurem um remédio para os nervos. Daí a Hendrix, sufocado pelo próprio vômito (barbitúricos), e a Joplin, de braço todo picado (…) é um passo pra vocês-sabem-o-quê.

Levanto a segunda lebre: vale a pena viver assim? Existe droga pior que uma vida de fantasia que acaba tão rapidamente com a vida real?

Descansem em paz as vítimas da máquina de fazer dinheiro.

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6 respostas a Eles morrem antes

  1. joão disse:

    Sandro.
    Pedro Ferretti era um dos pseudõnimos que o Ivan Lessa usou no Pasquim. Estou fazendo um dicionário de pseudonimos, se souber de algum… Naturalmente será da literatura, jornalismo e letras afins.
    abraço
    joão antonio

  2. Sandro Fortunato disse:

    Bela e elucidativa nota. Tenho alguns do pessoal da Cruzeiro e outros mais antigos, de jornalistas e escritores do início do século XX. Mando por e-mail.

  3. wilson disse:

    Coisa de Americanos. Acho que é genético.
    Uma festinha “rave” ou uma reunião de adolescentes vira uma “Farm Party”. Para fazer uma “Farm”, você e seus amigos pegam todo o tipo de comprimidos que encontrar nos armário de remédio – pode ser até o anticoncepcional da mãe – e toma tudo com goles de bebidas subtraída do bar do pai.
    Todos sabem que remédios e álcool é perigoso. Mas todos se acham super homens…
    É o “american way of life”.
    Mesmo que inventassem a tal PANACÉIA – remédio para todos os males físicos e morais, o americano inventaria um remédio para reverter o processo e morrer de overdose.
    Quando se vive de forma materialista, se é materialista é preciso soluções imediatas, sem dar tempo ao corpo, mente e alma e recuperar o equilíbrio.
    Numa sociedade onde se é criado para ser o primeiro, quando não se é, o recurso e tomar todos os remédios que façam sentir como fosse o “the best”, “the one” e, como no filme “O Pequeno Grande Homem”, gritar: “Eu estou no topo do mundo!” Antes de explodir…
    Felizes somos nós, os “terceirosmundistas”. Que não temos dinheiro nem para comida, quanto mais para remédios…

  4. joão disse:

    Sandro.
    Ops!Me desculpa a confusão. O pseudonimo do Pedro Ferreti é do Paulo Francis, e não Ivan Lessa como disse. O do Ivan no Pasquim era Caldas Marombão. Personagen que é homenageado pela turma do Casseta e Planeta, há um personagem lá com este nome.
    sempre algo a desculpar.
    abraço
    joão

  5. Jandiro Adriano Koch disse:

    Olá,

    Não concordo que o ator não tivesse sido reconhecido ainda… Acho que o filme dos cowboys e coisa e tal (sem apologias, apesar de eu ser gay) foi mais do que o suficiente… E A Última Ceia, então?
    Mas, meu objetivo é outro… Me repassem o contato do João que está fazendo um dicionário de pseudônimos. Quero discutir alguns que procurei investigar… (Márcia Fagundes Varella, Brigitte Bijou, Dr. G. Pop…). Se não forem “desvendados” logo, acredito que podem perder-se no tempo (ou será que já estão claros e só eu que não sei?).
    Até!!!

  6. Sandro Fortunato disse:

    JANDIRO, eu me expressei mal ao dizer “morreram sem assistir a um trabalho consagrador”. Isso dá margem à interpretação que você teve. Quis dizer que ambos DEIXARAM um trabalho consagrador que não chegaram a ver nas telas do cinema. No caso de James Dean, Assim caminha a humanidade; e no de Ledger, The Dark Knight, próximo filme de Batman no qual ele interpreta o Coringa, que roubou todas as atenções antes mesmo do filme estar concluído. Particularmente, acho que Ledger se consagrou desde 10 coisas que eu odeio em você. E Dean, nem é preciso dizer, também se consagrou em seu primeiro trabalho no cinema, Juventude transviada.

    Estou enviando o e-mail do João para você.

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